Contagem regressiva para o Oscar: o ano de 1952

Contagem regressiva para o Oscar: o ano de 1952

Faltam quatro dias para o Oscar e ainda não nos cansamos de analisar essa cadeia hereditária que são as premiações da Academia.

No dia 20 de março de 1952, uma tarde de quinta-feira com um lindo sol azul, um dos filmes mais ousados que a Old Hollywood já conhecera varria quase todos os prêmios de melhor ator e atriz. Além disso, Gene Kelly estrelou “Um dia difícil para os inimigos”, levando para a casa o Oscar Honorário. E o filme mais caro de 1951 que não levou nada para a casa? Quo Vadis só levou prêmio de melhor escândalo do ano.

E o prêmio de melhor escândalo vai para Quo Vadis

PARA COM ESSA FOFOCA!!!!

Em 1951, Quo Vadis, o épico mais caro da MGM naquele ano, foi palco do capítulo final de um épico que durava quase 12 anos: o casamento de Barbara Stanwyck e Robert Taylor. Mesmo não tendo servido para receber sequer um prêmio da Academia, Quo Vadis foi a cereja do bolo no relacionamento do casal. Além é claro de ter perdido rios de dinheiro, investimento e suor da MGM. Bob passou boa parte do ano rodando o filme em Roma, em 1950, com uma vida social pra lá de agitada. Ele era visto na companhia de Lia de Leo, uma starlet italiana. Missy foi direto para Roma lavar a roupa suja. Não era a primeira vez que algo semelhante acontecia, quem aí lembra do causo Lana Turner? Com o temperamento de Missy (cheia de manias, toda dengosa feelings) eles devem ter lavado a roupa até o alvejante terminar. O fato é que ela o confrontou e pediu o divórcio. Acredita-se que isso era muito mais uma jogada do que um desejo verdadeiro de se separar. Para a surpresa dela, ele aceitou o pedido de divórcio!

O épico mais caro de 1951, na verdade, chamava-se Então me ajude a segurar essa barra que é gostar de você e não Quo Vadis.

Queridinho, eu estou vendo você flertando com outras na minha presença.

A ozadia vai ao Oscar: Uma rua chamada pecado

 

Uma rua chamada pecado é um desses filmes que você não acredita ter sido rodado em 1951. A película de Elia Kazan exala tensão sexual desde sua abertura, um jazz pra lá de sensual, até o confronto final entre os personagens Stanley e Blanche Dubois. Talvez por isso fiquei tão surpresa ao constatar que Uma rua esteve entre os indicados ao Oscar de 1952 em 12 categorias, entre elas melhor filme. A fama de conservadora da Academia não é de hoje, por isso poderíamos pensar que uma história em que uma cena de estupro é mostrada (lembremos que estávamos em 1951 e assuntos como esse ainda eram tabu) seria ignorada. Vamos dar uma olhada aos indicados a melhor filme de 1952:

a) Sinfonia de Paris;

b) Um lugar ao sol;

c) Quo Vadis;

d) Decisão antes do amanhecer ;

e) Uma rua chamada pecado;

 

Uma rua chamada pecado é de longe o filme mais destoante entre os cinco concorrentes. Sua atmofera é infeliz, por vezes claustrofóbica, tudo isso num misto de loucura e banhos escaldantes. Hollywood sabia do seu valor artístico, mas jamais poderia premiar um filme com tais valores. Por isso, no fim das contas, Sinfonia de Paris levou a melhor naquele ano.

HEY, STELLA, TRAZ O OSCAR DE MELHOR FILME PRA ESSA BELEZURA!

Uma rua chamada pecado varrendo os prêmios de melhor ator coadjuvante, melhor atriz e melhor atriz coadjuvante

 

Uma rua chamada pecado pode não ter faturado a tão cobiçada estatueta de melhor filme, mas no quesito ator/atriz varreu o Oscar!

Kim Hunter venceu o Oscar de melhor atriz coadjuvante por seu papel como a irmã de Blanche Dubois (Vivien Leigh), Stella. Aliás, que papel coadjuvante mais maravilhoso, hein? A atriz é o contraponto à personalidade desequilibrada de Blanche e protagonizou ao lado de Marlon Brando uma das cenas mais picantes da história do cinema. HEY, STELLA, VEM BUSCAR TEU OSCAR!  Parece que gritar por seu nome não adiantou muito porque ela não compareceu à cerimônia e Bette Davis recebeu a estatueta por ela.

Karl Malden faturou a estatueta de melhor ator coadjuvante por seu papel como o amigo de Stanley (Marlon Brando), Mitch. Gente, como não amar? Mitch é uma mistura de doçura e inocência, uma oposição interessante ao ambiente violento que o cerca. Ele nutre o desejo de se casar com Blanche e ser feliz para sempre. Bem, parece que Karl foi mais feliz que Mitch neste quesito…

UMA DEUSA, UMA LOUCA, UMA FEITICEIRA, ELA É DEMAIS… VIVIEN LEIGH!

Eu? Uma grande atriz? Imagina!

 

 

Uma palavra, um sentimento: lacradora! Blanche Dubois foi um dos papeis mais memoráveis de Vivien Leigh desde Scarlett O’Hara de E o vento levou. Mas toda a doçura e jovialidade de Scarlett converteu-se na sombria mas cativante personalidade de Blanche Dubois. Até que ponto Vivien é Blanche? Onde começa Vivien e termina Blanche? Ou vice-versa? Questões que permanecem sem resposta até hoje e que nos fazem pensar no quão envolvido o ator pode ficar com um papel. Em 1951, Vivien já sofria do transtorno de bipolaridade e a vida era difícil para ela. Nas gravações de Uma rua chamada pecado envolveu-se com Marlon Brando. Por ter se doado tanto a um papel não é surpresa que ela tenha derrotado concorrentes fortes como Katharine Hepburn e Eleanor Parker na categoria de melhor atriz. Infelizmente Vivien não foi buscar o merecido Oscar e Greer Garson foi receber o prêmio por ela.

O esquecido do ano

UEPA! *voz de Vera Verão* Mas você falou sobre Vivien Leigh, Kim Hunter e até desse ator que fez o Mitch e eu nem sabia o nome e esqueceu do Marlon Brando? Pois é. Ah, a Academia, essa caixinha de surpresas. A concorrência para melhor ator daquele ano estava forte, tínhamos Montgomery Cliff, Fredric March e Bogart indicados à categoria de melhor ator. Quem levou a melhor foi Boogie, mas lá no fundo a gente sabia que o ano era de Brando. Certa vez ouvi a atriz Marsha Hunt declarar que acreditava que Marlon Brando tinha sido uma revolução para o cinema tanto quanto o advento da televisão. Não poderia concordar mais com ela. O ator veio da escola de atores de New York, fundada por Elia Kazan, e mudou a história do cinema com seu Stanley Kowalski. Ele atinge um nível de violência que ninguém nunca tinha visto na história do cinema. A cena em que ele vira a mesa em que Blanche e Stella estão sentadas é épica. Mas parece que a Academia achava que já tinha cedido bastante para um filme tão ousado que o Oscar de melhor ator nem ia fazer tanta diferença…

Um brinde à Academia que me esqueceu completamente!

Outras curiosidades:

  • Katharine Hepburn recebeu a sua quinta indicação ao Oscar por Uma aventura na África;

  • Foi o primeiro ano em que o Oscar de melhor filme foi dado aos produtores do filme ao invés de ao estúdio, refletindo que Hollywood estava mudando. Naquela época, os grandes magnatas dos estúdios tiveram de abrir mão do controle das salas de cinem. Tal medida fez com que perdessem muito dinheiro;

  • Sinfonia de Paris foi o terceiro musical a ganhar o Oscar de melhor filme. Os outros foram A melodia da Broadway e Ziegfeld – o criador de estrelas;

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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