Contagem regressiva para o Oscar: o ano de 1940

Contagem regressiva para o Oscar: o ano de 1940

Costuma-se dizer que 1939 é o melhor ano do cinema ever. Era de se esperar, então, que no ano seguinte, na premiação da Academia, o kisuco fervesse. Muitos filmes ótimos e memoráveis foram feitos naquele ano, do tipo que lembramos até hoje – realmente, você se lembra de TODOS os filmes que concorreram ao Oscar há cinco anos atrás?

Então… 1939 foi um ano inesquecível do cinema, e, é claro, isso se refletiu no Oscar de 1940 – meu ano favorito da premiação.

Teve prêmio de melhor ator marmelada, gente fazendo história, E o vento levou lacrando, aquele veneninho básico, and more.

 

O ano em que foi difícil escolher o melhor filme 

 Eu não queria ser o povo que votou no Oscar desse ano de jeito nenhum. Apesar do fato de que meu favorito absoluto concorria – e ganhou – em 1940, a lista dos indicados é lacrante:

  •  – E o Vento Levou (Gone with the Wind)
  • – Vitória Amarga (Dark Victory)
  • – Duas Vidas (Love Affair)
  • – A Mulher Faz o Homem (Mr. Smith Goes to Washington)
  •  – Ninotchka 
  • – Carícia Fatal (Of Mice and Men)
  • – No Tempo das Diligências (Stagecoach)
  • – O Mágico de Oz (The Wizard of Oz)
  •  – O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights)
  • – Adeus, Mr. Chips (Goodbye, Mr. Chips)
 Assisti mais da metade dos filmes dessa lista, e posso assegurar que não saberia escolher. Não, mentira. É claro que votaria no grande vencedor da noite: E o vento levou. Mas só afirmo com tanta certeza pela grandeza de toda a produção, e o frisson que o lançamento causou. Mesmo que não tivesse para mais ninguém naquele ano, dados os fatos, não consigo encontrar um ano do Oscar que tivesse tão grande número de filmes ótimos indicados da categoria de Melhor Filme.

Vivien Leigh mostrando a que veio

David O. Selznick e Vivien Leigh estrelando
em: “Dia difícil para as inimigas”.
 
“Do jeito que você me olha, vai dar namoro”: Viv
e Larry juntos no dia da premiação. O sucesso pós-
Oscar dela, dizem, deixou o ator ressentido.
Vivien Leigh enfrentou uma competição acirrada para conseguir o papel que a consagraria definitivamente no cinema mundial; foram mais de duas mil atrizes testadas para a parte de Scarlett O’Hara, na obra adaptada do best seller de Margaret Mitchel, E o vento levou – o campeão de indicação (foram treze, no total, vencendo oito), e recordista absoluto até então. Viv conseguiu o papel num clima de contestação total: uma inglesa fazendo o papel de uma americana legítima e carimbada como Scarlett? A maioria torceu o nariz, inclusive Clark Gable, seu co-protagonista. Além disso, enquanto filmava ela teve de ficar longe de seu marido Laurence Olivier, que estava trabalhando do outro lado do oceano, justo na fase de Amor I love you hardcore que eles viviam naquele momento. Some-se à isso brigas nos bastidores com Gable, uma troca constante de diretores e um clima estranho no set.
Pois é, contra todas as adversidades, Viv calou a boca de quem desdenhava dela para o papel, e deu um show. Ela FOI Scarlett. Então nada mais justo do que ela ter levado o Oscar de melhor atriz daquele ano, derrotando ninguém mais, ninguém menos que: Greta Garbo, Bette Davis, Greer Garson e Irene Dunne. Apesar da concorrência forte, afinal, todas as atrizes que concorriam foram ótimas em suas respectivas atuações (nenhuma Jennifer Lawrence nesse ano, HEHE), não teve pra mais ninguém: Deu Viv na cabeça.
Hattie McDaniel fazendo História

1940 foi um ano em que a Academia quebrou um paradigma ao entregar o Oscar de Melhor Atriz para Hattie McDaniel, pelo personagem Mammy, em E o vento levou. E não só isso: ela também foi a primeira atriz afro-descendente a ser indicada ao prêmio. A atriz estava visivelmente emocionada ao receber o prêmio, como você pode ver nesse vídeo. Apesar desse novo passo em direção ao que parecia um futuro promissor (a história demoraria a mudar, se é que mu.dou completamente do que era!), a história que envolve a atriz nos eventos é bem triste: Hattie não pode comparecer à estreia do filme em Atlanta, por causa das leis racistas que vigoravam no estado da Geórgia, em todo o Sul dos Estados Unidos. Além disso, a biografia da atriz dá conta de que ela estava com medo de aparecer na cerimônia do Oscar, por conta de ameaças da KKK. Horrível, não? E fica pior: Hattie não pode aparecer no Red Carpet, muito menos sentar com seus colegas de elenco durante a cerimônia de premiação. Clark Gable, que era amigo da atriz, ameaçou boicotar a premiação, mas foi convencido do contrário por Hattie.

Abaixo você pode ver no destaque a atriz sentada bem separada, no fundo do salão com seu acompanhante, e afastada do cast de E o vento levou. Imagens como essa me deixam irritada e com vergonha. Muita vergonha. Ainda bem que Hattie levou o Oscar pra casa, dando o primeiro passo em direção à mudança, nesse longo e vergonhoso capítulo da História

Clique para ampliar: no detalhe, Hattie e seu acompanhante foram obrigados
a sentar afastados das outras pessoas, numa mesa exclusiva.


Prêmio flop de melhor ator

Se tem uma coisa que me deixa irritada quando penso no Oscar de 1940, é o prêmio de melhor ator daquele ano. Veja bem. Você tem os indicados abaixo para cada um desses filmes. Ok. Pra quem você entrega o prêmio?

a) Mickey Rooney – Sangue de Artista (Babes in Arms)

b) Clark Gable  – E o Vento Levou (Gone with the Wind)

c) James Stewart – A Mulher Faz o Homem (Mr. Smith Goes to Washington)

d) Laurence Olivier – O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights)

e) Robert Donat – Adeus, Mr. Chips (Goodbye, Mr. Chips)

 Gente, eu entregaria esse Oscar nas mãos fácinho do B, C, e D. Eles que se virassem pra dividir.

Mas, a Academia. Ah, a Academia, a mesma que premiou Jennifer Lawrence, e a picolé de chuchu, Gwyneth Paltrow, ao invés de Emmanuelle Riva e Fernanda Montenegro, respectivamente… Então. Eles foram lá e deram o prêmio para o Robert Donat. Vontade de pegar o Delorean, voltar pra 1940, meter o pé na porta do Ambassador Hotel e gritar: ESTOU GRÁVIDA DE LUÍS CARLOS PRESTES! DEVOLVAM O OSCAR DO GABLE! Ou ao menos entreguem pra quem mereça mais. Humpf! Donat só ganhou o Oscar por ter perdido no ano anterior por The Citadel. E o filme Adeus, Mr. Chips só teve tantas indicações porque precisa de uma forcinha; o filme estava mal das pernas nas bilheterias.

A vergonha foi tanta, que ele nem apareceu pra receber o prêmio. Detalhe: na época, os indicados já sabiam antes da cerimônia quem tinha levado cada prêmio. E mesmo assim, eles apareciam por lá. Bette Davis e Clark Gable foram, mesmo sabendo que tinham perdido seus respectivos prêmios.

 
 Curiosidades
 
Mickey Rooney e Judy Garland tocando fogo no cabaré.
Judy levou um Oscar Especial, ao ser votada a melhor atriz juvenil de 1939.

 

  • – E o vento levou foi o primeiro filme colorido a levar o prêmio de Melhor Filme.
  • – Esse foi o último ano em que os nomes dos vencedores era anunciados antes da cerimônia.
  • – Sidney Howard foi o primeiro vencedor póstumo de um Oscar. Ele ganhou Melhor Roteiro por E o vento levou.
  • – Douglas Fairbanks ganhou um Oscar Honorário pela sua contribuição ao cinema, tendo sido o primeiro presidente da Academia.
  • – Harold Arlen e E.Y. Harburg levaram pra casa o prêmio de Melhor Canção por Over the rainbow, de O mágico de Oz (merecido, não?)
  • – Walt Disney ganhou o prêmio de Melhor Curta de Animação por O patinho feio.

Escrito por Camila

Formada em Letras e na Academia Douglas Sirk de sofrência e pregadora na Igreja Universal do Reino de Woody Allen. Uma professora de inglês apaixonada por musicais. Faz parte da Comissão de Avaliação, Seleção e Fiscalização, na área de Cinema e Vídeo, do Financiarte de Caxias do Sul.

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