Ciúme, sinal de amor (1949)

Ciúme, sinal de amor (1949)
I adore the man. I always have adored him. It was the most fortunate thing that ever happened to me, being teamed with Fred: he was everything a little starry-eyed girl from a small town ever dreamed of. (Ginger Rogers)
He gives her class and she gives him sex appeal.
(Katharine Hepburn)

Hollywood é a terra, entre outras coisas, da fofoca. É meio que impossível distinguir os boatos das verdades. Algumas dessas fofocas acabam por tornarem-se lendas. É o caso do relacionamento profissional e pessoal de Fred Astaire e Ginger Rogers.

É impossível falar do último filme que essa dupla fantástica fez, sem comentar sobre os aspectos pessoais que envolveram a parceria. Isso porque The Barkleys of Broadway, de 1949, dizem as más línguas, é de certa forma uma fábula daquilo que foi o relacionamento real entre Fred e Ginger.

Dez anos após seu último filme juntos na RKO, A História de Irene Castle e Vernon, de 1939, não havia sinal de que Fred e Ginger fariam algo novamente juntos. Rogers finalmente conseguira se desprender da imagem de atriz exclusiva de musicais e parceira de Fred, inclusive tendo ganhado um Oscar de melhor atriz em 1940 com a personagem-título de Kitty Foyle.

Em 1949 Ginger já era uma atriz consagrada, assim como Fred, que continuava fazendo musicais, um melhor que o outro. Até chegar à produção de Ciúme, sinal de amor, temos uma quadrilha que envolve, além dos dois, Judy Garland e Gene Kelly. Explico: Gene e Judy estavam formando uma dupla fantástica em musicais. Ele simplesmente a adorava, logo ele, tão perfeccionista. Sendo assim, fizeram três filmes juntos. E fariam mais um: Desfile de Páscoa, em 1948, não fosse pelo fato de Gene ter se machucado no início das filmagens. Ele ligou para Fred, que o substituiu no filme, que acabou sendo um sucesso. Fred, outro perfeccionista, também se encantou com Judy, e quis logo trabalhar outra vez com ela.

Nesse ínterim, eles receberam uma carta de Ginger, parabenizando-os pelo trabalho do filme, que ela adorou. Surgiu então o roteiro de Ciúme, sinal de amor, e Judy e Fred se preparavam para começar as filmagens, ensaiando exaustivamente. Acontece que Judy se machucou (sentiram o Djavan?), e logo os produtores sondaram Ginger, e viram ali uma oportunidade de ouro: o retorno da dupla mais amada dos musicais, e ainda por cima em Technicolor!

Surgia então aquele que foi o último filme que assisti em 2014! E, realmente, eu fechei o ano com chave de ouro. Fiquei completamente encantada com a oportunidade de ver Fred e Ginger dançando em cores.

Ciúme, sinal de amor não difere dos antigos filmes da dupla na RKO só por ter sido feito em Technicolor. Aqui eles começam o filme casados, ao passo que nos outros filmes a história é quase sempre a mesma: Fred passa o filme tentando conquistar Ginger, enquanto uma série de mal-entendidos se desenrola. Fred e Ginger são Josh e Dinah Barkley, um famoso casal de dançarinos, que está seguidamente apresentando os conhecidos shows de variedade. Josh sempre dirige esses espetáculos, e consegue tirar o melhor da esposa. Acontece que ela está meio de saco cheio e pensando em trocar o sapateado por peças sérias de teatro.

É claro que isso causa conflitos entre os dois, que já são famosos também por serem briguentos. O filme vai discorrer então sobre os atritos do casal, quando Dinah resolve voar sozinha e aceita os galanteios de um diretor que a quer como estrela de um drama que ele está produzindo. Acontece que nada é tão simples como parece, e Dinah percebe que passou tempo demais dançando. O diretor perde a paciência com a atriz, e eis que entra em cena Josh, que, apesar de enciumado, se compadece, e ajuda Dinah sem que ela saiba.

A química entre Fred e Ginger continua incrível, e os números musicais são mais exuberantes do que nunca. Um momento marcante do filme é quando o casal reprisa a música They Can’t Take That Away From Me, que apareceu em Shall we dance, em 1937. O número final derruba todos os forninhos, e além dele, Fred Astaire brilha no número solo Shoes with wings on. Estou até agora tentando entender como eles fizeram essa sequência. É fantástico!

É curioso observar como a situação do filme, é mais ou menos o que aconteceu na vida real com a parceria profissional de Fred e Ginger na época da RKO. Ginger se encheu dos musicais e do papo de que era apenas a parceira de Fred, e começou a fazer filmes de diversos gêneros, se destacando sobretudo nas comédias, revelando uma veia humorística e um talento sem igual. O reconhecimento veio com o Oscar de melhor atriz em 1940, por Kitty Foyle. Fred enveredou de vez pelos musicais, tendo diversas parceiras, como: Judy Garland, Rita Haywort, Cyd Charisse (em A roda da fortuna), e mais tarde, Audrey Hepburn. Mas, fora as fofoca, eles nunca se deram mal. Tiveram um pequeno desentendimento durante as gravações de Top hat por conta do vestido de penas que Ginger criou e usa durante a sequência Cheek to cheek. As penas voavam por todo lugar, irritando Fred, que apelidou Ginger de Feathers (penas). Logo o término das filmagens, Fred se desculpou com a parceira, presenteando-a com um pingente em formato de pena. Logo, o boato de que eles se detestavam é mentira. Ginger estava lá para entregar o Oscar honorário para Fred em 1950 (veja o vídeo). Ele não pôde ir receber, e falou por telefone durante o prêmio. A reação de Ginger ao ouvir a voz do parceiro é sublime.

E tem mais ainda. Mas para ouvir/ler essa, você precisa estar sentado: Fred e Ginger tiveram um relacionamento antes da fama em si! É, pois é. Eu também fiquei assim quando descobri. Quando os dois ainda nem tinham feito o filme que os deixou famosos, Flying Down to Rio, em 1933, eram apenas dois dançarinos conhecidos em Nova York. E, segundo diversas biografias, eles tiveram um relacionamento nesse período, que acabou quando Ginger deixou Nova York pra tentar a sorte em Hollywood. Em seguida, Fred conheceu Phillys, sua futura esposa. Ginger e Fred se reencontrariam então, em seu primeiro filmes juntos, como dois coadjuvantes que roubam a cena no já mencionado filme de 1933. Chamaram tanta atenção, que logo estavam fazendo uma série de filmes para a RKO, até 1939, quando a parceria se dissolveu.

Claro que quando os dois apareceram juntos nas telas novamente, ficou claro que eles eram ainda melhores juntos. O reencontro é um bálsamo. Cada cena de dança é única, e eles parecem flutuar, com a segurança de um casal que conhece todas as peculiaridades do parceiro. Assim, Fred e Ginger conseguem arrancar sorrisos bestas do meu rosto a todo momento.

Eles fazem poesia com os seus passos de dança. Simples assim.

 

Escrito por Camila

Formada em Letras e na Academia Douglas Sirk de sofrência e pregadora na Igreja Universal do Reino de Woody Allen. Uma professora de inglês apaixonada por musicais. Faz parte da Comissão de Avaliação, Seleção e Fiscalização, na área de Cinema e Vídeo, do Financiarte de Caxias do Sul.

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