A outra (1988)

A outra (1988)

 Existe duas coisas que eu deveria evitar e não consigo: os filmes existenciais e os livros de Marguerite Duras. Esses últimos me despertam uma tristeza tão grande que é muito difícil terminá-los. Quando estava lendo O amante, lembro de ter chegado a uma parte em que chorei feito um bebê. Era como se ela escrevesse para mim. Eu passava por uma época difícil e aquele livro era extremamente deprimente, um deprimente tão belo que era impossível largar. A vida é assim: um deprimente belo.

Mas o que Marguerite Duras tem a ver com A outra, filme de Woody Allen de 1988?

Tudo, tudo.

Hoje terminei Yann Andréa Steiner (nossa colaboradora de Cine Espresso, Patrícia, vai entender bem meus sentimentos), um romance sobre o romance da autora com o então jovem Yann, muitos anos mais jovem que ela. Ontem assisti a A outra, e livro e filme me despertaram uma melancolia/tristeza como eu não sentia há muito tempo. O vazio existencial nunca pareceu tão claro ao terminar o livro e o filme.

 

A outra é um soco bem dado no estômago. Trata-se de um Woody Allen sério, com diálogos cortantes, verdadeiros, tristes. Algo que eu já havia vivenciado com Blue Jasmine, mas numa dimensão muito piorada aqui. Isso porque durante a 1h20 de filme tive a sensação de que a personagem de Gena Rowlands era eu. Que aquele filme falava para mim. Não importava que a personagem tinha 50 anos, eu sentia na carne o peso daqueles dramas. Eu, eu, com apenas 23 anos.

Marion (Gena Rowlands) é uma professora de filosofia que aluga um apartamento para escrever seu novo livro. Só que lá pelas tantas ela descobre que pode escutar as conversas dos pacientes de um psicanalista que mora no mesmo prédio. Uma conversa em especial a atrai: a de Hope (Mia Farrow), uma mulher grávida que parece estar em crise consigo mesma. As conversas de Hope desencadeiam um processo de auto-reflexão na personagem. É como se a partir daí ela começasse a frequentar consultas em que ela mesma é a psicalista. A psicanalista de si mesma.

Como psicanalista dela mesma é claro que só poderia dar merda. A outra é um filme arrastado, porém pensando agora há um motivo para isso: querer nos deixar angustiados. É impossível não ficar assim a medida que ela como psicanalista de si (re) descobre suas angústias e medos, revolve o passado. Nós sempre somos nossos piores carrascos. Como toda pessoa, essa personagem é mais complexa do que parece.

Marion volta ao passado e revê algumas escolhas que fez. Woody Allen coloca isso de uma forma bastante interessante, através de uma peça de teatro fictícia em que a própria Marion é a protagonista. A Marion velha vê a Marion jovem casada com um professor bem sucedido de sua faculdade, o conturbado relacionamento com o irmão, a si própria presa a um segundo casamento que ela não liga muito. Fico imaginando como seria se pudéssemos rever fatos que nos mudaram, nós apenas como expectadores de nossa própria vida. É claro que nossa personagem percebe, depois de assistir a toda sua vida de camarote, que tomou as decisões erradas. Mas, e agora? O que fazer?

O remorso é o motor desse filme. Às vezes tomamos o caminho errado e temos de amargar com nossas escolhas. Acho que aceitar o errado e seguir é uma das coisas mais difíceis da vida. Há sempre aquela sensação de “e se…?” nos rondando, o desejo de mudar tudo de uma hora para outra. Alguns estão presos em suas próprias armadilhas, como diria Norman Bates. E nossa maior armadilha é o remorso, esse sentimento que vai corroendo a alma.

Os filmes do Woody Allen sempre me tocam de uma forma muito especial, talvez porque que eu me sinta representada em suas personagens. É tão maluco pensar que um homem possa trazer essa representatividade para nós, mulheres, em suas histórias. As mulheres de Woody são sempre multifacetadas, nunca demonizadas ou tratadas como meros objetos sexuais. Há uma passagem muito interessante em A outra, onde Marion está discutindo com seu primeiro marido o aborto que realizou. Ele fica furioso, achando que deveria ter sido consultado sobre o assunto. E é tão legal ouvir a personagem dizendo que aquela questão era só dela, que o corpo era só dela e ponto. Isso não é sobre você, querido.

E o que dizer sobre Gena Rowlands? TE DEDICO, SUA LINDA! Não é surpresa para ninguém que ela apenas lacre o filme, pois já sabíamos da dimensão de seu talento desde Noite de estreia e Uma mulher sob influência. Ela consegue nos passar o lado melancólico e até mesmo imóvel da personagem. Mia Farrow também está ótima como a paciente e a cena em que as duas se encontram é de arrancar o coração fora.

Você deve estar pensando: se o filme é tão deprimente, por que devo assisti-lo? Porque sinceramente? É Woody Allen no seu melhor. O cara faz comédias ótimas, mas também acerta no drama. O drama de A outra não é meloso ou irreal. Aqui a realidade é algo que permeia o filme inteiro, a arte imitando a vida no que ela tem de mais triste. Assim como os personagens de Woody, a vida também é multifacetada e você vai descobrir que em A outra também há lugar para o amor e a esperança.

Boa sessão.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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