Entrevista com Olivia de Havilland

Entrevista com Olivia de Havilland

 A atriz nos forneceu um relato profundo sobre um dos mais bem-sucedidos filmes de todos os tempos

Você consideraria fazer algo ilegal? Perguntou o diretor George Cukor a então atriz de 22 anos, Olivia de Havilland, quando lhe telefonou em 1938. Ele estava ligando por baixo dos panos para convidá-la a desafiar o contrato que a prendia a Warner Brothers e fazer o teste para o papel de Melanie Hamilton Wilkes de E o vento levou. Ela fez o teste e ganhou o papel. Porém uma tarefa ainda maior viria a seguir: persuadir o chefe do estúdio, Jack Warner, a liberá-la para atuar em um filme produzido pelo estúdio rival.

No entanto, como qualquer um que conhecia a atriz podia atestar, ela saboreava contornar as regras de Hollywood. “Liguei para a esposa do chefe”, disse, “e perguntei se ela gostaria de tomar um chá comigo no Brown Derby”. Como a maioria das pessoas em Hollywood, Ann Warner estava grudada no romance E o vento levou e mal podia esperar para vê-lo no cinema. “Entendo”, disse Ann, “e irei ajudá-la”. Algum tempo depois, Jack Warner assinava documentos que permitiam que De Havilland pudesse se deslocar até Culver Studios para aparecer no épico. E o resto, como se diz, é história.

De Havilland começará seu centésimo ano de vida no verão do ano que vem. Sua vida tem sido uma compilação de decisões maduras e não ortodoxas. Quando tinha 17 anos, ela processou a Warner Brothers para sair de um oneroso contrato, um caso que abriu caminho para atores poderem trabalhar como artistas independentes (estrelas que descontam cheques milionários devem muito à ela). Nos anos 50, ela se casou com Pierre Galante –  editor da Paris Match – e se mudou para Paris,  onde ainda vive cercada pelos prêmios de uma monumental carreira que incluem duas estatuetas do Oscar de melhor atriz, uma National Medal of Arts e a Légion d’honneur, a maior honraria francesa. No 75º aniversário da première de E o vento levou no Loew’s Grand Theather em Atlanta, quando mais de 300 mil pessoas encheram as ruas para poderem ver suas estrelas, De Havilland relembra um dos filmes mais bem-sucedidos já realizados.

 

Qual parte do filme você considera a mais divertida?

 

A sequência do baile de caridade e a do bazar para beneficiar o hospital militar dos confederados de Atlanta – está repleta de momentos maravilhosamente cômicos. Mas há uma pitada de humor que percorre todo filme. Isso contribui muito para sua vitalidade única.

Você trabalhou com diretores tão lendários como William Wyler, John Huston e, em E o vento levou, com Victor Flaming, que substituíra George Cukor. Quem obteve a melhor performance de você?
 
Eles não obteram a melhor performance de mim. Eu dei as performances a eles.

 

Como Flaming a ajudou a interpretar Melanie?

 

Vivien Leigh e eu éramos profundamente apegadas a George e secretamente buscamos sua ajuda durante toda filmagem. Só que Victor era o diretor certo para esse épico. A primeira vez que trabalhamos juntos foi quando filmamos a cena em que Melanie, noiva de Ashley logo a futura dona de Twelve Oaks, parabeniza Scarlett. Ensaiamos e eu estava sendo afetuosa, agradável e educada. Ele me levou para um canto e muito gentilmente fez a seguinte observação: “Melanie sente cada palavra que diz”. Essa direção era a chave para o personagem e me serviu durante todo filme. Victor, com toda sua virilidade, era sensível e perspicaz.

 

 

Qual é a sua maior lembrança da première do filme?

 

Eu estava sentada à direita de Jock Whitney. Ele era financista e dono do New York Herald Tribune. Além disso era investidor em E o vento levou. À sua esquerda estavam Margaret Mitchell e seu marido, John Marsh. A plateia estava absolutamente cativada pelo filme. Um silêncio completo reinava, até a grande cena panorâmica no depósito de Atlanta onde vemos  – deitados em macas, fileira após fileira –  os soldados confederados feridos. Ouvi John dizer à Margaret: “Se tivéssemos esses milhares de soldados, teríamos ganho a guerra!”

Quando o filme foi lançado, Hattie McDaniel –  que ganhou um Oscar pelo papel de Mammy – não pode participar completamente das festividades por causa de Jim Crow. Como os atores negros eram tratados durante as filmagens?

 

Como quaisquer outros atores!

 

Você nasceu no Japão e viveu parte de sua vida no estrangeiro. No entanto, você está nesse filme que hoje é visto como parte da mais alta cultura norte-americana . Estar em E o vento levou compensou todos os anos em que viveu longe dos EUA?

 

Bem, realmente vivi parte da minha vida no estrangeiro, mas retornei várias vezes para trabalhar em filmes, especiais de televisão e no teatro de Nova Iorque. Também houve homenagens e ocasiões similares em que me chamaram de volta à Hollywood. Eu retornava com tanta frequência que quase sentia que nunca havia ido morar fora.

 

Como os franceses enxergam E o vento levou?

 

Usando as palavras de um amigo meu francês: “Achamos que é um dos mais importantes, mais românticos e mais encantadores filmes do mundo”.

 

Você jantou com o presidente Franklin Roosevelt na Casa Branca. Sabe se ele gostou do filme?

 

Não sei. O que lembro é uma nota que saiu na imprensa, de que o presidente estava tentando ter um bom sono na noite em que sua família estava assistindo E o vento levou. Ele reclamou vociferadamente sobre todo tempo que William T. Sherman estava levando para ganhar a batalha de Atlanta.

 

O que conversou com ele?

 

Ele achava que cada americano deveria ter seu pedaço de terra. O país estava, naquela época, nas garras da Depressão. Milhões de pessoas não estavam apenas passando fome, mas também não tinham recursos de nenhum tipo. Acho que o presidente sentiu isso em relação a possuir e cultivar a terra, a maioria dos americanos poderia se sustentar em caso de catástrofe. Ele pode ter também ter sido influenciado pelo papel que Tara exercia na vida de Scarlett: o de sustentação. Além disso, havia as palavras de Gerald O’Hara: “A terra é a única coisa no mundo pela qual vale a pena trabalhar… Porque é a única coisa que permanece”.

 

 

Você ganhou os maiores prêmios por contribuir para as artes e cultura em dois países. O que significa mais: todos esses prêmios ou estar em um dos filmes mais populares já realizados ?

 

Devo escolher entre uma safira e uma esmeralda?

O original está disponível em: http://gardenandgun.com/article/interview-olivia-de-havilland

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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