A loja da esquina (1940)

A loja da esquina (1940)

Sempre digo que os filmes podem nos surpreender para bem ou para o mal. Para não falar de novo sobre Barbara Stanwyck (a intenção era que minha dica de natal fosse Remember the night, um de seus filmes com o adorável Fred MacMurray), decidi procurar uma lista de filmes de natal. Foi mais ou menos como a personagem de Cher em Minha mãe é uma sereia escolheu a cidade onde ela e as filhas morariam: apontei o cursor para o primeiro filme da tela. E esse filme era A loja da esquina.

Só posso dizer que foi uma escolha surpreendente. Quando o filme terminou, a primeira coisa que me perguntei foi: onde está o espírito de natal? Será que devo escrever sobre ele? A loja da esquina me deixou uma sensação de melancolia e levemente triste. Porém, se você olha com atenção para o filme verá que ele exalta algo que deveríamos levar para a vida inteira: a capacidade de enxergar o lado bom das coisas, mesmo quando tudo parece fadado ao fracasso.

 

A loja da esquina foi dirigido por Ernst Lubitsch e tem aquilo que chamam do seu toque inconfundível de direção. Esse era seu filme favorito, pois ele acreditava jamais ter um filme com tantos toques de realidade como esse. E é verdade. Alguns podem se perguntar: mas onde está a realidade, se o filme é falado em inglês e se passa em Budapeste? Acontece que a realidade está no drama de cada uma das personagens, na maneira como eles se comportam. Eles exalam simplicidade e ao mesmo tempo complexidade.

O filme começa nos dizendo que essa e é a história da Matuschek & Co – ou a do Sr. Matuschek e de seus empregados. A loja, Matuschek & Co, é o cenário para histórias de amor, adultério, fofoca e muito mais. Sendo um elemento tão importante para o filme, poderíamos considerá-la até uma personagem. É na loja que Alfred (James Stewart ou o rei dos filmes clássicos de natal) conhece Klara (Margaret Sullavan). O barato é que os dois já se conhecem, pois trocam cartas, correspondem-se “culturalmente”. Lubitsch vai brincar o tempo inteiro com aquilo que mostramos ser o que realmente somos. Alfred aparentemente é um cara chato. Você não simpatiza muito com ele no começo do filme, principalmente quando ele se opõe ao fato de que Klara trabalhe na loja.

Alfred parece a única pessoa realmente sincera na loja. Isso porque é o único que é sincero com seu patrão, o Sr. Matuschek (Frank Morgan). Em uma determinada cena, Alfred é questionado sobre a caixinha de música que toca Ochi Tchornya. O funcionário acha que aquilo não venderá enquanto todos dizem o contrário para agradar o patrão. Alfred é muito querido por Matusckek, mesmo discordando dele.

As coisas mudam completamente quando Alfred é subitamente despedido. Isso é um ponto completamente inesperado do filme, o que chamamos de turning point. Na realidade, Matuschek achava que seu funcionário tinha um caso com sua esposa. No entanto, as aparências enganam, e quem na verdade estava dormindo com a patroa era o funcionário puxa-saco, Vadas (Joseph Schildkraut). Sr. Matuschek tenta o suicídio e é salvo por um de seus funcionários, Pepi Katona (William Tracy). É nesse momento que o filme mostra a que veio, pois são nos momentos mais delicados de nossas vidas que percebemos com quem realmente podemos contar. Os funcionários da loja organizam-se e decidem fazer o melhor natal possível para a Matuschek & Co. Eles mostram gratidão, ajudam o patrão descompromissadamente, algo que faz parte do espírito natalino.

O amor que nasce entre Klara e Alfred é um dos pontos mais interessantes do filme. Ao contrário da maioria dos filmes de amor, A loja da esquina mostra o lado solitário das pessoas. Elas não encontram o amor de maneira convencional, na verdade correspondem-se por carta, o que torna a relação mais simples. A relação amorosa através das cartas pode ser enfeitada e até tem um ar juvenil. Klara passa o filme inteiro alfinetando Alfred, já que ele não é como o cara que ela conheceu nas cartas. Às vezes o que mostramos pode ser uma das tantas facetas que temos. Nunca somos as mesmas pessoas. Talvez isso seja uma das coisas mais fascinantes das pessoas. Acho que você nunca chega a conhecê-las de verdade. É o que acontece com nossos personagens. Quando Klara imaginaria que o funcionário que ela considera burro lê Anna Karenina?

Essa foi a terceira dobradinha entre James Stewart e Margaret Sullavan. A química entre os dois é inegável. Ambos tem uma ingenuidade que combina totalmente com o clima do filme. Eles fizeram Tempestades d’alma, que resenhei por aqui também, um filme anti-guerra. No entanto, acredito que em A loja da esquina conseguimos ver melhor como eles combinam, pois atuam mais juntos do que em Tempestades d’alma. Frank Morgan, o Sr. Matuschek, também atuou em Tempestades com os dois. Este simpático senhor nos encanta desde O mágico de Oz. Os  atores que interpretam os funcionários da loja estão sensacionais. O destaque fica por conta de William Tracy no papel de Pepe Katona. A cena em Pepe fala com a Sra. Matuschek no telefone é de rolar de rir!

 

A loja da esquina é um filme que nos faz refletir sobre o que parecemos e o que realmente somos e sobre a amizade. O seu charme reside em sua simplicidade, fazendo com que esse filme envelhecesse muito bem. Se você procura um bom drama, com uma direção maravilhosa e bons atores esse é o filme!

E um ótimo natal para nós, de preferência com muito filme antigo!

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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