Tempestades d’Alma (1940)

Tempestades d’Alma (1940)
Era sempre a mesma ladainha: toda vez que Hollywood tentava fazer um filme antinazista, o cônsul alemão em Los Angeles, Georg Gyssling, dizia não e o filme era arquivado. Assim estabeleceu-se uma espécie de colaboração entre Hollywood e os alemães. Eles não faziam filmes antinazistas e a Alemanha deixava que eles pudessem exibir seus filmes lá. O medo de perderem o mercado alemão fez com que os americanos, por quase uma década, excluíssem temáticas antinazistas ou antissemitas de seus filmes.
 
No entanto, a Segunda Guerra Mundial chegou e muitas coisas começaram a mudar a partir daí.
Como se pode imaginar a guerra afetou a distribuição dos filmes no mundo. Hitler cortou pela metade a receita de Hollywood na Alemanha. Na França, os filmes americanos não podiam mais entrar. Foi então que os chefões dos estúdios decidiram chutar o pau da barraca. Ah é, quer dizer então que vai ser assim agora? Vão cortar a nossa receita, produção? Então nós vamos quebrar o nosso pacto de silenciamento do nazismo e dos judeus, vamos fazer filme antinazistas. Eles quebraram o pacto, como se diz, “naquelas”. Tempestades d’Alma foi o primeiro filme antinazista significativo.

A ideia de fazer Tempestades d’Alma foi dada por um funcionário da MGM, depois que ele lera o livro homônimo escrito por Phyllis Bottome. Ele enviou um memorando explicando as razões pelas quais o livro deveria virar filme. Convenceu. Em seguida a MGM comprou os direitos do livro e deu a quatro roteiristas – Anderson Ellis, George Froeschel, John Goulder e Claudine West – a tarefa de escrever o filme. Depois de pronto ficou evidente que aquele filme era um tapa de luva de pelica na Alemanha, pois mostrava uma família dilacerada pela ascensão do nazismo.

 

The mortal storm conta a história da família Roth, que vive no interior da Alemanha. O pai, professor Roth (Frank Morgan), é um membro renomado da academia. Podemos notar isso na cena em que ele é homenageado por seus alunos, logo no começo do filme, em ocasião de seu aniversário. Professor Roth e sua esposa (Irene Rich) têm dois filhos: Rudi (Gene Reynolds) e Freya (Margaret Sullavan). Otto (Robert Stack) e Erich (William T.Orr), filhos do primeiro casamento da Sra.Roth, vivem com a família também. Está tudo muito bom, tudo muito bem até a empregada interromper o jantar para anunciar que Hitler foi nomeado chanceler da Alemanha. A partir daí a vida da família muda radicalmente.

O filme vai mostrando aos poucos, num crescendo, os efeitos da ascensão do nazismo sobre essa família. Otto e Fritz filiam-se ao Partido Nazista e foram tomados pelos ideais fascistas. Martin Breitner (James Stewart), amigo dos dois, não compartilha da mesma visão deles, não acha que a Alemanha deve ser salva, por isso é excluído do círculo de amizades. Em uma cena bastante tensa, Otto e Fritz, num misto de agressividade e incredulidade, tentam entender porquê ele não quer se filiar ao partido. Professor Roth é hostilizado por seus alunos, todos filiados ao Partido Nazista, que se recusam ter aulas com um professor “não ariano”. Freya, que iria se casar com Fritz (Robert Young), já não sabe mais se vai fazê-lo, pois parece estar apaixonada por Martin, o cara com quem nenhum alemão que se preze pode andar.

Mas americanos chutaram o pau da barraca “naquelas”, não é? Como assim? Bem, The mortal storm é um filme antinazista com um porém: ele não dá nome aos bois. Os judeus são chamados de “não arianos” o tempo inteiro no filme, mesmo que você saiba que eles são judeus. É aí que reside o problema: o filme não toma partido dos judeus, embora mostre os horrores que fizeram a eles. Se você toma partido de alguém, você não tem vergonha de sua origem, neste caso judia. No entanto, os americanos estavam com medo de tacar a bomba. Digo, os americanos = chefões dos estúdios. Aí entra a parte mais paradoxal de toda essa história.

A grande maioria dos chefões de estúdio eram judeus. Você pressupõe que esses caras deveriam ser os maiores lutadores contra o antissemitismo e o nazismo, afinal de contas ninguém mais do que eles sabia como era enfrentar todo esse preconceito. Mas não. Os chefões dos estúdios venderam armamento para a Alemanha (!!!!!!!!!!!!!) e não defendiam suas origens. Nas palavras do Rabino Magnin, “eles preferiam deixar que as pessoas odiassem os judeus”. Há algumas razões para essas atitudes. Primeiro o medo de perder mercado. Segundo que se identificavam mais como americanos do que como judeus. Terceiro a política de colaboração com a Alemanha deixara marcas muito profundas, que os impedia de chutar o pau da barraca completamente. Por causa disso, The mortal storm foi mutilado.

Na versão sem cortes do filme, tínhamos uma cena em que Rudi chegava em casa com um formulário que tinha como título “Prova de descendência ariana”. O garoto contava ao pai a série de violências que havia sofrido na escola e que não entendia porquê ele fora agredido por ser judeu. Desenrolava-se, a partir daí, um lindo diálogo entre pai e filho, onde o pai mostrava que Rudi não deveria ter vergonha de nada. Antes de o filme ser mutilado, o roteiro passou pela avaliação de Phyllis Bottome, que teria dito para excluírem “não ariano” e colocarem “judeu” no lugar, pois nessa época a palavra era utilizada para demonstrar que eles tinham orgulho de suas origens. Contudo, o produtor de Tempestades d’Alma chegou um dia no estúdio e disse que a cena Rudi-pai seria cortada, e que a partir daí “judeu” viraria “não ariano”. E muito que bem.

O filme foi lançado no dia 14 de junho de 1940 e o fato de se ter tirado tudo o que fazia referência aos judeus fez com que, em uma pesquisa pedida pelo estúdio, apenas 7% das pessoas se impressionassem com a perseguição aos judeus. Apesar de tudo isso, The mortal storm é um filme que nos impressiona bastante por seu retrato fiel do fascismo. Eu, particularmente, estabeleci muitos paralelos com a situação atual do Brasil. Porque, ao contrário do que se pensa, o fascismo não é algo que terminou com Hitler ou Mussolini. Ele continua, com outras facetas, mas continua. The mortal storm abriu as portas para outros filmes antinazistas, como Casablanca (talvez sempre lembrado por nós como uma história de amor). Talvez esse seja seu maior mérito, porque no resto, ele continuou silenciando os judeus.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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