Sobre como eu conheci Fanny Ardant

Sobre como eu conheci Fanny Ardant

Ela é sempre preto & branco
Ela não diz mais “de repente, num domingo”
Evidentemente Fanny Ardant e eu
Vincent Delerm – Fanny Ardant et moi

Visitar a Torre Eiffel, dar um passeio à beira do Sena e… dar um jeito de perseguir nossos ídolos. Esse eram meus planos e os da minha amiga ao chegar em Paris. Depois de muito jogar “Catherine Deneuve endereço” no Google da França  e não ter tido muito sucesso, parecia que havíamos nos aquietado. Mais ou menos. Todas as vezes em que caminhávamos por Paris, ficava pensando que meus ídolos estavam lá, escondidos em algum lugar. Onde estaria Jeanne Moreau, Mireille Mathieu e Alain Delon? Mireille e Deneuve moravam no mesmo bairro, digamos assim, será que se viam? Será que eu encontraria Deneuve caminhando no Bois de Boulogne, seu lugar favorito? Caminhei o dia inteiro por lá, com uma esperança infantil de encontrá-la. Não aconteceu.

Paris, muito mais do que a cidade dos anos loucos, era um portal mágico para eu encontrar meus ídolos. Achar a entrada dele parecia impossível.

Um dia Maria e eu estávamos fazendo hora pelas ruas da cidade quando, literalmente, topamos  com Fanny Ardant. Mesmo. Dei um berro no meio da rua: “OLHA AQUELE CARTAZ, A FANNY TÁ COM UMA PEÇA DE TEATRO AQUI”. Maria, que também adorava a Fanny, pediu para eu tirar uma foto. Tiramos fotos para guardar as informações de onde era e onde comprava. Olhamos para o relógio… será que dava tempo de ir até a Fnac da Champs Elysées comprar os benditos ingressos? Dá e se não der vai ter que dar.

Pegamos o metrô, saímos correndo e compramos os ingressos. Meu Deus do céu, a gente ia ver a FANNY ARDANT no teatro. No pior lugar? Sim. No pior lugar e foi caro? Sim, mas e daí? Detalhes como esse desapareceram feito fumaça diante da possibilidade de ouvir sua voz aveludada tão perto de mim. A gente iria ver uma das mulheres que fez com que eu me apaixonasse por tudo que ela dizia, aos 16 anos, muito antes de eu aprender francês. Ela me empurrou, junto com Deneuve, para a língua com a qual trabalharei o resto da minha vida.

Como se não bastasse tudo isso, a peça era de Marguerite Duras. Marguerite Duras e eu temos um relacionamento complicado. Foi a primeira autora francófona que me fez chorar lendo um livro em francês. Porque ela é assim: intensa.

No dia em que seria a peça me arrumei como se estivesse indo para um encontro amoroso. Tomei meu segundo banho naquele dia, orando para o chuveiro não ficar gelado, pois lá, se você fica tempo demais embaixo do chuveiro a água esfria para te forçar a sair do banho.  Estou menos infantil? Acho que sim. Não dava para ir de tênis roxo ao teatro.

Estávamos pra lá de animadas, pois no dia anterior havíamos conhecido Isabelle Huppert e Louis Garrel, de um jeito TÃO fácil que parecia saído de um filme. Paris era a cidade da loucura, então talvez fosse possível, sim.

No metrô começaram as loucuras. Descemos na estação correspondente, o teatro ficava em Montparnasse. Nós ainda não tínhamos tido a oportunidade de estar lá, mas tudo bem, quem tem um mapa na mão se acha.

 

Não foi o caso.

Olhamos nosso mapa, olhamos o mapa da estação. Onde fica essa rua? Vamos perguntar, quoi. Perguntei a uma senhora que passava onde ficava a rua. Disse o nome e ela ficou me olhando com uma cara de WTF? Até.. começar a falar em alemão conosco. Descobrimos que falamos o nome da rua completamente errado enquanto a senhora falava alegremente em alemão. Mas não somos alemãs, senhora. Para não sermos mal educadas, agradecemos suas explicações e seguimos em frente. Um bêbado falou conosco, não lembro o quê.

Continuamos perdidas até dois rapazes, muito simpáticos por sinal, se oferecerem para nos levar até a rua do teatro. Obrigada, rapazes!

A primeira coisa que notamos ao chegar ao teatro era onde ficava a porta de saída. Ao contrário do Théâtre de L’Odéon, onde havíamos ido ver Isabelle e Louis, não havia uma saída dos artistas. Havia uma única porta, minúscula, e depois que a peça terminasse era para lá que iríamos correr.

A peça começou, e nós achamos que teríamos um AVC durante os três atos. Fanny estava maravilhosa, teve riso, choro e acessos de fangirl para todo lado. Estava realizada demais, meu coração pulava do peito. A peça terminou, e meu coração começou a bater tão forte que achei que iria passar mal.

Medo, muito medo. E se não desse para falar com Fanny Ardant? E se ela fosse grosseira e me decepcionasse? E se eu simplesmente não conseguisse falar 1% daquilo que sempre pensei? Por mais engraçado que pareça foi naquele momento que toda minha formação em língua francesa fora posta à prova. Aquela era de longe a avaliação mais difícil de todas. Falar com seu ídolo já é difícil, imagina numa língua estrangeira. Hoje agradeço à Fanny Ardant por ter me ajudado a ser uma pessoa menos tímida e mais confiante em mim. Obrigada, Fanny.
Théâtre de la Gaîté, onde assistimos Fanny Ardant.

 

Um monte de gente estava esperando na recepção do teatro e não sei aquilo nos deixou mais aliviadas ou nervosas. Não vai dar pra falar com ela. Não vai dar, olha essas pessoas. AI, MEU DEUS, UM CARA TROUXE UM MONTE DE FOTO PRA AUTOGRAFAR E A GENTE NEM CONSEGUIU COMPRAR O PROGRAMA DA PEÇA, SOCORRO! Um senhor ficava nos olhando e rindo. O bom nessas horas é falar sua língua nativa e ninguém entender. Ele tá achando graça de quê, Maria? Que merda é essa? Cadê essa mulher? O riso daquele senhor só me deixava mais nervosa e menos confiante. Muito bem, o que estou fazendo no meio dessas pessoas, todas francesas? Nós éramos as únicas estrangeiras naquele grupo.

Os outros atores começaram a sair e as pessoas pularam neles, uma prévia do que aconteceria depois com a Fanny. Fiquei quietinha no meu canto, embora tenha ajudado Maria a tirar fotos com o ator que fazia o filho da Fanny. Desculpem, meu coração é inteiramente dessa senhora e estou guardando todo meu francês e energia para ela.


De repente, eu a vi. 

Ela brotou não sei como de algum lugar. Meu Deus. Meu Deus. Meu Deus, me ajuda. Para começar ela era ainda mais bonita do que nos filmes, se é que isso era possível. Comecei a falar feito uma metralhadora com a Maria. Ela é muito linda, meu Deus. Fanny vestia uma jaqueta de couro por cima de um vestido leve, e eu só pensava: ela vai sentir MUITO frio quando sair na rua. As botas e os óculos escuros complementavam aquele visual de estrela de cinema. Na minha loucura juvenil comecei a tirar fotos. Tirei muitas fotos enquanto ela dava autógrafos e tirava fotos com os outros. Estava tremendo, ela estava a alguns metros de mim! A sensação era indescritível.

As pessoas, que não eram burras nem nada, queriam tirar uma casquinha dela. Muito falatório, ficava dizendo para mim mesma: chega, chega, quero falar com ela. Vocês são franceses e podem vê-la o ano inteiro, nós não.

Então, de repente, ela começou a caminhar pela recepção do teatro, dando OI PARA AS PESSOAS. Um a um ela foi apertando as mãos. Quando chegou minha vez, ela segurou minhas mãos e disse com aquela voz que faz o cidadão clamar por um copo d’água: Bonsoir. Ser fã é estar em eterna competição contra sua gastrite imaginária. Quando nossas mãos se tocaram, minha gastrite venceu, meu estômago doía muito. Limitei-me a sorrir, não havia nenhuma palavra que pudesse rivalizar com o que meu coração sentia. Sensação como aquela eu só havia sentido aos 13 anos, ao conhecer minha cantora favorita. Sentir isso já em idade adulta é completamente louco.

Na idade adulta somos ensinados a não demonstrar muitas emoções, a nos contermos. Por isso, ser fã é sempre associado aos adolescentes. Porque adolescentes são assim, eles têm o direito de surtar, bater as mãozinhas freneticamente e chorar. Aos adultos não, eles já passaram dessa fase. Uma vez traduzi uma história em quadrinhos francesa em que a garota tinha um surto a cada vez que via sua banda favorita na televisão. A mãe dela a levava no psicológo para ver se ele podia resolver o problema. Eu nunca aceitei direito essa contenção silenciosa da vida adulta, por isso continuo surtando. Literalmente choro ao ver filmes da Barbara Stanwyck, e não tenho vergonha, pois é nessa hora que me sinto completamente viva.

Ao pegar nas mãos da Fanny Ardant senti uma energia tão grande, me senti confortada da mesma forma que me sentia nas tardes intermináveis de Ensino Médio assistindo Oito Mulheres. Aquela era a deixa para eu falar com ela e foi o que eu fiz. Perguntei timidamente se poderia tirar uma foto com ela. Claro! – ela disse, em um tom tão acolhedor, tão diferente do que tinha vivenciado com a Isabelle Huppert no dia anterior. De repente, eu vi a mim e a Maria no meio do círculo de pessoas que havia se formado. No meio com a Fanny Ardant.

Para tirar a foto foi outro problema. As pessoas não sabiam mexer no celular, e ele passou de mão em mão até alguém conseguir. Eu olhava para a Fanny, ela ria da situação e fazia piadas. Não é possível! E, claro, eu a agarrei como se fosse minha boneca favorita. Durante minutos, que mais pareceram décadas, minha mão ficou lá na cintura da Fanny, mal acreditando que finalmente podia tocá-la, que ela existia. Dizem que se a gente toca os ídolos, pode se sujar de ouro. Pois bem, eu me sujei bastante com o ouro de Fanny Ardant.

Mas ela tinha de assinar ainda nossos ingressos e essa era a oportunidade ideal para puxar qualquer assunto. Falei que éramos do Brasil (chupa, franceses!), que eu estudava literatura francesa na faculdade e que adorava Marguerite Duras. A Fanny também é muito fã de Marguerite, então pelo sorriso que ela abriu deu para ver que ela estava gostando da conversa. Maria olhava fascinada para ela, sem entender uma palavra do que dizíamos, mas e daí? O importante era que entendíamos as marcas que esse momento deixaria na gente para sempre.

Ao final daquela noite, as últimas palavras de Fanny para nós foram obrigada.

 

Não, Fanny, somos nós que temos de agradecer por essa noite maravilhosa. Pela sua simpatia e carisma, em poucos minutos entendemos porquê Truffaut caiu de amores por ti. É impossível não acontecer!

 

Em fevereiro fará um ano que te conheci. Só agora, em novembro, decidi contar essa história. Uma leve ponta de egoísmo me fazia tê-la guardada a sete chaves no coração.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

Comentários

Comentários

1 Comentário
  • laamoraa disse:

    Eu li e reli o seu texto umas dez vezes, me imaginando lá: na boa, eu ia pirar… Que fantástico o fato de você tê-la conhecido, também não sabia que você tinha encontrado a Isabelle Huppert, depois vc me conta a história!? Não sei porque, mas a Huppert me parece meio arrogante. Fria nas telas e na vida.
    Acho que estamos com transmissão de pensamento, estou escrevendo um texto sobre a Fanny (na verdade sobre ela e sobre a Marisa Paredes), só não tive tempo de termina-lo e por isso não publiquei. O primeiro filme que vi com ela foi Oito Mulheres, e desde então… Ah! Minha vida mudou, rs. Tô com milhões de filmes dela e ainda não assisti, o último em que ela está loira (e que você postou a foto na publicação) parece tão bom..
    Olha, o parágrafo que você diz que “na idade adulta somos ensinados a não demonstrar muitas emoções (…)” me descreve tanto, tanto… não há o que dizer. É bem isso que eu penso, que eu sinto. É mais forte que a gente, né? Eu, pelo menos, não consigo me segurar – também choro ouvindo música, vendo fotos (será a nossa essência Olivia DeHavilland? Rs).
    Amei a publicação sobre Mildred Pierce, necessito comentar lá. Tenho algumas dúvidas, algumas ideias, quero saber a sua opinião….
    É isso, tô na correria do trabalho aqui, mas não poderia deixar de comentar. Bjo!

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