As férias do pequeno Nicolau (2014)

As férias do pequeno Nicolau (2014)

 O cinema francês tem fama de tedioso, de ser único e exclusivamente dedicado aos filmes de autor. Eles não fazem blockbuster. Você nunca entende o final, nem que assista um milhão de vezes. Quem infla o peito para dizer frases como essas não sabe que está espalhando uma grande mentira. Os franceses atravessaram os portões dos filme de autor há muito tempo. De vez em quando eles até se aventuram a realizar filmes para a família. As férias do pequeno Nicolau é um deles.

É um filme para o grande público? Sim, é, mas a qualidade é estupenda!

 

Le petit Nicolas é a Turma da Mônica francesa. Todas as crianças francesas cresceram lendo ou, pelo menos, já ouviram falar. O único porém é que Le petit Nicolas não é um quadrinho, mas sim uma série de livros infantis, ilustrados por Sempé e escritos por René Goscinny. As histórias são contadas por Nicolas, um garoto que vive nos anos 60 e se mete em um monte de confusões. Os livros são leves, gostosos de ler, especialmente se você está aprendendo francês. Como as histórias são contadas por Nicolas, a linguagem tem aquele ar infantil. É um retrato muito engraçado e divertido da infância, com direito à turma de amiguinhos e amor platônico.

 

Em 2010, tivemos a primeira adaptação de Le petit Nicolas para o cinema. Adulto ou criança, é impossível não se encantar pelo universo de Nicolas, tão bem adaptado para o cinema. O pequeno Nicolau, título por essas bandas, não só nos encanta por esse retrato da infância, pela reconstituição perfeita dos anos 60, mas igualmente pelos personagens. O elenco de O pequeno Nicolau contava com nomes de peso do cinema/comédia francesa, como Valérie Lemercier (lacradora como a mãe de Nicolas), Kad Merad (grande comediante, genial como o pai de Nicolas) e Sandrine Kiberlain. Além disso, não poderíamos deixar de comentar que as crianças, protagonistas do filme, estão geniais também. Elas conseguem criar personagens marcantes, nenhum deles se sobressai ao outro, ainda que o protagonista seja Nicolas. O pequeno Nicolau consegue cativar leitores e não leitores de Goscinny!

Ficamos com gostinho de quero mais e, voilà, este ano foi lançado a continuação das aventuras de Nicolas.

Continuação não seria a palavra certa na verdade. Isso porque a história é outra, embora o plot se proponha a contar o mesmo: as aventuras de Nicolas. Bem, dessa vez temos as aventuras de Nicolas na praia.

A abertura do filme já é um colírio aos olhos, toda feita com cartões postais dos anos 60. Temos aquele gostinho de nostalgia desde o começo. Lembro que o outro filme começava com as ilustrações de Sempé, como se você estivesse abrindo o livro. Era lindo também. Aquela musiquinha assoviada é só amor.

Abertura de As férias do pequeno Nicolau

Dessa vez os meninos entram de férias, um momento muito esperado por eles. Na casa de Nicolas (Mathéo Boisselier) é sempre a mesma discussão: ir à praia ou à montanha? O pai de Nicolas (Kad Merad) chega em casa e declara que eles irão à praia. Ao contrário dos outros anos, a mãe de Nicolas (Valérie Lemercier) não discute. Nós vamos à praia, mas só se levarmos mémé. Mémé (Dominique Lavanant) é a sogra do pai de Nicolas, “mémé” é um jeito carinhoso de dizer “vovó” em francês. Sem alternativa, o pai de Nicolas sai de férias com sua sogra. E aí as confusões começam.

 

O filme traz alguns personagens do filme anterior de volta, como Le Bouillon (François-Xavier Demaison), o inspetor que sempre diz aos alunos: “olhe nos meus olhos!”. Ele fica sozinho em Paris enquanto todos saem de férias. O momento onde tenta puxar assunto com turistas nos típicos cafés franceses vale sua breve aparição.

Também somos apresentados a uma centena de tipos interessantes que estão passando as férias na praia, como à uma família da Inglaterra que está sempre torrada de sol. Dois personagens me cativaram mais: Mémé e o diretor italiano (Luca Zingaretti).

Sim, vários personagens não têm nome, como podem perceber.

Mémé é uma senhora excêntrica, que sempre está oferecendo doces às crianças em troca de um beijo. Un bisou? é a frase mais dita por ela no filme. Além disso, sempre fica falando sobre um antigo amor, o que irrita toda a família.

O diretor italiano também é uma figura bastante marcante no filme. Livremente inspirado em Fellini, este senhor costuma fazer o maior barulho na praia em decorrência das gravações de seu filme. Um dia a mãe de Nicolas se irrita com toda a zoeira gerada pelo diretor na praia e vai tirar satisfações com ele. O diretor cai de amores por ela e a acha perfeita para o papel da heroina de seu filme. Em uma das melhores cenas do filme, eles dançam Perhaps Perhaps Perhaps, regravada por Pussycat Dolls, ao estilo Marilyn Monroe em Diamonds are a girl’s best friend. Um grande momento para Valérie Lemercier (sou apaixonada por ela)!

Meu único porém com o filme foi a mudança do protagonista. O Nicolas de As férias do pequeno Nicolau soa sem graça, quase sem vida. Os coadjuvantes conseguem segurar as pontas. Tão diferente do Nicolas de O pequeno Nicolau. Uma pena. A história não é lá aquelas coisas também, é difícil não sair comparando com o primeiro filme. Os personagens são o que mais vale a pena neste filme.

As férias do pequeno Nicolau é um filme leve, para a família. Perfeito se você não está com vontade de sentir o peso de um Haneke ou Téchiné nas costas. Os franceses sempre se saem ótimos em filmes de época, vide Populaire.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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