Oito Mulheres (2002)

Oito Mulheres (2002)

Hoje uma das maiores atrizes francesas da atualidade está completando 71 anos: Catherine Deneuve. Citada nos livros didáticos de FLE (Francês Língua Estrangeira), queridinha de diretores como François Truffaut, La Deneuve é uma figura que nos fascina desde os anos 60, quando estreou no cinema ao lado de sua irmã, Françoise Dorléac. Mas por quê?

A primeira coisa que vem à mente quando falamos sobre Catherine Deneuve é a sua lendária frieza. Frieza esta que sempre está associada a sua beleza estonteante. No entanto, se você começa a assistir aos filmes que ela fez/faz, vai reparar que a tal “frieza” muitas vezes ofusca os papéis sensíveis que ela interpretou. Se você assistiu Indochina, sabe do que estou falando. Você quase rasga o coração! Hoje o Cine Espresso homenageia esta lacradora do cinema francês falando sobre um desses filmes, em que a carapaça de fria esconde uma personagem muito complexa e sensível. Oito mulheres é, para mim, um dos maiores filmes franceses dos últimos anos.

Oito Mulheres é uma mistura de filme policial muito colorido (e as cores nos dizem muito sobre as personagens inclusive), drama e comédia. François Ozon, o diretor, tomou emprestado as oito maiores atrizes da atualidade para comporem as oito mulheres do filme: Danielle Darrieux, Catherine Deneuve, Isabelle Huppert, Fanny Ardant, Virginie Ledoyen, Ludivine Sagnier, Firmine Richard e Emmanuelle Béart. Com um time tão talentoso como esse, você pode pensar: ah, mas uma estrela vai ofuscar a outra. Na realidade é exatamente o contrário que acontece. Ozon dá a chance dessas oito mulheres brilharem no filme sem necessariamente roubarem a cena uma da outra.

O filme se passa nos anos 50, na véspera de natal. Suzanne (Virginie Ledoyen) vai passar o natal com a família. Nos primeiros do filme já temos contato com essas pessoas tão peculiares. A mãe de Suzanne, Gaby (Catherine Deneuve) é fina e muito bonita, o que se contrapõe completamente a sua irmã, Augustine (Isabelle Huppert), uma mulher pra lá de egoísta e infantil. Completando o time, também temos Catherine (Ludivine Sagnier), irmã de Suzanne, e sua avó, Mamy (Danielle Darrieux). Ah, e claro, temos Marcel.

 Marcel é o único homem da casa, marido de Gaby e de quem se fala muito, mas ninguém vê seu rosto. Acredito que o mesmo procedimento fora usado em As mulheresde George Cukor, em que os homens nunca apareciam no filme. Se apareciam eram através das falas das mulheres. Está tudo muito bom, tudo muito bem até que Louise (Emmanuelle Béart) vai levar o café da manhã para o patrão e o descobre morto em sua cama, assassinado com uma faca nas costas.

Quem foi? Teria sido sua filha? Ou a cunhada que nutria um amor platônico por ele?

As mulheres estão apavoradas com o assassinato, mas a coisa vai piorar. A irmã de Marcel, Pierrette (Fanny Ardant), aparece para uma visita bastante estranha naquelas circunstâncias. Os fios do telefone foram cortados e o carro não tem gasolina. Alguém está tramando contra elas. Quem?

Suzanne (Virginie Ledoyen) e Pierrette (Fanny Ardant).

Oito mulheres trabalha com as cores de uma maneira muito peculiar. Logo nos primeiros minutos notamos que todas as cores são muito fortes, quase berrantes. E se você olha as roupas das personagens e as cores delas consegue definir suas personalidades sem que elas precisem abrir a boca. Augustine, por exemplo, usa tons escuros e sem graça, como marrom. Já Pierrette usa um vestido vermelho, que casa bastante com suas origens burlescas e com a sensualidade latente de Fanny Ardant. Suzanne usa tons de rosa, que nos evoca a inocência. As roupas e suas cores são uma extensão das personagens. Ozon, nos créditos de abertura, também coloca os nomes das atrizes ao lado de flores. A simbologia é óbvia. As flores também já nos falam bastante sobre essas mulheres.

O filme nos traz diversas surpresas, mas uma de minhas preferidas é mostrar facetas menos conhecidas destas atrizes que tanto amamos. Isabelle Huppert mostra um talento para comédia como nunca vi em nenhum filme antes! Ela traz o exagero necessário à Augustine, que é tão engraçada justamente por ser tão caricata. As discussões com a personagem de Deneuve rendem boas risadas.  A cena em que Augustine quebra uma garrafa na cabeça da mãe é muito engraçada.

Augustine (Isabelle Huppert)

E todas as atrizes cantam. Sim! Como pude me esquecer desse detalhe TÃO importante? O filme está super sério quando, de repente, alguma atriz começa a cantar. Poderia parecer ridículo, mas nas mãos de Ozon isso se tornou um um recurso muito bonito e divertido. Todas as músicas são clássicos franceses. Temos Toi Jamais, música cantada por Deneuve, originalmente gravada pela célebre cantora franco-búlgara, Sylvie Vartan. As músicas, assim como as roupas e cores, não estão ali por acaso. Preste atenção na letra e verá que elas também dizem muito sobre as personagens.

Já que este post é uma pequena homenagem à Deneuve, não deixaríamos de escrever um parágrafo sobre Gaby. Está tudo bem na sua vida, ela tem um amante, o sócio de seu marido, mas ninguém sabe. Ela é desejada, ela é Catherine Deneuve afinal de contas. Mas lá no fundo nem tudo está muito bom não. E esta é a melhor parte de Gaby: a capacidade com que ela esconde dos outros sua infelicidade. Até que aparece a figura da misteriosa Pierrette (Fanny Ardant) lá pelas tantas. E, desde a primeira cena, Gaby parece extremamente incomodada com essa presença. Não só porque o marido parecia nutrir um amor incestuoso pela irmã, mas também pelo fato de que aquela mulher representa outra alternativa, digamos assim. Representa tudo que Gaby poderia ter sido e preferiu não ser: livre, descompromissada. Elas representam polos completamente diferentes. Por isso, todos os diálogos entre elas são recheados de tensão, de agressões. Gaby insulta Pierrette por sua liberdade; Pierrette denuncia o conservadorismo de Gaby. E assim vamos. É claro que uma figura assim encanta Gaby, presa nos muros de sua vida e de sua bela casa no interior da França. Ela luta para se adequar aos padrões, no entanto isso parece sair do seu controle. É difícil não querer se embriagar, pelo menos um pouco, dessa vida que Pierrette leva. É aí que reside toda a sensibilidade da personagem. No fundo Gaby é uma mulher infeliz, presa às convenções, e não sabe muito bem como se livrar delas. Ela carrega uma espécie de cruz silenciosa durante todo filme, disfarçada por uma postura forte.

Se Danielle Darrieux tivesse que passar a coroa de rainha do cinema francês para alguém, acredito que a sortuda seria Catherine Deneuve.

Oito mulheres é um filme de tirar o fôlego, com uma direção ímpar, cenas e falas hilárias. Deixamos aqui nossa pequena homenagem a essa mulher que tanto nos encanta com suas personagens. Bon anniversaire, ma chérie!
 

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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