Entre portas fechadas (1929)

Entre portas fechadas (1929)

 Nessas andanças de ler a mais recente biografia sobre Barbara Stanwyck, escrita por Victoria Wilson, acabei entrando no mundo de Missy e está difícil sair. Vocês podem notar pela frequência com que tenho falado sobre seus filmes por aqui. Mas explico: estou lendo o livro e assistindo aos filmes que ainda não vi ao mesmo tempo. Tenho a sensação de que estou estudando para um mestrado imaginário ou fazendo uma imersão no país imaginário onde esta mulher viveu.

O livro de Victoria Wilson tem apenas mais 1000 de páginas, foi lançado ano passado e esmiúça detalhe por detalhe da vida de Missy. Vários amigos  comentam: mas haja vida, hein. Ao dizer que esse é só o Volume Um, que vai de 1907 até 1940, eles ficam ainda mais apavorados. Explico novamente: é que vários personagens de sua vida possuem mini-biografias dentro do livro. Além disso, Wilson preocupou-se em fornecer ao seu leitor um retrato histórico dos tempos em que Dona Missy vivia. Eu tenho achado ótimo.

 

Por que escolhi falar sobre mais um filme de Missy? – você deve estar se perguntando. Vamos elencar algumas razões:

a) Entre portas fechadas foi o primeiro filme sério da carreira da moça;

b) Insinuação de estupro, sororidade e outros temas relacionados à mulher dominam a trama;

c) Porque é Missy, oras!

 

Entre portas fechadas foi um daqueles filmes em que já fui assistir achando que seria uma porcaria, influenciada pelos comentários que Victoria Wilson faz sobre ele em seu livro. Que nada! Se você pensar que o filme foi feito em uma época em que o cinema falado estava engatinhando, em que certos temas eram polêmicos, certamente encontrará acertos em Entre portas fechadas.

Talvez o mais surpreendente seja o fato de que Missy odiou fazer este filme. Aliás, ela estava odiando Hollywood nesta época. Barbara partira para a terra dos sonhos obrigada pelo marido, Frank Fay. Na realidade, gostaria de ter ficado fazendo teatro em New York, algo pelo qual trabalhara duro demais para simplesmente jogar pelos ares. Porém seu amor por Fay (did you mean relacionamento abusivo? SIM) sempre era mais forte do que suas motivações pessoais, e lá se foi ela se meter naquele lugar de gente de nariz em pé. Os primeiros meses de Stanwyck em Hollywood foram um inferno.

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Barbara e Frank foram convidados por Joseph Schenck, um dos figurões da United Artists, para irem a Hollywood fazer filmes. Já estava acertado que ela faria um remake de um filme do próprio Schenck, The sign of the door, baseado na peça de Channing Pollock. Ele fora estrelado por Norma Talmadge, esposa de Joseph.

Rebatizado de The locked door, Missy começou a trabalhar no filme ao lado de Rod La Rocque, um dos grandes galãs da era muda. Tanto os atores como os diretores sentiam bastante dificuldade em se adaptar aos novos padrões exigidos pelo cinema falado. Diziam que o cinema falado era uma grande mudança blá blá blá whiskas sachet, no entanto pelas costas achavam que o cinema mudo havia sido mutilado. George Fitzmaurice, diretor de Entre portas fechadas, tinha bastante liberdade em relação aos filmes mudos, basicamente deixava a câmera rodar. Agora com o cinema falado, eles começaram a ter uma série de outras preocupações, como a iluminação. Uma vez Barbara quase passou mal de tão quente que o set estava por causa das luzes. O resultado dessa falta de manejo com o cinema falado se reflete em um filme ainda muito calcado no cinema mudo, digo, ele é pesado, não há naturalidade. Barbara se ressentia com isso, pois achava que um ator deveria ser natural. Não é o que acontece.

Para melhorar, George não se dava bem com Barbara, chegando até a dizer a ela uma vez: “Caramba, já tentei de tudo! Olha a sua aparência! Não consigo te deixar bonita, nem que eu queira!”.Stany, que não era idiota nem nada, respondeu: “Olha, eles que me mandaram pra cá, eu não pedi pra vir para Hollywood”.

Apesar de todos esses problemas, The locked door é um filme que já nos dá a tônica do que seriam seus papeis até o final dos anos 30: mocinhas simples, de bom coração, moças pobres e arruinadas pela vida. E ela interpreta Ann de uma maneira tão simples e convincente que é impossível não se encantar com ela desde a primeira cena.

O filme começa em uma festa onde Ann Carter (Barbara) e Frank Devereaux (Rod La Rocque) estão se divertindo. Lá pelas tantas descobrimos que ele é o filho do patrão dela. Frank joga um charminho para cima de Ann, que acaba aceitando o convite do rapaz para jantar. Os carinhos trocados pelos dois na cabine são bastante ousados para a época, mas eles são toda hora interrompidos pela chegada do garçom. Aos poucos Frank vai revelando seu comportamento abusivo em relação às mulheres. Primeiro tenta embebedar Ann, uma clara tentativa de tentar aproveitar-se dela depois que ela estivesse bêbada. Vendo que a recusa da moça, ele a tranca no quarto. Ela tenta sair desesperadamente, mas Frank a empurra e acaba rasgando um pedaço da sua roupa. É claro que esta tentativa clara de estupro é tratada no filme como um “ah, mas quem mandou ela sair com o filho do patrão”. A coisa só não piora mais porque a polícia aparece e os manda sair. Isso porque a lei seca estava com tudo naquela época, e  o iate vendia bebida ilegal. Todos saem presos.

Ann (Stanwyck) e Frank (La Rocque)

Oito meses depois Ann está casada com Lawrence Reagan (William “Stage” Boyd) e é muito amiga de sua cunhada e irmã mais moça de Reagan, Helen (Betty Bronson). Como a vida é uma caixinha de surpresas, Ann acaba reencontrando Frank. O aproveitador agora pretende seduzir Helen, exatamente como fizera com Ann. Porém a personagem de Stany, tomada pela sororidade, não pretende deixar que isso aconteça. Nem que para isso ela tenha de sacrificar-se. Podemos notar o comecinho das personagens “sacrificadoras” de Missy. O ponto alto dessas personagens se dará mais tarde em Stella Dallas – mãe redentora, filme de 1937.

 

Entre portas fechadas é uma ótima oportunidade de sentir o gostinho do começo de carreira de Barbara Stanwyck. Além disso, também é uma oportunidade imperdível de assistir a um dos primeiros filmes completamente falados do final da década de 20 e ver como eles funcionavam. É bastante teatral, principalmente no que diz respeito ao cenário. Repleto de boas reviravoltas, The locked door pode não ser o melhor filme da carreira de Barbara, mas certamente merece ser lembrado.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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