Tudo que o céu permite (1955)

Tudo que o céu permite (1955)

Doug, Doug, faça-os chorar, por favor, faça-os chorar! – Era assim que, segundo Douglas Sirk, o produtor Ross Hunter costumava apresentar-lhe algum projeto. Sirk, considerado o pai do melodrama, e, consequentemente, de toda uma série de novelões mexicanos ou brasileiros, além de ter inspirado diretores como Pedro Almodóvar, entretanto, tem um dom especial, que o diferencia de todo o resto do gênero: ele pega uma história que pode ser considerada boba, ou até exagerada demais, e lhe dá um tom pessoal e convincente. E acaba, por fim, conseguindo tocar a alma do espectador.

Foi assim com Tudo que o céu permite, de 1955, o quinto filme da parceria entre Douglas Sirk e Rock Hudson – eles fariam nove filmes juntos no espaço de seis anos – e o segundo com o par romântico de sucesso Jane Wyman-Hudson. Uma crítica ácida à sociedade da época, seus costumes quase que ultrapassados, o preconceito e a hipocrisia, lançado em uma época em que a revolução sexual apenas engatinhava, All that heaven allows, no original, é um filme extremamente marcante, de visual sofisticado, e que conta uma história que talvez não seja tão exclusivamente da década de 1950 como pareça.

Rock e Jane, no set de “Tudo que o céu permite”. Os dois já tinham desenvolvido um relacionamento de camaradagem durante “Sublime obsessão”, em 1954, e Rock ficou encantado com a simpatia da atriz, já que essa tinha muita paciência com ele, que era praticamente um iniciante na época de seu primeiro filme juntos.

Cary Scott (Jane Wyman) é uma típica viúva de classe média, com dois filhos já crescidos e frequentando a Universidade. Cary vive uma existência sem emoções, e praticamente sozinha, já que seus filhos só vem para casa nos finais de semana. O equilíbrio de sua vida se rompe quando ela conhece Roy (Rock Hudson), o cara que cuida das suas árvores, trabalho que antes era executado pelo pai do mesmo. Roy é um jovem de espírito livre, e Cary se deixa encantar pela personalidade do rapaz. No entanto, inicialmente ela é cautelosa, e consegue disfarçar seus sentimentos. Nesse meio tempo, Cary é convidada para uma festa por sua amiga Sara (a maravilhosa Agnes Moorehead). Essa pede que ela acompanhe um amigo em comum das duas, que está viúvo também, e sozinho. A intenção da amiga não passa desapercebida para Cary, mas, resignada ela decide ir. Seus filhos ficam surpresos pelo fato de a mãe voltar a sair acompanhada por um homem, mas ficam tranquilos ao saber que se trata de um homem mais velho e da mesma posição social que eles. A filha, Kay, que está sempre dando seus pitacos freudianos, afirma aquilo que é, na verdade, a convicção de toda a sociedade na época: a sexualidade (fingidamente) quase inexistente da mulher, deixa de existir quase que completamente quando ela atinge à maturidade. Porque, convenhamos, o mesmo não se aplica aos homens.

Já na festa, Cary se depara com um homem mais velho acompanhado de uma jovem. É interessante observar como isso não causa estranheza em ninguém, já que, mais tarde, isso contrastará com a reação das pessoas para com o caso de Cary. Seu acompanhante na festa é simpático, mas entediante, e logo ela percebe que é isso o que todos esperam de si: que se case de novo, com alguém que lhe faça companhia, acima de tudo, mas com um relacionamento baseado quase que tão somente na amizade. O reencontro com Roy, em seguida, culmina em um passeio juntos, e por fim, em um beijo, com os dois finalmente assumindo que sentem algo um pelo outro.

É interessante observar a importância dos aspectos técnicos para Douglas Sirk, sobretudo nesse momento: Roy é cheio de vida, então o rosto de Rock é sempre bem iluminado, em contraste com a vida presa à convenções e monótona de Cary, onde Jane aparece quase sempre nas sombras. Assim como quando Cary está sozinha, com seus filhos, ou mesmo com os vizinhos enxeridos, as sombras predominam de um jeito ou de outro, e todos são chatos e entediantes. No entanto, quando ela adentra o mundo de Roy, tudo adquire mais luz e cor.

Logo eles iniciam um caso, mas as coisas ficam complicadas quando Roy quer levar o relacionamento a um outro patamar, e pede Cary em casamento. Ela exita, pois sabe que nunca será aceita, nem pela sociedade, muito menos pelos seus filhos. O rapaz, que é totalmente livre das convenções sociais – faz tempo que ele deixou de se preocupar com a opinião alheia – consegue convencer Cary a tentar, deixando tudo de lado. Inicialmente, ela consegue, mas logo a pressão que recebe de todos os lados, faz com que tenha de tomar um decisão pelo bem de todos, exceto ela. Valerá a pena?

 Tudo que o céu permite é um filme incrível, pois questiona um papel estereotipado que a mulher tinha na época, papel esse que inclusive era permeado por muitos dos filmes feitos em Hollywood na época. Por que um homem pode se relacionar com uma mulher muito mais jovem, ao passo que se a mulher se relacionasse com um homem mais novo é considerado imoral? E por que as pessoas se preocupam tanto com a opinião alheia, abdicando até muitas vezes da chance de felicidade real?

O mais impressionante é ver que o tema proposto por Sirk continua atual. Afinal, a situação relatada acima continua causando preconceito e estranheza, não quando piadas maldosas. Vale refletir sobre o motivo de continuarmos com comportamentos que já começavam a ser questionados na década de 1950.

Esse é mais um dentre tantos motivos para assistir essa maravilha. Jane e Rock estão maravilhosos, assim como o elenco coadjuvante. Com a direção maravilhosa, e rica em pequenos detalhes magníficos de Douglas Sirk – como, por exemplo, as várias vezes em que as cenas são vistas por um espelho ou um reflexo, como no caso da televisão – Tudo que o céu permite talvez não seja tão lacrimoso quanto outros filmes do diretor, com exceção talvez da sua sequência final, faz  com que nos compadeçamos da situação da mulher que abre mão da felicidade em nome de pessoas mesquinhas e filhos egoístas. Uma situação real.

Talvez a história da mulher mais velha com o cara mais novo não seja mesmo tão novidade, nem nada demais. Acontece que, nas mãos de Douglas Sirk, vira uma obra-prima.
No set: Rock, Jane e Agnes Moorehead conversam com Douglas Sirk.

Escrito por Camila

Formada em Letras e na Academia Douglas Sirk de sofrência e pregadora na Igreja Universal do Reino de Woody Allen. Uma professora de inglês apaixonada por musicais. Faz parte da Comissão de Avaliação, Seleção e Fiscalização, na área de Cinema e Vídeo, do Financiarte de Caxias do Sul.

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