The Barbara Stanwyck Show

The Barbara Stanwyck Show

Ontem, revendo o documentário sobre Pacto de sangue, alguém declarou que Barbara Stanwyck não era valorizada porque “não era uma Ava Gardner, uma Rita Hayworth”. Esse é o ponto. Foi justamente essa diferenciação que fez com que ela tivesse uma das carreiras mais longas que Hollywood já viu. Stany topava qualquer parada. Westerns? Ela topava. Comédias pastelão? Também. Assassinas, mães redentoras? Idem, idem.

No final dos anos 50, Missy embarcaria em uma trip muito louca chamada televisão.

Depois de estrelar Forty guns, um baita western dirigido por Samuel Fuller, Missy ficou quatro anos longe do cinema. Aquilo começou a incomodá-la. Ela não era uma pessoa de hobbies, gostava de viajar, só que viajar sozinha era uma chatice. O ócio não era para ela. Por isso, começou a procurar outros projetos para se envolver, que ocupassem sua cabeça. Isso significava considerar a televisão, algo que ela nunca demonstrara muito interesse.

 

Antes de The Barbara Stanwyck show, ela já havia feito uma aparição no programa de Jack Benny, na paródia do filme Gaslight, Autolight. Stanwyck está maravilhosa no papel da esposa histérica que, aos poucos, é levada à loucura pelo marido.

O que Stany realmente queria era ter uma série de faroeste. Esse era seu gênero de filme favorito e, na minha singela opinião, não existe outra atriz que combine mais com a temática desses filmes do que ela. Porém, seus agentes, chamados ironicamente de “the brains”, achavam que ninguém iria comprar a ideia. Além disso, queriam algo mais glamour, menos poeira, botas e pedaço de feno na boca.  Barbara odiava esse suposto glamour que queriam enfiar-lhe goela abaixo.

Muitos scripts passaram pelas mãos de Missy, mas ela nunca encontrava nenhum que lhe agradasse de verdade. Até que um dia, a The Jaffe Agency preparou o embrião do que viria a ser The Barbara Stanwyck Show e o submeteu à sua aprovação. A premissa de interpretar uma personagem diferente a cada episódio agradou a atriz. Algumas histórias do tipo faroeste foram colocadas na série para agradá-la. Assim, Missy assinou com a emissora NBC para estrelar seu próprio programa, todas as segundas-feiras às 22h.

Antes de cada episódio, temos a virada de cabeça de Missy, enquanto o narrador diz: “Hoje à noite, diretamente de Hollywood, The Barbara Stanwyck show“. Toda vez que ela vira a cabeça e se mostra, com seus lindos cabelos grisalhos, o cidadão quase tem um enfarte. Antes de cada história, ela tece alguns comentários, às vezes sobre os atores que atuarão nelas, em outras sobre o desafio de interpretar o papel que os espectadores estão prestes a assistir. Os figurinos altamente chiques utilizados por ela nessas conversas com os espectadores foram desenhados por Werlé. Em alguns momentos, você consegue ver como ela não se sente confortável nessa posição de ostentação. Acho que ela deveria estar orando para tirar aqueles vestidos logo e vestir um pijama bem largo. 

Por mais que eu ame Stany e tudo que ela faça, algumas coisas me incomodaram em The Barbara Stanwyck show. As histórias por exemplo. Aí você me pergunta: se as histórias te incomodaram, por que diabos você assistiu a metade da série já? Porque acredito que faça parte se incomodar e questionar o que essas histórias veiculam, mas principalmente trazer essa discussão para cá. Percebi um caráter moralista em quase todas elas. Big career é uma dessas histórias, em que Barbara interpreta uma estilista bem-sucedida, mas que não sabe o que fazer, pois seu marido está desempregado e é alcoólatra. Ele não consegue ficar feliz com o sucesso da esposa, considera-se abaixo dela , afinal não é o homem que deve prover o dinheiro para sustentar o lar? Ela recebe uma promoção e fica na dúvida, pois de um lado quer aceitar; de outro quer ser “uma esposa que espera o marido todas as noites em casa”. Lá pelas tantas, o marido é atropelado a caminho de uma festa para comemorar a promoção de Barbara. Ele morre e ela passa o resto do episódio se culpabilizando pelo acontecimento. Achando que sua carreira foi o que ocasionou essa tragédia. No final do episódio, a moral que fica é: não importa se você for uma mulher bem-sucedida ou whatever, você precisa de um homem ao seu lado para se sentir completa. Poxa vida. Muitos plots se desenrolam dessa forma no programa, e não é surpresa que 99% deles fossem escritos por homens.

Dois episódios ganharam meu coração durante esta primeira parte da série que vi: The key to the killer e Confession. O primeiro, o piloto da série, gira em torno da tensão criada quando a personagem de Barbara acaba ficando algemada junto a um fugitivo. Além da tensão sexual entre os dois, também fica no ar se ele vai ou não vai matar/cortar a mão de Barbara para escapar. Confession tem um plot parecido com o de Pacto de Sangue, como observa Missy naquela conversa com os espectadores sobre a qual falei anteriormente. Só que aqui a personagem principal é uma mulher ingênua e carente, manipulada pelo seu advogado, que a convence de simular a própria morte para que incriminassem o marido ciumento. É interessante observar que a forte atração sexual entre o advogado e sua cliente é mil vezes mais explícita do que a mostrada em Pacto de Sangue. Há uma cena particularmente interessante, em que Missy ajeita a gravata do advogado e se questiona se ele sente, como ela, uma poderosa atração sexual . Quando os dois se olham…. batata! Ele sente o que eu sinto – diz Paula Manning, a personagem de Missy. Depois o fogo e música de Paula Manning torna-se ainda mais evidente nas investidas para o advogado, claramente dizendo que ela não queria ir embora de sua casa; ela queria mesmo o lelele. Graças à Nossa Senhora do Cinema, alguns episódios de The Barbara Stanwyck show conseguem explorar bem o sex appeal desta senhora.

Beijinho no ombro pro recalque da Academia passar longe.

Em maio de 1961, Barbara Stanwyck ganhou o Emmy por sua atuação no programa. Porém, algum tempo depois, ela ficou sabendo que a NBC não renovaria o programa para uma segunda temporada. Os fãs de Stany ficaram revoltados e começaram a mandar cartas desaforadas para emissora, pedindo que reconsiderassem a decisão de não renovação. Em seu humor feroz, Missy teria dito: “De que adianta enviar cartas para NBC, se eles não sabem ler”?

Mal sabia a NBC que alguns anos depois, esta senhora explodiria em The big Valley, a série faroeste que tanto Missy havia sonhado em fazer.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

Comentários

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

                                    
Encontre-nos no Facebook
Filmes por Ator:
                                                                                                                       
Filmes por Atriz:
                                                                                                                       
Filmes por Diretor: