Os cinquenta anos de A Feiticeira

Os cinquenta anos de A Feiticeira
Era uma vez uma garota tipicamente americana, que certo dia, chocou-se contra um típico rapaz americano. Ela chocou-se contra ele…… E outra vez chocou-se contra ele! Por isso decidiram sentar-se e conversar a respeito, antes que sofressem um acidente. Tornaram-se bons amigos e descobriram que tinha muitos interesses em comum. E quando o rapaz percebeu que ela era desejável, atraente e irresistível, fez o que qualquer rapaz americano teria feito, pediu-a em casamento. Tiveram um casamento típico e partiram para uma típica lua de mel em uma típica suíte matrimonial. Tudo tipicamente normal. 
Exceto pelo fato de que esta garota… é uma feiticeira.

 

Há exatos 50 anos atrás, estreava assim uma das séries mais queridas da televisão americana: Bewitched, conhecida por aqui como A feiticeira. Com sua música-tema e abertura inconfundíveis, a série, com a  história da bruxinha que se apaixona e casa com um mero mortal, tomou rapidamente o coração dos americanos, em uma época em que, cada vez mais, a televisão ganhava destaque na vida das pessoas.

A feiticeira foi uma das coisas que mais marcou minha infância. Lá por 2000 e alguma coisa, eu tinha um ritual. Estudava à tarde, então chegava da escola lá por seis e meia, jantava, escovava os dentes, e saía correndo para a televisão para assistir Jeannie é um gênio e A feiticeira na Rede TV.  Eu achava incrível o poder que aquelas duas personagens mágicas tinham, e invariavelmente eu tentava mexer o nariz, tal qual Samantha Stephens, para ver se a louça desaparecia da pia. O tempo passou e eu cresci e agooora sou mulheeer  e continuei amando a série. Inclusive consegui baixar e comprar na medida do possível algumas temporadas. E hoje em dia, se quero me livrar do estresse, o remédio é só um: sentar pra assistir A feiticeira. Os resultados são sempre satisfatórios.

O projeto da série teve início em 1963. William Asher, que, entre outros trabalhos na TV e no cinema, dirigiu alguns episódios de I love Lucy, apresentou ao estúdio Columbia um projeto sobre um frentista de um posto de gasolina que casava com uma moça da alta sociedade. Os diretores não gostaram, pois a proposta era relativamente parecida com a do produtor Harry Ackerman, que tempos atrás, tinha aparecido com a proposta de uma série de televisão sobre os conflitos gerados pelo casamento de um publicitário com uma bruxa. Bill Asher gostou da ideia, e foi atrás de Ackerman. Os dois chamaram Sol Saks para escrever o piloto. O roteirista baseou-se em dois filmes: I Married a Witch, de 1942, e em Bell, book and candle.

Saks teve a ideia  de como Samantha manifestaria seus poderes, a partir da esposa de Asher, Elizabeth Montgomery, quando, em uma reunião dos três, ela sugeriu vários gestos, e um deles foi o de “mexer o nariz”. Na verdade, ela mexia a boca, e dava a impressão de estar mexendo onariz. Saks soube na hora que era isso o que queria, e chamou Liz para ser Samantha.

Os produtores queriam o ator Dick Sargent para o papel do marido da feiticeira. No entanto, o ator estava ocupado com outros projetos. Após uma sériede testes, Dick York foi o escolhido para ser Darrin Stephens. Curiosamente, mais tarde quando Dick York foi afastado da série por motivos de saúde, Sargent veio para ocupar seu lugar.

A maior dificuldade foi encontrar uma atriz para viver Endora, a mãe de Samantha, já que a maioria das atrizes escolhidas não se encaixava de alguma maneira no perfil da personagem. Reza a lenda que Liz encontrou Agnes Moorehead casualmente em uma loja, e parou para conversar com ela, já que as duas tinham trabalhado antes juntas. O tópico do projeto da série acabou surgindo, e Elizabeth perguntou como quem não quer nada para Agnes se ela aceitaria o papel da mãe de Samantha, e ela acabou aceitando.

Elizabeth, filha do ator Robert Montgomery, com quem tinha uma relação conturbada, convidou o pai para o papel de Maurice, o pai de Sam na série, mas o mesmo recusou o pedido. “Acho que ele se ressentia com o fato dela ter se tornado uma estrela maior que ele”, diz Herbio Pilatos, o biógrafo da atriz. O papel acabou ficando com Maurice Evans.

Com os atores principais definidos, a série teve suas gravações iniciadas no final de 1963, graças ao apoio de grandes patrocinadores como a Chevrolet e a Quaker. As duas primeiras temporadas foram gravadas em preto e branco, e somente a partir da 3ª temporada a série foi gravada em cores. No entanto, as temporadas em P&B foram colorizadas mais tarde, para o lançamento em DVD. Em 17 de setembro de 1964 foi ao ar pela rede de televisão ABC o episódio piloto, chamado I, Darrin, Take This Witch, Samantha. Aliás, um detalhe: Darrin é o nome original do personagem que, na versão em português, conhecemos por James. A mudança de nome na dublagem foi porque os responsáveis acreditavam que Darrin seria um nome um tanto complicado para os brasileiros entenderem. Nesse primeiro episódio, ficamos sabendo como a feiticeira Samantha (Elizabeth Montgomery) conheceu o publicitário James Stephens (Dick York), e que foi amor à primeira vista. Logo os dois se casam, e nada de Sam contar a verdade ao marido. No entanto, a mãe de Sam, Endora (Agnes Moorehead, fantástica) resolve aparecer durante a lua-de-mel, fula da vida porque a filha se casou com um mortal sem contar nada pra ninguém. Pressionada, Sam acaba contando que é uma bruxa para o marido, que, é claro, não acredita na história em um primeiro momento. Entretanto, ele recebe provas irrefutáveis dos poderes da sua esposa, e acaba se resignando com sua situação, já que ama Sam. Ele pede à bruxinha, no entanto, que eles possam viver como meros mortais, e ela aceita. Mas, é óbvio que, para quem tem poderes para fazer qualquer coisa, isso se torna praticamente impossível. Mesmo que tente evitar a magia, ela tem toda uma corja de parentes birutas, incluindo sua mãe. 

Em pouco tempo, a série tornou-se um estrondoso sucesso no Estados Unidos. A primeira temporada conquistou o público com a vida dos recém-casados Stephens, lidando com a inusitada situação em que viviam. Além da ótima atuação dos personagens principais, a série contava também com ótimos coadjuvantes, que deram o toque especial à série, tornando-a o clássico que ela é hoje.



Os personagens coadjuvantes de A feiticeira

Além de Samantha, Darrin e Endora, a série contava ainda com os personagens mais malucos possíveis, que estavam envolvidos de alguma forma com os três.

Larry Tate (David White): o mulherengo chefe de Darrin, dono da Mcmann & Tate, agência onde ele trabalha. Larry é também grande amigo dos Stephens, e por isso, muitas vezes, acabou envolvido nas confusões causadas. Casado com Louise, o executivo passou grande parte da série sempre chantageando Darrin com a promessa de uma sociedade na agência.


Tia Clara (Marion Lorne): a atrapalhada tia de Sam nunca consegue acertar um feitiço, e, por isso, rendeu alguns dos melhores episódios da série por causa disso. Tia Clara também sempre chega na casa dos Stephens de maneira inusitada, raramente pela porta. A atriz Marion Lorne, que trabalhou com Hitchcock em Pacto sinistro, faleceu em 1968, no decorrer da série, e sua personagem nunca mais foi mencionada. A atriz também ganhou um Emmy póstumo pela atuação como Tia Clara.

 

Gladys Kravitz (Alice Pearce/Sandra Gould): a fofoqueira e enxerida vizinha da frente dos Stephens foi interpretada por duas atrizes diferentes, já que Alice Pearce, que interpretou a personagem nas duas primeiras temporadas, faleceu logo após ao término do segundo ano da série. As duas atrizes foram fantásticas no papel, mas acredito que Alice foi ligeiramente melhor. Gladys se caracterizava principalmente por ser a única de fora que presenciava sem querer as mágicas de Samantha e de sua família pirada. No entanto, ninguém acreditava nela, nem mesmo seu marido  preguiçoso, Abner, e ela sempre acaba passando por louca. A personagem é uma das melhores da série, e seu grito de ABNEEEEEEEEEEER! com voz esganiçada é uma de suas marcas registradas.

Alice Pearce e Sandra Gould, respectivamente.

Abner Kravitz (George Tobias): o incrédulo e pacífico marido de Gladys, tem um caminhão de paciência com a esposa, e a trata como se fosse louca, quando ela tenta provar que os Stephens não são uma família normal.

Tio Arthur (Paul Lynde): o irmão biruta e sarcástico de Endora. Os dois não se dão muito bem, e quando se encontram, feitiços são jogados um contra o outro. Além disso, Tio Arthur costumava aparecer nas horas mais inapropriadas. O ator Paul Lynde já havia participado na primeira temporada da série, mas interpretando um instrutor de direção.

 

 

Tabitha Stephens (Erin Murphy e Diane Murphy): a primeira filha de Darrin e Sam, que, assim como a mãe, era uma feiticeira, surgiu na segunda temporada, quando, devido à gravidez de Elizabeth Montgomery, os roteiristas tiveram que criar também uma gravidez para Samantha. Todo o plot da temporada girou em torno disso, e o episódio de nascimento da menina, em minha opinião, é o melhor de toda série. Nessa temporada, Tabitha foi interpretada pelas gêmeas Erin e Diane, mas a partir da terceira, Erin assumiu o papel sozinha, já que estava ficando diferente da irmã. O fato de Tabitha ser uma criança e não poder controlar seus poderes, renderam alguns dos episódios mais engraçados de A feiticeira.

Dr. Bombay (Bernard Fox): um médico-bruxo, que é invocada invariavelmente pelo encanto Calling Dr. Bombay! Emergency! Come right away!, o Dr. Bombay sempre aparece com roupas bizarras ou inapropriadas, já que, quando é invocado, geralmente ele saiu de alguma das situações inusitadas em que trabalha, ou mesmo de momentos de ~~romance~~ com enfermeiras aleatórias.

Adam Stephens (David Lawrence e Greg Lawrence): Assim como com o caso de Tabitha, o personagem de Adam na série foi criado para justificar a gravidez de Liz em 1969, já na era Dick Sargent. Inicialmente, Adam seria somente mortal, sem nenhum poder, assim como seu pai. No entanto, na temporada seguinte, Adam começa a apresentar poderes e a dar trabalho por causa disso, da mesma maneira que aconteceu com sua irmã.


Maurice (Maurice Evans): o pai de Samantha, que curiosamente é separado de Endora, apareceu muitas vezes durante a série. Assim como Endora, ele desaprova o genro, mas é muito mais tranquilo com a situação. Maurice é também famoso por seus modos teatrais e por citar Shakespeare frequentemente.



Serena (Elizabeth Montgomery): mais uma da lista infinita de parentes loucos de Sam, a prima Serena surgiu na segunda temporada, mais exatamente no episódio do nascimento de Tabitha. A semelhança com Sam é somente física, já que as duas tem personalidades completamente distintas. Serena é meio hippie e rock and roll, e não exita em usar seus poderes em trapaças e para irritar sua prima favorita, assim como Darrin.



Algumas curiosidades envolvendo a série

 
  1. Dick York atuou na série somente até a 5ª temporada. Ele sofria de um problema na coluna, e tinha dores terríveis. Por conta disso, começou a faltar nas gravações no final da 4ª temporada, e na 5ª há diversos episódios sem a presença dele. A desculpa nos episódios era sempre de que ele estava viajando à negócios. No final dessa temporada, os produtores decidiram substituí-lo por Dick Sargent, que era a primeira opção para o papel de Darrin desde o começo. Particularmente, eu prefiro o Dick York, e acho que a série perdeu muito com a saída dele. Fez falta.
  2. Agnes Moorehead, que era grande amiga de Dick York, protestou desde o início da entrada de Dick Sargent no elenco. Os dois não se davam bem, e Agnes adorava e sentia falta de Dick York. Já para Elizabeth Montgomery foi mais fácil. Segundo fofocas de bastidores, ela não tinha uma boa relação com o primeiro intérprete de Darrin, ao passo que desenvolveu uma grande amizade com Sargent.
  3. O sucesso de A feiticeira abriu portas para a criação de Jeannie é um gênio. A concorrência estava de olho, e procurou por Sidney Sheldon. Os executivos da rede pediram que Sheldon criasse uma série que também envolvesse mágica. E assim nasceu mais um sucesso da TV americana.
  4. Apesar de serem de redes de televisão diferentes, as duas séries eram produzidas pelo mesmo estúdio, a Columbia Pictures Television. É possível observar isso principalmente no fato de que o cenário da casa dos Stephens, de A feiticeira, é o mesmo da casa do Dr. Bellows, de Jeannie é um gênio.
  5. A série durou de 1964 até 1970, tendo oito temporadas
  6. Sam e Darrin foram o primeiro casal da televisão a dormirem na mesma cama. Pode observar: antes disso, tanto no cinema quanto na tv, os casais eram mostrados dormindo em camas separadas, em nome da moral e dos bons costumes (!).
“Dormimos na mesma cama sim, e, se reclamar, faremos sexo mágico pra vocês verem!”

Curtiu? Então, nada melhor do que comemorar as bodas de ouro de A feiticeira, assistindo algum episódio dessa série maravilhosa. Se você não tiver fácil aí, é só catar no Youtube. Nesse link, você pode assistir ao primeiro episódio dublado.

 

Escrito por Camila

Formada em Letras e na Academia Douglas Sirk de sofrência e pregadora na Igreja Universal do Reino de Woody Allen. Uma professora de inglês apaixonada por musicais. Faz parte da Comissão de Avaliação, Seleção e Fiscalização, na área de Cinema e Vídeo, do Financiarte de Caxias do Sul.

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