Uma Aventura na Martinica (1944)

Uma Aventura na Martinica (1944)

You know you don’t have to act with me, Steve. You don’t have to say anything, and you don’t have to do anything. Not a thing. Oh, maybe just whistle. You know how to whistle, don’t you, Steve? You just put your lips together and blow.

A história de Uma Aventura na Martinica (no original, To have and have not) se confunde com a própria história de Bogie e Bacall. Afinal, foi por causa desse filme que nasceu um dos pares mais famosos do show business, dentro e fora das telas. E não precisa de muito para entender o porquê de ter funcionado tão bem. Desde a primeira cena juntos, o casal provoca faíscas.

Adaptado do livro homônimo de Ernest Hemingway, Uma Aventura na Martinica se passa na cidade do título em português, e não em Cuba, como no romance original. Repleto de improvisos, tanto do diretor quando do talentoso elenco, o filme foi a estreia de uma Lauren Bacall de 19 anos, nova, sim, mas já mostrando a que veio – e de quebra, arrebatando o coração de Humphrey Bogart.

O mais curioso de tudo é que esse filme, que é frequentemente comparado à Casablanca por causa da história similar, e pelo fato de ser protagonizado por Bogie, nasceu de uma aposta entre o diretor Howard Hawks e o escritor Ernest Hemingway. O primeiro afirmou que o autor era tão bom que conseguiria transformar seu pior livro em um ótimo filme. De fato, foi o que aconteceu, mas não por acaso. Hemingway duvidava muito que algo que prestasse saísse de To have and have not. Mas, como o auxílio de outro ganhador do Nobel, o também escritor William Faulkner, e ainda Jules Furthman, o que parecia impossível para Hemingway aconteceu: o filme foi um sucesso, e hoje é considerado um clássico cult.

Mas, talvez o que tenha aumentado essa aura “mágica” que cerca Uma aventura na Martinica, foi o seu casal de protagonistas. Tudo aconteceu meio que por acaso: a esposa de Howard Hawks viu na capa da  Harper’s Bazaar a jovem modelo Betty Joan Perske, e ficou impressionada com a beleza da moça. Logo, ela mostrou a foto ao marido, sugerindo que ele a contratasse para seu próximo filme. O diretor logo fez seus cambalachos e dentro de poucos dias, Betty já estava em Hollywood. O nome da moça foi trocado para Lauren Bacall, e o resto… é história. Desde a primeira cena, ela rouba o coração dos espectadores, e não só deles. Bogie, que era casado pela 34840382º vez se encantou pela moça, e foi apenas questão de tempo para que ele se divorciasse da esposa para poder casar-se com Bacall. Fato esse que desagradou Howard Hawks, que sentiu-se traído com o casamento, sabe-se-lá-Deus-o-porquê.

Enfim, bastidores à parte, Uma aventura na Martinica consegue prender a atenção do espectador não só pelo magnetismo do casal, como também pela qualidade dos diálogos rápidos, e cenas memoráveis, tudo praticamente improvisado *voz do Faustão* quem sabe faz ao vivo! . A história se passa no mar do Caribe, mais especificamente, na Martinica, e acompanha o cínico expatriado americano de humor autodepreciativo, Harry Morgan (Bogart) e seu companheiro de barco, Eddie (Walter Brennan). A ação se desenvolve em 1940, ainda no período da Segunda Guerra Mundial. Harry acaba se envolvendo com a Força Francesa, e quase sem querer, acaba se comprometendo com a causa, ao ser convencido a ajudar um casal da Resistência Francesa. Morgan inicialmente só aceita pois um cliente que lhe devia uma considerável quantia em dinheiro acaba morrendo, e ele, sem saída, precisa aceitar o trabalho. Nesse meio tempo, Harry conhece a vigarista e batedora de carteiras, além de cantora nas horas vagas, Marie Browning (Bacall), que logo é apelidada pelo mesmo de Slim. A atração entre os dois é imediata, e a esperta garota, tão parecida, e ao mesmo tempo tão diferente de Harry acaba por impressioná-lo. Logo Slim, que também está sem dinheiro, e consequentemente, sem ter como sair de Martinica, acaba envolvida na mesma causa que Morgan. Era a única desculpa que faltava para unir de vez os dois.

Diferente de Casablanca, To have and have not tem um final otimista, que deixa quem assiste ansiando por mais. Afinal, o casal, ao invés de deixar que a guerra os separe, unem-se, dispostos a trabalharem juntos para vencer o inimigo, e de brinde, acabam também salvando um ao outro de sua própria solidão e do isolamento. E mais: a personagem de Bacall é tão corajosa e ousada quanto Harry – o que só nos dá um vislumbre, e aumenta a curiosidade, em saber do futuro do casal. Há momentos cômicos, cínicos, diálogos irônicos, e mesmo sensuais, como a famosa frase de Slim, que abre esse post: “You know how to whistle, don’t you, Steve? You just put your lips together and blow.” E desde então, nem o cinema, nem Bogart foram mais os mesmos.

 
 Lauren Bacall nos deixou essa semana, e como a Jessica bem ressaltou em seu post, nos pegou totalmente desprevenidos, e com toda a certeza, nos entristeceu. O cinema tem essa mágica de tornar certos astros nossos amigos, nossos velhos amigos que estão sempre lá esperando por nos fazer rir, chorar, se irritar, amar, enfim, escapar por alguns instantes do mundo real. Então, essas estrelas são eternas, pois elas sempre estarão lá quando precisarmos deles. Certamente, Bacall foi uma dessas grandes estrelas, uma grande dama, autêntica até o fim. E, é claro que a carreira dela foi muito mais além do que ser a parceira de Bogie. Ela fez ótimos filmes, e lutou para sair da sombra do marido após a sua morte. O motivo de ter escolhido esse filme, é que além de ser um dos meus favoritos, foi o que eu corri para assistir depois de estar chocada e triste pela perda de Lauren Bacall. E o sentimento que fica ao final é de que, se existisse esse negócio batido de almas gêmeas, com toda a certeza esse par foi um ótimo exemplo. Por isso, ao final de tudo, o que conforta é saber que, com o perdão do clichê, mas nisso realmente eu acredito, Bogie e Bacall provavelmente estão juntos agora, e trocando aqueles sorrisos que só eles sabiam dar.
Lauren Bacall assiste uma das cenas do filme <3

Escrito por Camila

Formada em Letras e na Academia Douglas Sirk de sofrência e pregadora na Igreja Universal do Reino de Woody Allen. Uma professora de inglês apaixonada por musicais. Faz parte da Comissão de Avaliação, Seleção e Fiscalização, na área de Cinema e Vídeo, do Financiarte de Caxias do Sul.

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