Prisioneiro do passado (1947)

Prisioneiro do passado (1947)
Foi com muito pesar que ontem recebemos a notícia do falecimento de uma das melhores atrizes da era de ouro em Hollywood, Lauren Bacall. Nós, do Cine Espresso, ficamos muito tristes, e cairemos no clichê mais verdade do mundo ao dizermos que seu legado ficará para sempre através dos filmes que estrelou. Por isso, durante os próximos posts, tentaremos homenagear essa atriz tão versátil, falando sobre alguns de seus filmes. E eu, como sou a louca do filme noir, escolhi um dos filmes desse gênero que Betty estrelou para prestar minha pequena homenagem a ela.
 
Dark passage (Prisioneiro do passado por aqui) foi o terceiro dos quatro filmes que a dupla Bogie-Bacall fizeram. Alguns clamam que não é o melhor, mas quer saber? É noir, tem o casal mais sensação de 1947 (eles tinham acabado de casar, me corrijam se eu estiver errada) e não tem a obrigação de ser um The big sleep da vida. O filme foi produzido por nada mais nada menos que Jerry Wald, o homem que colocava a mão em tudo e fazia virar sucesso. Lembrando que Wald produziu Mildred Pierce e Sob o signo do sexo, que resenhei por aqui.

Baseado no romance noir homônimo, escrito por David Goodis, Dark passage começou trazendo novamente uma inovação perigosa, que já tinha sido utilizada por Robert Montgomery no ano passado em A dama do lago: a câmera subjetiva. Na verdade, o pioneiro nessa técnica foi Abel Gance com seu Napoleão, mas enfim… A câmera subjetiva consiste em filmar sem mostrar o personagem. O espectador vê a ação através dos olhos do protagonista. Se em A dama do lago, a utilização da câmera subjetiva tornou o filme enfadonho, em Dark passage ela faz todo sentido. A técnica foi utilizada para esconder o velho rosto do personagem Humphrey Bogart, porque lá pelas tantas ele se torna o Bogart. Já explico.

No noir a regra é clara: confunda o espectador. Não o deixe entender direito o que está acontecendo. Acredito que a câmera subjetiva traga esse desnorteamento. É angustiante ouvir a voz de Vincent Parry (Humphrey Bogart) e não entender porque ele nunca aparece. Mas a razão é bem simples: ele vai se tornar o Bogart. Vincent é um fugitivo da cadeia, que acaba na casa de Irene Jansen (Lauren Bacall). Ela o acolhe, mas ele acaba tendo que ir embora de novo. No meio do caminho, encontra um taxista que o reconhece e propõe levá-lo a um cirurgião plástico para mudar de rosto. Assim, somente quando a operação termina que finalmente a câmera parece voltar pro “lugar” e vemos Bogie de corpo inteiro. Ótima estratégia, não?

Uma das melhores coisas de Dark passage é certamente a cena da alucinação de Bogie depois de levar a anestesia para operar o rosto. Ela foi inspirada em outra cena de alucinação maravilhosa: a de Até a vista, querida, de 1944. Na alucinação de Vincent, vemos mil Lauren Bacalls, as imagens giram e falas de alguns personagens são repetidas incessantemente.

Pode não ser o melhor filme noir que você já viu, mas num ponto você vai ter que concordar comigo: a química entre Lauren e Bogie compensa os pontos fracos. Quando Vincent vai até a casa de Irene e pede para ela cuide dele, a gente percebe que até com esparadrapos no rosto esses dois conseguem nos emocionar. A cena em que ele finalmente tira o curativo é um bálsamo e ao mesmo tempo um tormento para a alma. Ele tem de ir embora, ela não quer. Irene gosta tanto desse homem seu rosto é indiferente a ela. Durante 1h45 min de filme, dá para enxergar bastante que a atuação deles ultrapassa os personagens. Eles realmente estão dizendo aquilo um para o outro e falam sério. Transborda amor.

Ou a câmera te ama ou te odeia. No caso de Bacall, era um caso de amor. Os closes em seu rosto quando ela está chorando são lindos, parece que a câmera faz amor com ela (que brega, mas é verdade). O que são aquelas sobrancelhas arqueadas, me digam? Além disso, é interessante notar como, apesar de ser um noir, ela consegue dar uma nuance completamente diferente da sua atuação em The big sleep. Irene não é durona, para mim, ela é uma versão mais suave de uma heroina de filme noir. No entanto, quando lhe é exigido, por exemplo nas cenas com Agnes Moorehead, ela consegue dar os ares de “I’m in charge, ok?” . Isso é o que fez de Lauren Bacall uma atriz tão lembrada, pois ela conseguia transitar entre os mais variados gêneros. Lembro daquele filme de Douglas Sirk ao lado de Rock Hudson em que ela me fez chorar litros. Também lembro de O espelho tem duas faces, ao lado de Barbra Streisand, Bacall me fazendo rir e chorar ao mesmo tempo. Sempre linda. Sempre talentosa. Sempre com O olhar.

Ela chora e a gente chora junto – ou mais.

Um pouco do brilho de Hollywood clássica se apagou ontem. Lauren, espero que você esteja causando bastante ao lado do Bogie. Sua importância para o cinema ultrapassa o corpo, a morte física. Você vai viver para sempre no meu coração.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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