Os pássaros (1963)

Os pássaros (1963)

O camponês Nat ouve um barulho do lado de fora da janela de sua casa. Algo chocou-se contra ela. O inverno acabava de começar. Algo estava errado, um pássaro atirando-se contra a janela, mas o que é isso? Ninguém acredita em Nat, até que pássaros, essas criaturinhas bondosas e passivas, resolvem atacar uma cidade do interior da Inglaterra, causando pânico por onde passam. Assim é o plot inicial do conto da escritora britânica Daphne du Maurier (apesar desse nome que faz com que a gente pense que ela é francesa). Simples, não? Mas pense para adaptar para o cinema. Pensou? Difícil não? Não para Alfred Hitchcock.

 

Os pássaros foi um filme que cresceu muito dentro de mim. Como a maioria das pessoas, eu estava contaminada pelo germe Psicose, esperando algo muito mais grandioso a seguir. A primeira vez que o assisti confesso que fiquei bastante frustrada. Depois reassisti outras duas vezes e mudei completamente de opinião. Não só é um filme grandioso como um dos pioneiros em efeitos especiais da época. E além do mais, as fofocas e barracos envolvendo Hitchcock e a estrela do filme, Tippi Hedren, também alimentaram minha curiosidade a tal ponto que acabei comprando o livro que continha o conto que deu origem ao filme.

Daphne du Maurier, autora de Rebecca e Os pássaros.

Estamos carecas de saber que livro e filme são duas coisas completamente diferentes, mas não custa relembrar. Se você for ler o conto Os pássaros esperando Melanie Daniels, Mitch Brenner e companhia, feche o livro o quanto antes. Não existe uma Melanie e nem um Mitch, muito menos um romance no conto. O que nos leva ao cerne da questão: o que Hitchcock fazia com os contos/romances que selecionava para adaptar para o cinema. Depois de ler Rebecca (da mesma autora de Os pássaros) e Psicose, ver e rever os filmes 500 vezes, eu arriscaria dizer que o diretor consegue fazer essa passagem do livro para o cinema de forma espetacular. Hitchcock dá o que o público espera e o resultado não poderia ser outro: sucesso.

 
 

Mas o que o público quer?

Para começo de conversa, o público anseia por uma personagem com o qual possa se identificar. Alguém para torcer. Conflitos para poder dizer: nossa, isso também acontece comigo. E talvez o segredo de Hitch está justamente em quase sempre nos dar essa identificação, independente da trama. O Norman Bates do livro de Robert Bloch não inspira simpatia. Então o que foi feito? Bem, um outro Norman foi criado, personificado na figura dócil de Anthony Perkins. Criamos uma simpatia estranha por esse assassino, coisa que jamais aconteceria se estivéssemos lendo o livro. Com Os Pássaros acontece o mesmo. No conto original, as personagens principais são uma família de camponeses. Os ataques dos pássaros começam e eles são obrigados a ficar isolados em casa, depois de terem se abastecido de comida na casa de Mr.Trigg, patrão de Nat, que acaba sendo morto pelos pássaros. Não dá tempo de criarmos simpatia por essa família, justamente porque em 40 páginas de conto não conseguimos conhecê-la bem. A gente sabe que os pássaros estão atacando, corram para as colinas etc e tal, mas não há um sentimento de identificação. Pelo menos comigo não houve. Logo o que a gente faz? Vamos mudar as personagens do conto, criar um romance, uma heroína e um conflito no meio da tragédia para manter o espectador na cadeira até o final do filme. Foi isso que Hitchcock e o roteirista do filme, Evan Hunter, fizeram.

A atmosfera inglesa foi mudada para o charmoso sul da Califórnia, em Bodega Bay. Mas antes de irmos para Bodega Bay, a história começa em São Francisco. Lá, Melanie Daniels (Alfred Hitchcock) conhece Mitch Brenner (Rod Taylor) em uma pet shop. Desde o começo, o relacionamento dos dois é marcado por farpas e piadinhas. Mitch, que é advogado, reconhece Daniels, pois ela tinha sido processada por entrar dentro de um chafariz nua quando estava em Roma. Quer dizer, segundo Melanie, isso não passa de uma mentira do jornal rival de seu pai para desastibilizá-lo. Brenner está à procura de pássaros-do-amor para dar de presente a sua irmã, Cathy (Veronica Cartwright). Apesar das piadinhas e farpas, Melanie fica interessada em Brenner e acaba comprando os pássaros, já que ele não encontrara na pet shop. Ao ir entregar a ele, um vizinho alerta para o fato de que Brenner foi passar o final de semana em Bodega Bay. Melanie pega seus pássaros e vai para a cidade encontrar Mitch e o resto é história.

É interessante notar as circunstâncias em que os protagonistas se encontram: numa pet shop e ele procura pos pássaros. Na cena anterior, quando Melanie atravessa a rua, ela vê muitos pássaros voando, mas não dá muita bola. Os pássaros estão por tudo. São os pássaros que irão unir o casal protagonista, assim como são eles que quase os matarão. Outro ponto interessante é como o conflito é utilizado para “atenuar” de certa forma a tensão criada pelo ataque dos pássaros. A mãe de Mitch, Lydia (Jessica Tandy), parece ser uma mulher muito controladora em relação ao filho, segundo a conversa que Melanie tem com Annie Hayworth (Suzanne Pleshette), a ex de Mitch. No entanto, por trás disso esconde-se uma mulher triste e amargurada pela morte do marido. Isso nos é revelado durante uma conversa entre Lydia e Melanie. É através dela que conseguimos saber mais detalhes do passado das personagens. Por exemplo Melanie sente falta de ter uma mãe. Ela é muito mais que a socialite que entrou nua dentro do chafariz. Talvez seja um dos grandes trunfos do filme, nós conseguimos ver os personagens. Eles são como cebolas, têm muitas camadas. O ser-humano é assim.

A cena do charuto.

O elemento mórbido não poderia faltar, é claro. Hitchcock gostava muito de tomar elementos aparentemente inocentes e transformá-los em terror. Os pássaros são criaturas passivas, inofensivas. Creio que muito do interesse em fazer o filme baseado na história de Du Maurier veio dessa crença de que os pássaros são passivos. E se um dia eles quisessem se revoltar? E se fosse assim, do nada? Por isso, chega a ser engraçada a cena no restaurante, em que vários personagens discutem sobre os pássaros. Um dos personagens, uma senhora muito esperta e especialista neles, diz que seria impossível eles atacarem. Os pássaros de diferentes espécies nunca andam juntos. Depois, um homem aparece para tomar uma bebida e diz que os pássaros deveriam ser eliminados. A senhora intervém e diz que existem mais de 5000 espécies, logo seria impossível. Ou seja, se os pássaros continuassem atacando, não haveria o que fazer. Como lutar contra 5000 espécies? E aí vem aquela cena SENSACIONAL em que um pássaro ataca um frentista que cai e derrama gasolina pelo asfalto e começa o furdunço. A morbidez chega ao ápice quando um homem acende um charuto perto do asfalto cheio de gasolina, e os personagens começam a gritar do lado de dentro do restaurante para ele não fazer isso. É engraçado, pois eles gritam com o vidro fechado. Melanie abre o vidro, todos berram, o homem acende o charuto e vai pelos ares. Só um mestre como Hitchcock para nos fazer rir numa situação dessas.

Sobre os efeitos especiais, devemos muito a Ub Iwerks, animador dos estúdios Disney. Foi ele quem conseguiu misturar pássaros de verdade com pássaros de mentirinha e fazer todos parecerem a mesma coisa. E o que dizer da cena em que Melanie se dirige à casa de Mitch de barco e que o cenário atrás foi tomado de um QUADRO? UM QUADRO! Que genial! A cena em que as crianças estão correndo dos pássaros, depois de saírem da escola, também merece aplausos. As crianças gravaram em estúdio, correndo em uma esteira enquanto o chroma key rolava atrás.

O fundo (montanhas e as pequenas casinhas) foram retirados de um quadro.

E para terminar o post (não falando nem a metade do que eu realmente gostaria de dizer), os barracos não poderiam faltar. Hitch queria chamar Grace Kelly para o papel de Melanie Daniels, no entanto depois de casar ela não quis mais saber de Hollywood. Atrizes como Sandra Dee foram cogitadas para o papel, mas a sorte mudaria quando o diretor viu a até então desconhecida Tippi Hedren em um comercial. Ela foi submetida a um teste (disponível aqui), onde intepretava três mulheres diferentes, senão me engano de Rebecca, a mulher inesquecível, Interlúdio e Quando fala o coração. Ganhou o papel. O diretor transformou a imagem de Tippi, escolhia até o batom que ela usava. Logo começaria sua obsessão pela atriz. As filmagens foram turbulentas e a atriz ficava fatigada. Uma das últimas cenas do filme, em que Melanie é atacada pelos pássaros no sotão, foi filmada durante uma semana. Nela, pássaros treinados foram usados pela equipe por insistência de Hitch. Tippi Hedren foi arranhada no olho por um deles e caiu em lágrimas. Ela tinha um contrato de sete anos com o estúdio e fez outro filme ao seu lado, Marnie – confissões de uma ladra. Hedren conta que o estresse psicológico foi tamanho que ela desistiu do cinema por conta de Hitchcock. O diretor teria dito que arruinaria sua carreira. “E foi o que ele fez” – disse Tippi. Recentemente a polêmica sobre o relacionamento entre Tippi e Hitch foi reacendida com o lançamento do telefilme The girl pela HBO. Aliás, para os que gostam de um bom programa do Ratinho feelings esse é o filme ideal.

Verdade ou não, Os pássaros continua fascinando gerações. As polêmicas só aumentaram o interesse em relação ao filme. Verdade ou não, o filme continua sendo um clássico do cinema, com atuações grandiosas e um ótimo roteiro. Para ver e ser revisto.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

Comentários

Comentários

2 Comentários
  • Robert Moura disse:

    Enquanto lia o texto, pensei nos livros do Saramago (Intermitências da Morte, e os Ensaios Sobre a Cegueira e a Lucidez), acho que o filme Pássaros tem a mesma mensagem: eles nos mostram o quando a humanidade pode ser frágil. Quando o vi o filme à primeira vez ele me chocou em dois sentidos, um foi o fato de ser diferente de tudo que já havia visto do Hitchcock e outro por ficar em dúvida se havia gostado ou não. A comprovação de que havia gostado me veio na segunda vez que vi. A cena final é fabulosa, deixa um desespero no ar, uma dúvida na cabeça do espectador como acredito que poucas vezes tenha se repetido (se é que já foi filmado algo similar antes ou depois).

  • Eu amo a Tippi, mas imagino o que teria sido Os pássaros com a Grace Kelly. Hitch queria ela também pra fazer Intriga internacional. Ela até queria fazer os filmes, mas o Rainier a proibiu e, inclusive, impediu que os filmes com ela fossem exibidos em Mônaco. Grace até sentia saudade de Hollywood.

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