Chamas que não se apagam (1956)

Chamas que não se apagam (1956)

Olivia de Havilland e Errol Flynn. Ginger Rogers e Fred Astaire. Cary Grant e Kate Hepburn. Todo mundo (ou quase todo mundo) tem um casal preferido no cinema, o que carinhosamente chamamos de ship. Inclusive o fenômeno se alastrou tanto que até um verbo foi criado: shippar. Quando você shippa um casal (heterossexual ou não), tem que estar com o coração preparado para grandes emoções. Significa falar com a televisão enquanto vê os filmes, torcer pelo casal, surtar pelo casal, dormir e respirar aquele casal. Eu já disse que shippar desafia as leis da normalidade?

É claro que para essa festa eu cheguei mais do que atrasada. Fred MacMurray e Barbara Stanwyck foram chegando de mansinho em meu coração. Primeiro assisti Pacto de Sangue (já resenhei por aqui) e fiquei meses com o filme na cabeça. Depois reassisti, reassisti mais umas 9849 vezes antes de dormir e assim eles foram tomando o lugar vago de um ship de cinema clássico aqui neste coração de manteiga. Depois de quase enjoar de tanto ver Pacto, fui conhecer melhor a carreira de Stanwyck e qual não foi minha surpresa ao descobrir que:

a) existia um filme pré Pacto de Sangue estrelado pelos dois!

b) eles estrelaram no total quatro filmes juntos (Nossa Senhora do Ship, me dê a mão, cuida do meu coração)

c) os dois eram muito amigos, senão me engano ele fazia parte do grupo de amigos que escoltava Barbara nas festas depois de seu divórcio bafônico com Robert Taylor (que amigos, hein)

 

There’s always tomorrow, de 1956, é o último filme da dobradinha MacMurray-Stanwyck. É a maturidade da dobradinha, digamos assim. Aliás, correção: ultima dobradinha em um filme de Douglas Sirk. Sente só o que vem por aí.

Sempre tive um pé atrás com Sirk, na verdade relutei muito para gostar dele. O bom de ver filmes é que a gente sempre pode revê-los e mudar de ideia (o que aliás vocês percebem pelos meus posts como sou volúvel). Com Sirk foi exatamente assim. Chamas que não se apagam me conquistou não só porque tinha meu ship favorito como casal protagonista mas por ser um filme que, mesmo tendo sido feito em 1956, toca em um tema universal: as escolhas que fazemos na vida e suas consequências. Então, amigos, reservem as caixas de lenço, pois o filme promete rasgar seu coração.

Tudo começa com Clifford Groves (Fred MacMurray), um artesão de brinquedos, que tem uma vida aparentemente feliz. Tem uma casa bonita, mulher e filhos. Só que ele nunca consegue ter um minuto de paz. As primeiras cenas do filme resumem muito bem isso: o homem não consegue ficar sozinho com a esposa, pois os filhos estão sempre por perto deixando o casal louco. Nos sete primeiros minutos, vemos Cliff implorando para que sua esposa saia com ele, afinal era aniversário dela, ele tinha feito reservas em um restaurante e até tinha ingressos para o teatro! Ele é o marido perfeito e carinhoso. Fred MacMurray, para mim, é a personificação do tipo cara legal. Não conseguindo convencer a esposa, Cliff tenta convidar até a cozinheira da família para ir com ele ao teatro. No entanto, parece que todos tem algo para fazer naquele dia. A personagem acaba sozinha na cozinha comendo as sobras do jantar. Algo pelo qual todos nós já passamos algum dia. É aí que entra Norma Vale (Barbara Stanwyck), uma antiga amiga e affair da personagem, que acaba aparecendo para dar um “alô” depois de não sei quantos anos. Já pensou na sua reação ao abrir a porta e dar de cara com um antigo amor? Ou melhor: você abre a porta e dá de cara com Barbara Stanwyck? O fato é que Cliff fica eufórico ao ver Norma, e a gente também. Experimentamos a mesma euforia dele porque sabemos que às vezes estamos à espera apenas de um único acontecimento que mude todo o rumo de nossas vidas. E a chegada de Norma mudará muitas coisas.

Os dois acabam indo ao teatro, desistem no intervalo porque Norma quer ver a coleção de brinquedos de Cliff. Eles vão até seu escritório e lá as personagens ficam relembrando o passado, simbolizado por um carrinho que toca Blue Moon. Cliff, você se deu tão bem. Você parece tão bem e feliz. Você é feliz, não é? – pergunta Norma. No fundo, o espectador sabe que Cliff não está feliz e também sabe que ele tampouco dirá que está infeliz. A regra da vida é esta: pareça feliz. Por isso, ele responde que é feliz, com aqueles olhos de cachorro pidão que a gente já conhece bem desde Pacto de Sangue.

Cliff não desiste e continua insistindo para ter um momentinho a sós com Marion (Joan Bennett) e nada. Ele planejou um final de semana sozinho em um hotel com a esposa, mas ela declina de novo, pois Frankie, filha do casal, torceu o tornozelo. Como uma boa esposa, Marion o manda ir para o tal do hotel e não perder o encontro de negócios. E quem está hospedada no mesmo hotel que Cliff? Sim, Norma!

Norma e Cliff passam o tempo inteiro juntos e você torce com todas as forças para que algo aconteça. A grande amizade de Barbara e Fred na vida real, na minha opinião, ajuda a dar esse toque verdadeiro às cenas das personagens. Eles nadam, dançam juntos e quando o cara dos negócios não aparece, Cliff pede que Norma fique mais um dia. E ela aceita. Você pensa: vai rolar um adultério, é agora! Só que não rola, eles ficam naquela amizade-do-algo-mais, trocam olhares doces, caminham juntos, fazem tudo juntos e não trocam um beijo sequer. Só que estamos falando de um drama de Douglas Sirk, então a gente sabe que em algum momento a coisa vai degringolar. Um dos filhos de Cliff, Vinnie (William Reynolds) acaba indo para o hotel e ouve as duas personagens dentro do quarto de Norma rindo. Pronto, o moço já acha que o pai está dando umas escapadelas e se une a sua irmã, Ellen (Gigi Perreau) para tirar essa mulher do caminho de seu pai.

O clima de tensão no filme a partir daí vai aumentando e chega ao ápice na cena em que Norma vai jantar na casa de Cliff junto com a família dele. Os filhos a olham com desprezo e reprovam tudo o que ela diz, Vinnie sai da mesa, Marion parece ter pena de Norma. Aliás, a personagem de Joan Bennett é uma das coisas mais interessantes do filme! Ela simboliza o comodismo e o tédio. É difícil não ficar com raiva dela, mas lembre-se que estamos em 1956 e o pensamento de Marion representava muito do que a mulher americana pensava, ou seja, o bom é ter um lar, filhos para cuidar, casinha feliz, etc e tal. Depois do jantar, Marion confessa sentir pena de Norma, pois esta última nunca se casou nem teve filhos. Aqui também podemos ver claramente algo que já comentei no meu texto sobre Confidências à meia noite: uma mulher pode ter uma carreira, mas sempre será infeliz porque não tem o amor de um homem e um lar. A fama de Norma como estilista, suas lojas, nada disso importa porque ela não conseguiu preencher o requisito casamento e filhos. Há uma cena em que Marion vai até a loja de Norma comprar roupas. Ela experimenta e diz que não gosta, que aquilo ali não serve para a idade dela. Para mim é o supra sumo do comodismo, mas muito mais do que isso, é o supra sumo de tudo que a sociedade indiretamente nos ensina. Mulheres mais velhas não podem sair se mostrando por aí. Mulheres assim pagam um preço. E Norma paga seu preço: é claro que não pode ter um final feliz ao lado de Cliff.

E como nos acontece muitas vezes na vida, Cliff se dá conta que está jogando sua vida fora, que não é feliz ali, que quer ter uma vida só dele. Mas infelizmente, às vezes, nossas escolhas na vida estão atreladas a outras coisas maiores e é difícil criar coragem para fazermos aquilo que realmente queremos. A personagem se compara a um de seus brinquedos, um robô, pois durante toda sua vida, ela fizera só o que os outros queriam e esperavam dela. Quando tenta sair disso, a sociedade o barra. Ser um homem de família é mais importante. A lição de moral vem de Norma. É ela quem tem uma conversa com os filhos dele, dizendo que o pai estava procurando fora de casa aquilo que lhe faltava: amor e atenção. É claro que neste momento eu já estava aos berros com a televisão. Não aceitei o final do filme, porém estávamos em 1956 e eles não dariam o gostinho de um homem largar tudo para viver com uma mulher divorciada. Hollywood moralista, a gente vê por aqui.

A direção cuidadosa de Douglas Sirk consegue dar o toque acertado à química existente entre Barbara e Fred desde o primeiro filme deles juntos, Lembra-se daquela noite?, de 1940. Os dois não trocam um beijo sequer, mas você consegue sentir o fogo e música que emana dessa parceria. Eles são carismáticos, é impossível não torcer para que não fiquem juntos no final. Também é interessante ver como eles são ótimos atores, pois os quatro filmes que fizeram juntos são de gêneros bem diferentes: uma comédia, um noir, um western e um drama água com açúcar. Eles  fazem bem essa transição (que grande novidade) e conseguem sustentar a química. Minha interjeição para esses dois é: uau!

Para finalizar o post aqui vai um vídeo colorido desses lindos nos bastidores de There’s always tomorrow:

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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