A Última Noite de Boris Grushenko (1975)

A Última Noite de Boris Grushenko (1975)

Amar é sofrer. Para evitar o sofrimento, um não deve amar. Mas então, um sofre por não amar. Portanto, amar é sofrer; não, amar não é sofrer, sofrer é sofrer. Ser feliz é amar. Ser feliz então é sofrer, mas sofrer te faz infeliz. Portanto, para ser infeliz, um deve amar, ou amar o sofrimento, ou sofrer de demasiada felicidade.

Uma mistura de Tolstói e Dostoiévsk (sobretudo de referências à Guerra e Paz e Os irmãos Karamazov, de onde Woody tirou  o nome do protagonista), questões existenciais, referências ao cinema de Ingmar Bergman e o humor físico de Buster Keaton, A Última Noite de Boris Grushenko (no original, Love and Death) é uma das grandes obras de Woody Allen, e o melhor da sua fase-pastelão dos anos 70. Além do mais, é a primeira fase da parceria frutífera com Diane Keaton, que comentei mais a fundo no post sobre Annie Hall. Aqui, Woody debocha da vida num geral, e faz rir com piadas e gags que surgem no ritmo de uma metralhadora.

Se Deus existe, espero que ele tenha uma boa desculpa.

Boris (Allen), um covarde nato, que vive na Rússia imperial do início do século XIX, é obrigado pela família a se alistar no exército, e lá acontecem as mais loucas coisas com o protagonista. É sobretudo nessa parte que Woody abusa da comédia pastelão, debochando da guerra, que em muitos momentos é mostrada como um campo de futebol,  como se fosse uma disputa esportiva mesmo. Assim, ele mostra a irracionalidade e o absurdo das batalhas, enquanto chega mesmo a debochar da morte. O atrapalhado Boris acaba como um herói inesperado da guerra.

Logo no começo do filme, já sabemos pela narração em off, que Boris foi condenado, e está esperando sua sentença de morte por um crime que não cometeu. Ele nos apresenta sua família, e dentre eles sua prima Sonja (Diane Keaton), por quem é apaixonado, desde sempre, mas que não dá a mínima para ele. Já na infância, o estranho Boris conhece a morte, e faz um monte de perguntas a ela. A Morte, um personagem que vai cruzar o caminho do protagonista muitas vezes, promete reencontrá-lo. E isso dá início as questões existenciais que perseguem Boris, que, já adulto, encontra em Sonja uma companheira para suas divagações.

O filme é repleto de ótimos diálogos e divagações, e qualquer descrição feita não fará jus ao seu brilhantismo. A jornada de Boris até a condenação, bem como suas maluquices acompanhados de Sonja, merecem ser vistos com o sabor da novidade. Todo o resquício de comediante de stand-up de Woody aparece aqui, somado às suas neuroses  eternas de judeu nova-iorquino, e, por fim, à sua paixão pela literatura russa, bem como pelo cinema. Nunca Woody Allen foi tão Bergman. Nunca Woody Allen fez rir tanto.

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Escrito por Camila

Formada em Letras e na Academia Douglas Sirk de sofrência e pregadora na Igreja Universal do Reino de Woody Allen. Uma professora de inglês apaixonada por musicais. Faz parte da Comissão de Avaliação, Seleção e Fiscalização, na área de Cinema e Vídeo, do Financiarte de Caxias do Sul.

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