Aconteceu em Havana (1941)

Aconteceu em Havana (1941)

Ela está no nosso imaginário, na construção de nossa subjetividade como brasileiros e pessoas. Carmen Miranda, assim como o futebol, é uma parte de nós, daquilo que é ser brasileiro. Mas se a influência do futebol é visível, a de Carmen não parece muito clara para nós. É até mesmo controversa. Para alguns, ela traiu o movimento ao se mudar para Hollywood, outros permanecem orgulhosos com o fato dessa atriz de origem portuguesa e nascida no Brasil representar um pedacinho do Brasil na era de ouro do cinema em Hollywood.

Não há ninguém que não a reconheça com seu turbante de frutas, fazendo uma dança pra lá de sensual numa época em que requebrar os quadris como a Shakira era um crime contra a decência. Alguns se lembrarão dela ao lado de sua irmã, Aurora, ao lado de Zé Carioca e Pato Donald cantando Aquarela do Brasil. Partidários ou não de Carmen, temos de admitir que ela exerceu uma grande influência em Hollywood. Mais emblemático do que Lucille Ball imitando Carmen Miranda em seu seriado para mim não há.

Falar sobre os filmes de Carmen Miranda é tão essencial quanto levantar e escovar os dentes para não ter cáries. Isso porque eles estão esquecidos, e não se pode esquecer uma parte tão importante do cinema e muito menos alguém tão importante quanto ela. Talvez este texto, que se propõe a falar singelamente sobre um de seus filmes, fale mais dela do que de qualquer outra coisa. Fazer o quê, se Carmen Miranda aparecia e roubava a cena? É o que acontece em todos os 11 filmes que ela fez.

Aconteceu em Havana (Weekend in Havana) é terceiro filme de Carmen Miranda desde que chegara a Hollywood. Quando essa simpática pequena de um metro e meio chegou nas bandas da Califórnia, a política da boa vizinhança estava a todo vapor. Essa não tão simpática política, implementada por Roosevelt, tinha como objetivo estimular as boas relações entre latino-americanos e os norte-americanos. Em outras palavras: morrendo de medo de que os países latino-americanos apoiassem os governos fascistas de Hitler e Mussolini, o governo americano investia nesses países em troca de apoio. No caso do cinema, a medida era retratar os latinos-americanos da melhor forma possível, tanto é que os bandidos mexicanos foram excluídos do filme. O personagem da Disney, Zé Carioca, é um grande representante desse esforço de aproximação entre norte-americanos e latinos. Porém, por alguma razão desconhecida, não era isso que acontecia. Digamos que você queira fazer um bolo e, por mais que se esforce, continua errando o ponto. Ao invés de perguntar para sua avó experiente, continua fazendo bolos, errando o ponto e piorando cada vez mais. Bem, assim era a política da boa vizinhança no cinema. Porque, embora os americanos se esforçassem para fazerem filmes ambientados em países latinos como Argentina ou Cuba, sempre dava errado. Eles erraram o ponto muitas vezes e continuaram errando. Foi assim com quase todos os filmes de Carmen Miranda. Serenata Tropical (Down Argentine Way) colocou rumbas nos números musicais ao invés de tangos. Aconteceu no Rio (That Night in Rio) tinha tudo para dar certo, mas como acreditar num filme que se passava em um Rio de Janeiro onde havia BARÕES. BARÕES NA DÉCADA DE 40. Parece que os produtores não estudaram direito.

Da esq. para dir: John Payne, Alice Faye, Carmen Miranda e César Romero.

Será que com Serenata Tropical aconteceria o mesmo, uma reação de ódio por parte dos espectadores cubanos? Sim. Mas isso não tira o valor do filme. Apesar de todos os erros por parte da Fox, o filme ainda se salva pelas boas atuações, pelo technicolor e pelas canções.

O filme conta a história de Nan (Alice Faye), passageira de um navio rumo a Havana que acaba tendo de ser evacuado por conta de problemas. Todos os passageiros assinam um termo que exime a companhia de Walter McCracken (George Barbier) de culpa, menos Nan. Ela só assina se a empresa lhe garantir férias com todas as despesas pagas. Por isso, o futuro genro de McCracken, Jay Williams (John Payne) acaba sendo mandado para convencê-la a assinar.

Logo nas primeiras tomadas “ao ar livre” percebemos que o filme não mostra a Havana dos anos 40. Abaixo reproduzo uma citação da biografia de Carmen Miranda, escrita por Ruy Castro em que ele comenta essa Havana de mentirinha retratada pelo filme:

Em 1941, a verdadeira Havana era bem diferente. Sua vida noturna era uma festa de cassinos, cabarés e teatros, sustentados pela máfia de Miami (com seu menu de jogo, prostituição e drogas) e por turistas como a personagem de Alice Faye: americanas sonhadoras que levavam anos economizando para passar duas semanas ali, namorando e dançando – e que não se arrependiam.

O problema da Havana de mentirinha do filme é que a cidade faz parte do título do filme e quase não aparece. Só temos essa tomada do início do filme, depois são os cenários fechados dos cassinos, quartos, aquela coisa bem colorida e esteriotipada. Voltando ao filme, Nan não quer apenas que a empresa lhe pague suas férias. Ela também quer um amor. Enquanto ela não encontrar um amor (um latin lover? YES!), não irá sossegar. Assim, Jay acaba pagando Monte Blanca (César Romero) para providenciar um romance bem açucarado que a faça assinar.

Monte é o namorado de Rosita Rivas (Carmen Miranda), uma dançarina-cantora do cassino pra lá de ciumenta, que dá todo seu dinheiro ao namorado-empresário. Infelizmente ele o gasta todo com jogo. Como a maioria das comédias dessa época, a trama funciona com situações de “disse não me disse” e confusões. Monte precisa esconder de Rosita que está saindo com Nan, Jay esconde da noiva que está em Havana engatando um romance com Nan e assim vai.

Talvez o maior barato desse filme seja os babados que estão por trás dele. Carmen Miranda e John Payne iniciaram um tórrido relacionamento nas gravações de Aconteceu em Havana. Na época, Payne era casado (Carmen tinha um fraco por homens casados, vide Dana Andrews) com Anne Shirley, antiga atriz infantil do cinema infantil mudo.Talvez você lembre dela como a filha de Barbara Stanwyck no lendário filme Stella Dallas. A atriz passava por um momento de crise, pois, apesar de ter sido indicada ao Oscar por Stella Dallas, sua carreira não avançara enquanto John mal chegara em Hollywood e já tinha estrelado filmes com Alice Faye e Betty Grable. Isso contribuiu para a crise entre eles. Segundo Ruy Castro, o romance entre eles foi uma forma de esquecer os problemas, uma vez que Carmen tinha realizado um aborto e na vida amorosa encontrava-se descontente. O filho era de Aloysio de Azevedo, um dos integrantes do Bando da Lua, grupo que aparecia tocando nos números musicais de Carmen. (incrível como esse post virou um Programa do Ratinho ambulante).

César Romero, o vigarista sedutor do filme, também tem lá seus babados. Ele aparecia escoltando lindas estrelas como Joan Crawford, pois seu estilo “latin lover de Manhattan” (palavras de Ruy Castro) acabava atraindo as mulheres. Ele fora a grande aposta do cinema quando fora descoberto, exatamente por fazer esse tipo sensual até o colocarem para trabalhar com Marlene Dietrich. Não deu certo. Parece que essa lenha não chegou a incendiar a fogueira. Mas toda essa pinta de manhattan latin lover das mulheres era fachada porque Romero era homossexual e manteve um romance duradouro com outro astro do cinema, Tyrone Power.

Sobre os números musicais de Carmen, o que poderíamos dizer? São ótimos, muito bem executados. O tecnicolor a favorece muito. Reza a lenda que os americanos acharam engraçadíssimo o número Rebola, bola, onde há um trecho em que ela fala tão rápido que nem os próprios brasileiros entendiam. Na verdade, eles achavam tudo que fosse falado muito rápido, basta nos lembrarmos de His girl friday de Howard Hawks. Os personagem falavam na velocidade cinco do créu o tempo inteiro!

No quesito atores, temos o repeteco das figurinhas carimbadas em filmes da Carmen como Alice Faye. Aliás, eu particularmente a adoro e acho seu tino para comédia ótimo. Há sempre essa “loira gelada” para contrastar com o “fogo e música” das personagens interpretadas por Miranda. Os atores secundários como o camareiro interpretado por Leonid Kinskey (que fizera o amigo friendzonado de Alice Faye em Uma noite no Rio) também merece destaque, embora apareça como um aproveitador também. Aliás, todos os personagens cubanos aparecem assim no filme, o que explica o ódio das plateias cubanas.

A pergunta que não quer calar: por que assistir Aconteceu em Havana? Se todos os babados que aconteceram durante a produção não o convenceram, sugiro que o assista por Carmen Miranda. É difícil explicar o poder que ela exerce quando entra em cena. É impossível ficar indiferente a esse carisma e simpatia. Infelizmente foi impedida de crescer como atriz, pois a Fox continuava insistindo para que ela falasse um inglês macarrônico quando já  dominava essa língua muito bem. Mas não importa. O que ficou foi o sorriso de orelha a orelha e uma capacidade nata de fazer humor só com a expressão facial. Dá orgulho em saber que Carmen era brasileira e esse filme é um pedacinho do Brasil em Hollywood.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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