Quando o coração floresce (1955)

Quando o coração floresce (1955)

“All my life I stayed at parties too long because I didn’t know when to go.”

Ser solteira é quase… uma profissão, digamos assim. Não uma profissão fácil, nem sempre feliz. Você pode ir em qualquer festa e existe aquele clima aparentemente forçado de “somos todos muito felizes, que ótimo, que barato”, etc, etc. E no fundo, todo mundo espera alguma coisa acontecer, a qualquer hora, como se nossa vida fosse um filme, e o ponto alto, ou mesmo o plot twist ainda não tivesse chegado. No fim das contas, a maioria das pessoas – ou as pessoas muito viciadas em cinema, como essa que vos fala – espera esse tal de milagre, que muda tudo, e aí toca Ain’t no Mountain High Enough quando você anda na rua, e fica tudo ótimo. Bem, muitas vezes esse plot twist demora, e talvez não venha nunca. Na verdade, isso parece coisa de gente que vive no mundo da lua. Mas bem lá no fundo, todo mundo espera o mesmo.

Essa busca por algo que é difícil de ser nomeado, é um dos motivos que levam Jane Hudson (Katharine Hepburn), uma secretária de Ohio, até Veneza. Na história de Quando o coração floresce (Summertime), ela embarca em uma jornada de autodescoberta e de aventura, e descobre que o tal do milagre não é tãããão impossível assim de acontecer.

Jane chega à cidade de Veneza repleta de sentimentos dúbios. Apesar de sentir uma alegria, mesmo que contida, ela tem dentro de si uma melancolia arraigada, e isso se percebe em seu olhar. E de repente, nos damos conta do que Jane quer. É óbvio que ela não admite isso facilmente; Miss Hudson se orgulha de ser uma americana independente, autossuficiente e de ser uma mulher realizando seu sonho de viajar para fora de seu país, finalmente. E no entanto, ao pisar em Veneza, parece que em todo lugar em que olha, Jane só vê casais felizes, enquanto ela admira a bela paisagem a sua volta fascinada, feliz… mas sentindo falta de algo.

Sabe aquela sensação de sobrar em algum lugar? Quando você percebe que todos estão envolvidos em algo, mas você está deslocado? Essa é a sensação que Jane me passa durante o filme. Pelo que pude entender – e posso estar errada – ela já se sentia fora de contexto em sua cidade natal, e foi viajar buscando sentir algo a mais, ou mesmo procurando fazer parte de algum lugar, de algo ou de alguém. Algo mais – afinal, não é isso o que todos nós queremos?

Jane, apesar dessa melancolia constante e de sentir um peixe fora d’água na maior parte do tempo, acaba encontrando um inesperado amigo no garotinho Mauro (Gaetano Autiero, adorável) que adora acompanhá-la em seus passeios pela cidade – e também conseguir alguns trocos. É na companhia dele que Jane consegue se soltar mais e aproveitar Veneza. Consequentemente, ela fica mais aberta ao que acontece ao seu redor, e conhece o charmoso Renato (italiano charmoso nessa época do cinema? Só podemos estar falando do Rossano Brazzi, meeesmo). De início Jane resiste; ela simplesmente não pode acreditar que um homem tão lindo e galante possa se interessar por ela, uma simplória solteirona de Ohio. Com o tempo ela acaba cedendo, e aí a história entra nos percalços típicos do gênero. E no entanto,  Summertime não cai no clichêzão que permeia os filmes ~~românticos~~. Por incrível que pareça, a história e o desfecho condizem com a realidade. No fim das contas, seja como for, Jane Hudson conseguiu o que queria em Veneza. Aquela coisinha que todo mundo busca. O tal do… milagre. No fundo, no fundo, somos todos um pouco Jane Hudson.

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Curiosidade: Por causa da cena em que Jane cai no canal em Veneza, Katharine Hepburn adquiriu uma infecção nos olhos que prosseguiu até o fim de sua vida. David Lean, o diretor, apesar dos protestos da atriz, exigiu que ela caísse nas águas poluídas e fétidas do canal repetidas vezes, para que a cena ficasse boa. Dias depois, Hepburn teve uma conjuntivite da qual nunca se recuperou, e motivo pelo qual seus olhos sempre apareceriam lacrimejantes nas telas nos anos que seguiram.

Escrito por Camila

Formada em Letras e na Academia Douglas Sirk de sofrência e pregadora na Igreja Universal do Reino de Woody Allen. Uma professora de inglês apaixonada por musicais. Faz parte da Comissão de Avaliação, Seleção e Fiscalização, na área de Cinema e Vídeo, do Financiarte de Caxias do Sul.

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