Noivo neurótico, noiva nervosa (1977)

Noivo neurótico, noiva nervosa (1977)
 
Me lembrei de uma velha piada. O cara vai ao psiquiatra e diz: ‘Doutor, meu irmão é louco. Ele acha que é uma galinha’. E o doutor diz: ‘Por que você não o interna?’. E o cara responde: ‘Eu até internaria, mas preciso dos ovos’. É mais ou menos o que sinto sobre relacionamentos. São totalmente irracionais, loucos e absurdos. Mas nós vamos aguentando porque precisamos dos ovos.
 

Diane Keaton e Woody Allen. The perfect match. Em minha opinião, é impossível falar sobre Annie Hall (me recuso a repetir o infame título brasileiro aqui), de 1977, sem falar na relação dos dois. Tudo que eles foram juntos está nesse filme.A comédia romântica moderna atingiu seu ápice aqui, em uma época muito apropriada, considerando a revolução que aconteceu no cinema americano nos anos 70. Chega dos romances protagonizados por pessoas perfeitinhas e com aquela divisão clara: amor à primeira vista, depois o casal se odeia, alguma coisa acontece, tudo se resolve e final feliz – pelo menos não mais por enquanto. Não na década revolucionária do cinema. Não se você quer ser cool. E Annie Hall é exatamente sobre isso; é o romance moderno. E pop.

Começou como uma versão atualizada das comédias sofisticadas dos anos 30 protagonizadas por Spencer Tracy e Katharine Hepburn; acabou sendo um dos maiores clássicos do gênero e um marco na carreira de Woody Allen.

A primeira coisa a ser dita de Annie Hall é que não é um filme comum. É uma comédia romântica, de roteiro afiado, com diálogos que só poderia mesmo ter saído da mente fértil de Woody Allen. Não é à toa que o filme teve cinco indicações ao Oscar e levou quatro; Diane Keaton foi premiada como melhor atriz, Woody como melhor diretor (foi indicado também como ator; mas todos sabemos que Woody praticamente interpreta a si mesmo em seus filmes, então não vale, não levou). Annie Hall levou pra casa ainda os prêmios de melhor filme e melhor roteiro original. E todos os Oscars foram absolutamente merecidos. Explico.

 

O filme é uma comédia sofisticada e traz uma narrativa interessante e, além disso, de pouca linearidade – a história vai e volta no tempo conforme algo é referenciado ou lembrado por um dos personagens. Na história, Alvy Singer (Woody) é um humorista judeu e divorciado, que inicia o filme com um monólogo. Nele, ele divaga sobre os relacionamentos e chega por fim a sua própria história com Annie Hall (Keaton), uma aspirante à cantora totalmente insegura e neurótica – não muito diferente do próprio Alvy. Quando o filme começa, o relacionamento do casal aparece já desgastado. Desde o início sabemos que a história deles está fadada ao fracasso. Mas para entender como Alvy e Annie chegaram até esse estágio, precisamos voltar ao passado e compreender como isso aconteceu. Basicamente, é isso. Mas, na verdade, é muito, muito mais.

Alvy é um cara completamente pessimista e obcecado por questões existenciais. Quando conhece Annie, havia se divorciado duas vezes – desses dois casamentos teremos apenas um vislumbre por meio de um flashback, que vem à tona durante conversas de Alvy com Annie. O primeiro encontro dos dois, que se conhecem em um clube após uma partida de tênis com amigos em comum, é marcante e mostra bem a personalidade dos dois; Annie é bastante insegura; tudo o que ela fala não sai com muita segurança e, na maioria das vezes, se arrepende do que acabou de dizer (alguém mais se identificou com esse perfil?). Alvy, no entanto, percebe, apesar de todo o nervosismo de Annie que ela é muito interessante; mais do que isso, ela é seu tipo! Na saída do clube, ela dá carona para Alvy, e tem início uma série de cenas e diálogos memoráveis, um atrás do outro. Nesse primeiro encontro, o que fica é a primeira tentativa do casal de travar uma conversa amena. Nessa cena, enquanto eles conversam, as legendas nos mostram o que eles pensam na verdade.

Enquanto conversam sobre a decoração da casa de Annie, eis o que se passa na mente dos dois.

Desde o início essa é a característica principal do casal Alvy e Annie – ela quase sempre insegura, ele sempre insistindo nas questões existenciais. Apesar disso, eles conseguem levar adiante o relacionamento. Alvy apoia Annie em sua tímida tentativa de iniciar uma carreira como cantora, e a influencia a estudar, a ler, em resumo, a ser como ele. Os dois passam juntos momentos encantadores, e suas conversas são as melhores coisas do filme, me arrisco a dizer. Alvy dá, com o perdão da metáfora batida, asas para Annie e ela pega e… acaba voando para longe dele. Mesmo assim, eles são tão ligados, se querem tão bem, que, mesmo terminando e brigando, eles não deixam de sentir saudades e ter um profundo afeto um pelo outro. É prazeroso assistir o desenvolvimento desse relacionamento, e, por fim, melancólico. É uma história real, talvez não comum, mas o sentimento é o mesmo. Os relacionamentos são como tubarões, diz Alvy, e precisamos seguir em frente e alimentar o tal tubarão. Os relacionamentos são como ovos, como diz a citação inicial desse texto, que é a base do filme. É, como o próprio Alvy diz, precisamos dos ovos. Um mal necessário.

Enfim, tendo a história e o roteiro brilhantes tomando tanto tempo desse post (e não quero dar maiores spoilers, porque ele merece ser visto com esse gosto de novidade), preciso comentar dois pontos muitos importantes do filme: em primeiro lugar, as técnicas utilizadas por Woody. O filme derruba todas as barreiras entre o espectador e personagem já no início, quando Alvy se dirige diretamente a quem assiste – e esse monólogo direto dá o tom do filme. Em certas cenas, Alvy visita e observa cenas do seu passado, sozinho ou com seus amigos, conforme uma dessas lembranças tem referência com algum acontecimento presente. É como se Alvy convidasse o espectador a analisar essas cenas; ele assiste junto, do lado de fora, passagens da própria infância. Em outros momentos, Alvy se dirige diretamente ao espectador: quando se irrita na fila do cinema, por exemplo, com um cara pedante atrás de si, um tipo pseudo-intelectual, que fala de coisas sobre as quais não tem domínio algum, só achismo, o autor de quem o chato fala, aparece, invocado por Alvy, e discute com o filósofo de fila de cinema. “Não seria ótimo se isso acontecesse mesmo?”, Alvy questiona ao espectador. Há ainda, a cena em que Annie e Alvy estão em seus respectivos psicanalistas ao mesmo tempo. Ao invés de gravar duas cenas diferentes e depois juntá-las, Allen escolheu gravá-las no mesmo cenário, com apenas uma divisão dos dois ambientes. E fica ainda mais claro as diferenças entre homens e mulheres, e, principalmente, a forma como os relacionamentos são encarados por ambos. Por fim, a fotografia de Annie Hall é belíssima e merece ser apreciada.

Segundo lugar e essencial: o relacionamento real entre Woody e Diane, que tornou possível que o filme saísse do papel. Annie é, de muitas formas, a própria Diane; Hall é seu sobrenome verdadeiro. A família de Annie no filme é exatamente como a de Diane: a própria vovó Hall era da maneira vista, e não duvido muito que a tal cena do jantar em família com Alvy tenha acontecido de verdade com Woody. Diane foi (e acredito que ainda é, em menor medida) uma pessoa muito insegura, e muitos aspectos da personagens foram livremente baseados nela.

Woody e Diane conheceram-se durante as audições para a peça Play it again, Sam, escrita e estrelada por Allen. Keaton foi escolhida devido a diferença de altura com o baixinho Allen, e dois dizem que a atração e o entrosamento foram imediatas. Logo, os dois estavam morando juntos, e, segundo eles contam, não foi muito diferente do casal do filme. Uma cena, em que Alvy e Annie observam as pessoas que passam pelo Central Park e inventam histórias para cada uma delas, saiu do cotidiano desse casal, que na época de Annie Hall já estava separado há algum tempo. O relacionamento amoroso durou cinco anos; a amizade, a vida inteira. Diane, segundo o próprio Woody, foi a pessoa que o inspirou na criação dos personagens femininos, hoje um traço forte de sua filmografia. Antes de Diane, ele só sabia criar mulheres insignificantes.

I could never write female characters when I started out. And when I met Diane Keaton, and got friendly with her, and lived with her for a few years, I became so enamoured of her, I just fell in love with her. I became so enamoured of her as a human being, so in awe of her, that I started to write for her. I wrote Annie Hall for her, and then after that I could almost only write for women characters. They were cardboard figures before her, and I made no effort to change it, but after I met Keaton I could write women, and only write women, that was all that interested me.


Segundo Keaton, que recentemente recebeu um prêmio especial em nome de Woody no Globo de Ouro, os dois permanecem grandes amigos e mantém contato constante. Eles fizeram uma série de filmes juntos, o último sendo Assassinato misterioso em Manhattan, de 1993. Além de Annie Hall, Diane participou ainda de outra grande obra de Allen: Manhattan, de 1979. Apesar de não ser a atriz que mais trabalhou com o diretor, Diane é considerada a sua grande musa. A química é inexplicável.


Esse relacionamento, toda essa história, além de tudo que citei, é o que torna Annie Hall tão especial para mim. Desde que decidi escrever sobre ele aqui, o revi duas vezes, pois é o tipo de filme que é um prazer ver e rever; sempre parece que você o está assistindo pela primeira vez. É um daqueles filmes essenciais. É o filme, ouso dizer, definitivo sobre todos os aspectos de um relacionamento. Ah, esses ovos que complicam tanto as nossas vidas, mas sem os quais não vivemos…

Escrito por Camila

Formada em Letras e na Academia Douglas Sirk de sofrência e pregadora na Igreja Universal do Reino de Woody Allen. Uma professora de inglês apaixonada por musicais. Faz parte da Comissão de Avaliação, Seleção e Fiscalização, na área de Cinema e Vídeo, do Financiarte de Caxias do Sul.

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