Frank & Ava: belos, famosos e auto-destrutivos

Frank & Ava: belos, famosos e auto-destrutivos

Em 1955, Frank Sinatra cantava, em um dos discos mais tristes e depressivos da história, os seguintes versos:

In the wee small hours of the morning
That’s the time you miss her most of all

 

O álbum, que levou o nome da canção acima (In the wee small hours), foi um dos primeiros álbuns conceituais da história, pois todas as músicas giravam em torno do tema de um cara que perdeu sua garota, e agora ele não faz nada além de choramingar pelos cantos. Na verdade, na época, esse era o clima que dominava a mente de Sinatra, já que ele mesmo tinha vivenciado essa situação recentemente. E não foi nada fácil, já que a senhora em questão era, nada mais, nada menos do que Ava Gardner, a sedutora e destruidora de lares corações Ava, o grande amor da vida dele.

Mas, se ela foi ~a alma gêmea~ de Ol’ Blue Eyes (e ele, a dela), por que os dois não ficaram juntos?

Amores duradouros são difíceis em Hollywood. Ainda mais para quem sofre da síndrome de Burton and Taylor: quando se ama tanto, mas tanto, que se acaba odiando o outro. Foi o caso de Frank e Ava, a história de amor, ódio, música, filmes, toureiros e traição que quase levou a carreira de Sinatra para o brejo – e Ava para o topo.

 

Ava, na época do primeiro encontro com Sinatra – início da década de 1940.

 

Frank e Ava se conheceram de maneira superficial em 1940: ele estava no estúdio da MGM, como sempre sendo Frank, isto é, caçando, quando Ava apareceu acompanhada por um amigo em comum dos dois; naquele dia, Sinatra ficou impressionado, e jurou que casaria com ela algum dia. Frank só esqueceu de um pequeno detalhe: ele já era casado. A atração mútua não foi suficiente, pelo menos não naquele momento. Ava, que mais tarde foi uma das maiores periguetes de Hollywood, naquele momento era – ou se fazia de – garota recatada, em vias de casar com  o whatever  Mickey Rooney.

Enquanto isso, Sinatra estava casado com Nancy, mãe de seus três filhos (não contei o Ronan Farrow ALOK gluglu iéié). Obviamente, como praticamente todo macho-alfa de Hollywood na época, ele pegava todas. TODAS mesmo. É difícil achar quem não tenha passado pelas mãos de Blue Eyes em seus áureos tempos. Mas Nancy, a esposa, não se preocupava; aceitava resignada. Ela sabia que, mesmo que Frankie passasse os fins de semana com Lana Turner, por exemplo, os dias úteis eram dela. Ele sempre voltaria para casa. Pobre Nancy. Ela ainda não conhecia Ava Furacão.

Demorou quase uma década para que eles passassem do flerte às vias de fato. Nesse tempo de enrolação, houve uma noite em que Sinatra, que estava sempre pegando Lana Turner vez ou outra, estava com ela em uma boate da moda, e o casal topou com Ava e Howard Hughes (companhia constante da atriz na época). Ava sugeriu trocarem os pares e passou a noite dançando com Frank, enquanto Lana, com Hughes, ficou fazendo bico o tempo todo. Depois de dois anos, por uma brinks do destino (ou malandragem da Ava mesmo) ela comprou um apartamento perto do local em que Frankie mantinha uma espécie de QG da pegação clandestina. Logo, uma coisa levou a outra… e quando aconteceu, foi fulminante. E eles foram perdendo o rumo aos poucos.

Sinatra, que antes tinha a decência de manter os casos secretos e de maneira discreta, agora não se importava em carregar Ava para todo o lado. Hedda  Hopper enlouqueceu de felicidade pela fofoca quente.

Mas antes de contar sobre as mazelas dessa história, um pouco de contexto: Ava chegou à Hollywood no início da década de 1940, diz ela, inocente. Uma vez lá, acabou casando com Mickey Rooney só pela fama mesmo, já que ele a ajudou a subir na carreira. Depois do casamento, que durou, se muito, dois meses, Gardner passou a sair com tudo e todos e virou parceira de ousadia e alegria de Lana Turner (diz-se que as duas costumavam sair à caça durante muitas noites e pegavam qualquer um que estivesse bem disposto). Elas viraram BFFs e tinham como passatempo predileto pegar os mesmos caras e comentar o desempenho dos mesmos. Deu tempo ainda de casar com Artie Shaw (que também foi casado com Lana antes – imagina quanto assunto essas duas não tinham!). Quando começou a se relacionar com Sinatra, Ava foi advertida por Lana (talvez enciumada) de que ele não valia muita coisa não, e que se livraria dela depois de algum tempo – mesmo se dissesse que a amava. Segundo Lana, Ava não deveria se iludir muito. Na época, Ava estava no auge de sua carreira, saindo de papéis insignificantes para coisas bem maiores como Mogambo e A condessa descalça, com Bogart.

Frank, por sua vez, estava em uma fase ruim: seus discos não vendiam mais tanto, estava de saco cheio de fazer filmes de marinheiro com Gene Kelly, sua voz estava enfraquecendo e seguidamente ele cancelava shows em cima da hora e enchia a cara. Obviamente um affair público e um divórcio não ajudaria muito. Acontece que a paixão obsessiva por Ava foi a gota d’água na carreira de Sinatra. A imprensa não dava folga, Nancy dava declarações chorosas à Hedda Hopper, o público condenava o casal. A única que apoiava – e torcia! – por Ava e Frank era a mãe do cantor, Dolly Sinatra, que amou a atriz à primeira vista. Não foi difícil, já que ela odiava Nancy, e não via a hora que o filho chutasse a esposa de vez. Dolly amou o jeito despachado e o desbocamento de Ava – já que ela própria era assim. Era a exceção. Enquanto o mundo ruía asua volta, Ava e Frank se amavam. Obsessivamente, enlouquecidamente, verdadeiramente… será?
 

Frank, nessa confusão toda, fez a coisa menos sensata possível (mas quem disse que o amor é sensato, afinal?): se separou de Nancy, deixou a casa e os três filhos Nancy, Tina e Frank Jr., e casou com Ava. Após o casamento, eles conquistaram o apoio da imprensa, mas não totalmente do público. Ava foi pintada publicamente como uma destruidora de lares – e isso só lhe trouxe mais prestígio e bons papéis. Sinatra, por sua vez, passou um bom tempo sendo sustentado por ela. Mas ele nem ligava; desde que estivesse com Ava, nada mais importava. É claro que nem tudo era um mar de rosas, pois eles brigavam muito. Quando começavam, quebravam tudo o que estivesse pela frente. Depois, cada um ficava no seu canto. Mas, não demorava muito, e logo Frank sentia o perfume de Ava no ar, chamando-o. E eles recomeçavam tudo de novo. Um dos motivos dessas brigas, era o ciúme insano de Sinatra. Ele simplesmente não admitia que Ava seguisse as mesmas regras que ele, afinal, ela não era Nancy, a idiota que o esperava pacientemente depois de cada pulada de cerca. Se ele traía, ela se aborrecia – não por muito tempo – e o traía também. Se Frank podia, Ava também podia. Nada mais justo, não? Mas Frank, o-machista-ítalo-americano Sinatra, não admitia isso, e tentou, sem sucesso, andar na linha por um tempo, para ver se a esposa sossegava. Funcionou até certo ponto.

 O amor dela durou até aparecerem os toureiros, ah, os toureiros, e logo Ava se encheu de Sinatra. Ela ficou grávida duas vezes dele – e nas duas, fez um aborto. A prática era muito comum em Hollywood, onde, muitas vezes, os estúdios proibiam as atrizes de engravidar. Na segunda, ela abortou por não ter certeza de quem era o pai – para se ter uma noção do relacionamento dos dois. O ápice foi quando Sinatra, morto de ciúmes por Ava ter saído para jantar com o ex, Artie Shaw, que tinha convidado os dois, ligou para Ava no restaurante, disse “adeus”, e ela ouviu dois tiros do outro lado da linha. É claro que ela saiu desesperada até o hotel onde estavam hospedados. Tudo para encontrar Frank deitado, assobiando e com dois buracos feitos pelos tiros… no colchão.
 

Ava decidiu que aquilo não era para ela, e partiu para Espanha, onde precisava gravar um novo filme. O papel caiu do céu naquele momento, pois definitivamente, Sinatra estava ficando maluco. Lá, Ava conheceu muitos homens, alguns toureiros (por quem ela teria, a partir de então, uma queda), e logo o barraco via imprensa com Frank começou. Idas e vindas, contas astronômicas de telefone e brigas marcaram a reta final do romance. A carreira de Sinatra parecia acabada, e ele tinha como única esperança para sair do fundo do poço o papel para o qual tinha feito o teste em A um passo da eternidade. Mas nenhuma das tentativas de reconciliação surtiu efeito, e logo Ava mandou Frankie pastar – Nancy deve ter sentido uma felicidade vingativa secreta.  A imprensa vibrou, os inimigos surtaram com a desgraça alheia: Sinatra estava acabado.

Mas, a vida tem dessas coisas: quando uma área despenca, outra precisa se reerguer. Enquanto a vida amorosa de Sinatra desmoronava, a profissional dava indícios de renascer. Era um bom sinal: ele conseguira o papel, o tão desejado papel, de Maggio em A um passo da eternidade. Com ele, Frank ganharia o Oscar de melhor ator – merecidamente, devo dizer. É possível dizer que a verdadeira dor de Sinatra não só o deu a veracidade necessária para interpretar Maggio, como também o ensinou a cantar novamente. Nascia assim, um dos álbuns mais melancólicos da história: In the wee small hours.

 Nele, Frank expressou toda a sua dor de cotovelo, todo amor e toda saudade que sentia por Ava. O sucesso voltou com tudo. Blue eyes estava de volta, cantando como nunca e pegando todas aqui, ali e em todo lugar. Mas, ao que parece, o sentimento por Ava nunca desapareceu completamente. Eles permaneceram bons amigos para sempre, e, dizem, que antes do seu quarto casamento, Sinatra pediu a Ava que tentasse mais uma vez com ele. Ela recusou, mas Sinatra, de qualquer forma, cuidou dela pelo resto da vida, sobretudo quando ela teve câncer. Frank não mediu esforços para ajudá-la, quando Ava já decadente e esquecida pela mídia, estava doente. Quando ela faleceu, Frank ficou fora de si.
 Ele nunca escondeu que ela foi o amor de sua vida. Ela tinha medo de querer e depender tanto de alguém. Mas o amou como a nenhum outro em sua vida. Ela lhe ensinou a cantar baladas de amor. Ele levou-a para o topo. Juntos, por algum tempo, eles foram felizes e se amaram. E, hoje, eles são um dos meus casais favoritos. Um daqueles casais fascinantes. O amor é tão grande, as personalidades tão fortes, que eles simplesmente não podem ficar juntos – nem separados por muito tempo. Um divisor de águas na vida de Frank e Ava, sem dúvida nenhuma.

Para terminar, deixo aqui uma das músicas que Frank cantou assumidamente pensando em Ava, em outro álbum que foi marcado pela ressaca sentimental de Frank & Ava, Where are you? – I think of you:

All I can do is think of you...”

Escrito por Camila

Formada em Letras e na Academia Douglas Sirk de sofrência e pregadora na Igreja Universal do Reino de Woody Allen. Uma professora de inglês apaixonada por musicais. Faz parte da Comissão de Avaliação, Seleção e Fiscalização, na área de Cinema e Vídeo, do Financiarte de Caxias do Sul.

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