Beijo na boca, não! (2003)

Beijo na boca, não! (2003)

Lá estava eu na minha humilde residência assistindo à entrega do Oscar, quando de repente o nome do cineasta rancês Alain Resnais apareceu na homenagem aos que faleceram.

– O QUÊ? O ALAIN RESNAIS MORREU??????

Com seis dias de atraso, eu ficava sabendo que um dos meus cineastas favoritos havia falecido. Fiquei desorientada, mas não era só eu. No twitter, o presidente do Festival de Cannes, Gilles Jacob, despejava toda sua ira – tirando inclusive uma selfie para mostrar o nível de ódio que estava – porque as emissoras francesas não estavam homenageando o cineasta como ele merecia.

Resnais merece flores, chocolates, tapete vermelho, honrarias do presidente francês, François Hollande (fiquei sabendo dessa hoje). Não só porque ele deu ao mundo um dos filmes mais bonitos dos anos 50, Hiroshima, meu amor; e sim porque seu talento era infinito. Drama, comédia musical, teatro… Resnais sabia como ninguém transitar por esses gêneros. Certa vez, Billy Wilder disse que o barato de um diretor era poder fazer essa transição. Nos últimos dez anos, Alain produziu filmes para todos os gostos, Beijo na boca, não! é um desses felizes exemplos.

Libreto de Pas sur la bouche, 1925.

A ideia de filmar Beijo na boca não! (Pas sur la bouche), uma opereta francesa de 1925, surgiu através de uma conversa entre Alain Resnais e seu produtor, Bruno Pesery. Nessa ocasião, o cineasta declarou um desejo de poder ter conhecido as operetas dos anos 20 e 30, que não tinham mesmo o texto publicado. No dia seguinte, pilhas de libretos das mais diversas operetas apareceram na mesa de Resnais. Assim que colocou os olhos em Pas sur la bouche, criada por Maurice Yvain e André Barde, ele ficou encantado com a loucura dos anos 20 e os jogos silábicos das músicas que jorravam dessa opereta. O passo seguinte fora chamar Bruno Pesery, o compositor que já havia trabalhado com o diretor em Aquela velha canção, para tocar as músicas e discuti-las.


O filme conta a história de Gilberte Valandray (Sabine Azéma), uma rica maîtresse de maison, que tem um casamento perfeito com Georges Valandray (Pierre Arditi), um rico industrial que tem uma teoria muito especial sobre casamento. Para ele, a mulher pertence ao primeiro que lhe esposar, e não importa o que aconteça, ela sempre acaba voltando para esse cara. Por isso, ele autoriza, e até mesmo se diverte, com os flertes de sua esposa. Que perigo ele corria, uma vez que ele foi o primeiro homem de Gilberte? Contudo, o que ele não sabe é que Gilberte havia tido um casamento não validado nos EUA com Eric Thomson (Lambert Wilson). A confusão está armada quando Eric vai parar na casa da ex-mulher, uma vez que Georges está fazendo negócios com ele.

O enredo por si só já nos faz mergulhar na loucuragem que foram os anos 20. Em certos momentos, lembrou-me as comédias de Howard Hawks em que a confusão é a mola propulsora da trama. No caso do nosso filme/opereta, Gilberte e sua irmã, Mademoiselle Poumaillac (Isabelle Nanty), tentam a qualquer custo impedir que Thomson abra a boca e acabe com o casamento comercial de margarina de Gilberte.

Resnais sugerindo o caráter “corno” do personagem de Pierre Arditi.

 

Pas sur la bouche é uma divertida aula de como as pessoas pensavam e se comportavam nos anos 20. O personagem Charley é um bom exemplo de como os autores da opereta conseguiram jogar toda a cultura dessa época dentro da opereta, fazendo dela um sucesso. Charley é um pintor, o fundador de uma nova onda, o cucuísmo(piadinha com dadaísmo, mais alguém?). Ele é patrocinado pelos Valandray, o que era bastante comum naquela época. O filme também mostra como os movimentos de vanguarda eram apreciados por quem tinha dinheiro, ainda que não entendessem nada. O barato era mostrar o quão moderno se podia ser, dizendo que gosta de cucuísmo ou de pintura esférica. A cena da soirée em que Charley irá se apresentar também é bastante interessante, pois evoca os grandes saraus, uma tradição francesa muito apreciada desde o século XVII.


Eric Thomson se recusando a dar umas bitoquinhas.

Ninguém adora zoar com os americanos quanto os franceses. Em toda e qualquer oportunidade, os habitantes da terra do croissant adoram provocar os americanos, rebaixando sua cultura. Como não poderia ser diferente, em Pas sur la bouche, os americanos são vítimas de zuera por parte dos franceses. Isso porque o personagem de Eric Thomson tem um pequeno porém: ele odeia beijar na boca. “A boca é feita para falar; não para beijar!” – ele diz na canção que dá título ao filme. Seu casamento com Gilberte não deu muito certo por causa disso. Ele é descrito por ela e sua irmã como um completo idiota. A frieza americana é Eric Thomson. Ninguém ganha dos franceses em matéria de amor, digamos assim. Mas muitas surpresas acontecem durante o filme, e Thomson tem muito que surpreender.

O filme certamente não seria o mesmo se o elenco não fosse a “panelinha” de Resnais. Uma das melhores coisas desse cineasta, para mim, é o fato de que ele trabalha com um elenco fixo. Um elenco que funciona muito bem, tanto é que as dobradinhas se repetem em vários filmes. Sabine Azéma, esposa do diretor e sua musa, está sensacional no papel de Gilberte. Eu gosto muito da forma como ela consegue ter o timing certo na hora certa. Ela repete a dobradinha com Pierre Arditi, seu par romântico em Aquela velha canção, Smoking no smoking. Aqui, meu momento fangirl: meu coração não aguentou shippar esses dois. Eles combinam tanto! Isso fica bastante evidente quando eles cantam juntos. Isabelle Nanty está engraçadíssima também no papel de Mademoiselle Poumaillac. Ah, esse elenco é muito lindo, mesmo! Uma das coisas que mais me entristecem é ficar sem os projetos futuros de Resnais, que provavelmente envolveriam Sabine e Pierre.

Pierre Arditi e Sabine Azéma repetindo a dobradinha em Smoking, no smoking.

 

Resnais, em entrevista, declarou que o que mais gostava em espétaculos de Broadway e afins era que eles eram feitos com atores que cantavam; não com cantores que atuavam. Todos os atores, menos Lambert Wilson, não tinham experiência com o canto. O que é muita surpresa maravilhosa, pois Bruno Pesery conseguiu extrair o melhor da voz de cada um, dentro das possibilidades. Apesar de se intitular de “opereta”, Pas sur la bouche, o filme, não é bem uma opereta, uma vez que os atores cantam as músicas sem aquele quêzinho de ópera. O que, de maneira alguma, destroi o que Maurice e André escreveram nos anos 20. Outro ponto interessante foi que Resnais não mudou nenhuma sílaba das músicas. Para quem conhece francês é bastante visível que o vocabulário usado pelos personagens é antiquado, e Resnais escolheu manter esse traço para nos fazer atentar para o fato de que o filme se passa em uma época bem distante da nossa. As músicas de Pas sur la bouche são muito ricas em rimas. (não essa a moral de uma música, Jessica?) O que quero dizer é que o filme apresenta um desafio duplo ao tradutor-legendista: 1) ele tem que manter o vocabulário antiquado; 2) na medida do possível deve manter a rima entre os versos. A versão que tenho de Pas sur é a em português de Portugal e devo dizer que o tradutor solucionou muito bem vários problemas dessa ordem.

Pas sur la bouche tem o capricho e o cuidado desse diretor talentoso que foi Alain Resnais. Desde o cenário cuidadosamente escolhido até as roupas das personagens (vermelho de Gilberte = paixão X azul de Mademoiselle Poumaillac = inocência). É um ótimo filme para quem está interessado em explorar mais a filmografia desse diretor. Já que não teremos mais aquele gostinho de esperar pelo próximo filme, falemos então dos que já saíram. Ainda que falar, falar e ver, ver, ver seus filmes não supra essa saudade de um cineasta tão bom quanto Resnais, um dos últimos dessa geração de cinema dos anos 50 e 60. Alain, obrigada por ser uma das pessoas que me iniciou na vida severina de ser cinéfila.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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