Os belos dias (2013)

Os belos dias (2013)


De repente, você tem vontade de comer mousse de chocolate e no outro momento, você tem vontade de torta de maçã. Não existe uma razão para isso.Acontece.

A vida de Caroline, apesar de aposentada e alguns anos mais velha que nós, se confunde com a nossa em Os belos dias. Esse filme, lançado no ano passado na França e este ano por aqui, vai além do plot “mulher mais velha saindo com homem mais novo”. Não, não isso; é uma reflexão sobre os prazeres inesperados que a vida nos traz, sobre como estamos de certa forma enclausurados na vida que construímos para nós mesmos.

Les beaux jours conta a história de Caroline (Fanny Ardant), uma mulher que está aposentada há cinco meses e que acaba se inscrevendo em cursos em uma espécie de casa para aposentados que leva o mesmo nome do filme no original. Ele foi inspirado no livro Une jeune fille aux cheveux blancs (Uma jovem de cabelo branco) de Fanny Chesnel. Logo no começo do filme já dá para perceber que Caroline não gosta muito de estar nessa casa para aposentados. Tanto na aparência quanto na sua atitude corporal ela parece estar muito distante daqueles senhores aposentados. Mas acaba entrando em uma aula de teatro, um dos tantos cursos oferecidos pela casa. A cena é angustiante. A professora pede para que Caroline ria. Só que ela não consegue rir. Ela força um riso (e nós sabemos que Fanny Ardant SABE rir como ninguém), e não dá. É um riso travado, forçado. Esse riso contrasta com o da professora; alto, estridente e feliz. Essa oposição é tudo, é a infelicidade da personagem escrita. Nem rir ela consegue.

A situação muda quando a personagem conhece Julien (Laurent Lafitte), o professor de informática. Aqui também temos mais uma cena em que a diretora do filme, Marion Vernoux, insiste na infelicidade de Caroline. Ela não consegue mexer no computador e é tão engraçado como uma simples falta de tato com a máquina se reflete em toda sua vida. Assim como o computador, ela não consegue lidar com sua vida. O professor chega para ajudá-la, porém não parece adiantar muito. O marido de Caroline, Philippe (Patrick Chesnais), a estimula a fazer os cursos da Beaux Jours, e pra quê? Bem, o fato é que esse encontro vai mudar a vida da personagem, eles saem para almoçar e logo já estão envolvidos em um affair.

Julien (Laurent Laffitte) e Caroline (Fanny Ardant)

 

Em muitos momentos do filme, lembrei-me de Recomeçar, outro filme que resenhei por aqui. O plot é bastante parecido – uma versão moderna de Madame Bovary, em que a mulher está entediada com a vida e procura consolo nos braços de um homem mais jovem – , no entanto existe uma diferença essencial: a aparência. Fanny Ardant é uma mulher que se encaixa nos padrões e está “muito bem” (odeio esse termo) para seus 64 anos. Então tudo bem se o filme for recheado de cenas de sexo porque ela está em dia. Se fosse a Anne Reid, com seus claros sinais de velhice, os seios caídos, a pele flácida etc e tal, ninguém permitiria. Aliás, esse foi um dos motivos para o rebuliço que Recomeçar causou. Essas cenas de sexo em Les beaux jours não irão chocar as pessoas, claro que não. Tudo será tratado da forma mais poética possível e está tudo bem porque a mulher envolvida na cena supre uma exigência do padrão cinematográfico. É claro que isso não desmerece o filme, mas gostaria de levantar essa questão. Assisto a muitos filmes com mulheres mais velhas, e por mais que elas estejam crescendo como protagonistas, é impossível fechar os olhos para essa realidade. A aparência decide o impacto das cenas do filme.

 

O envolvimento de Caroline com Julien começa a tomar proporções maiores. Aos poucos, percebemos que ela vai se libertando de seus grilhões, vivendo experiências que jamais imaginou. Algo que me agradou bastante é que em nenhum momento Caroline parece estar apaixonada por Julien. Eu diria que ela está mais apaixonada pelo que proporciona a ela, por redescobrir a vida através desse affair. Existem momentos constrangedores, em que uma jovem vai visitar Julien e Caroline sente todo o peso da idade cair em suas costas. Quer dizer, é o que nós, espectadores, temos a impressão; a personagem não liga muito. Caroline começa a esquecer de fazer o jantar, fica relapsa e vivendo numa felicidade quase juvenil. Paralelo a isso, seus laços afetivos com os aposentados do Beaux Jours crescem. Ela descobre que, na verdade, tem muito mais a ver com eles do que pensou.

 

A descoberta do affair pelo marido de Caroline é uma passagem bastante interessante. Ela está longe de ser algo melodramático, mexicano… é tão humano e sensível, algo que os filmes franceses em geral conseguem retratar muito bem. Eles continuam casados, mas ela precisa escolher. E adivinha quem ela escolhe? O marido, é claro. Fico incomodada com esses filmes em que o plot é “mulher mais velha e homem mais novo” e o cara mais novo em questão é sempre retratado como alguém que não pode amar a protagonista. Que ele é só uma ferramenta para que ela possa se dar conta do que aquilo que realmente importa. E se esse cara mais novo fosse O cara? De certa forma, parece que não estamos preparados para ver uma situação assim, uma vez que a maioria dos filmes desse gênero tem um final parecido.

Mas, como eu disse lá em cima, Les Beaux Jours é um filme em que a questão do envolvimento da personagem com um homem mais novo não o resume. A história de Caroline poderia ser a nossa. Quantas vezes não nos damos conta de que estamos presos nas nossas próprias armadilhas? Essa armadilha engraçada chamada “vida”. O tempo vai passando e, de repente, estamos em casa pensando que não fizemos nada. Há uma cena na sala de jantar do filme, em que Caroline e o marido estão jantando com outras pessoas e elas estão falando sobre seus trabalhos. Todos são bem-sucedidos; menos Caroline. Isso fica evidente quando os convidados fazem uma cara de “Sério?” quando ela vai buscar um dos quadros que pintou na Beaux Jours. Sério que é isso o que você está fazendo da vida? Uma dentista de sucesso terminar assim. Não podemos nos intimidar com o julgamento alheio e é o que ela faz. Quando as pessoas começam a falar sobre seu romance, “quero ver quando ele vai se cansar de transar com a mãe”, ela simplesmente não dá ouvidos. Aquela experiência é tão enriquecedora, ficamos pensando como seria bom que a vida também nos proporcionasse isso. Não a mesma situação talvez, mas algo que nos faça sair dessa eterna sensação de marasmo provocada pela rotina da vida. Les beaux jours é um convite a avaliar nossa própria vida.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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