De repente num domingo (1983)

De repente num domingo (1983)
O cinema é o contrário de um jornal televisivo
François Truffaut

O último filme de Truffaut, De repente num domingo, é um mergulho naquilo que o diretor acreditava ser o cinema: uma válvula de escape à realidade. Portanto, ao escolher o p&b e uma trama tipicamente de filme noir para seu último filme, o cineasta despedia-se do público voltando às origens de um tipo de cinema que parecia muito distante – e parece muito mais hoje em dia –  no começo dos anos 80.

De repente num domingo (Vivement dimanche!) entrelaça o destino de dois personagens, até o momento ligado apenas por um laço de patrão e empregado: Julien Vercel (Jean-Louis Trintignant) e sua secretária, Barbara Becker (Fanny Ardant). Quando Vercel é acusado de matar a esposa , Marie-Christine (Caroline Sihol) e um amigo, Barbara parece ser a única a acreditar em sua inocência. A secretária acaba se tornando uma espécie de Philip Marlow francesa e sai para investigar o passado da falecida, o que ela acredita ser a peça chave do crime.

O próprio Truffaut declarou que Vivement dimanche! tem conteúdo americano, toda a bagagem do filme noir neste caso, mas humor francês. E é verdade, talvez a maior prova disso seja que apesar de ser um filme noir, Vivement não preza por ser sério. Pelo contrário, são as gafes cometidas pela secretária que fazem do filme um noir as avessas, digamos assim.

Apesar da parte cômica, o filme em si contém a estrutura clássica de um filme do gênero noir. Recentemente tive a oportunidade de ler um livro sobre o assunto e ele começava com a seguinte frase: “o mundo do noir é essencialmente um mundo de pesadelos”. Assim podemos resumir o que a vida de Julien Vercel se torna em 15 minutos de filme. Ele vai de dono de uma imobiliária a acusado de assassinar um conhecido, Massoulier (Jean-Pierre Kalfon), com um tiro de escopeta em uma caçada. Ele precisa se esconder enquanto sua secretária sai em busca da verdade. Só que o pesadelo de Vercel parece apenas aumentar, isso porque além de seu amigo, sua esposa e mais duas pessoas são assassinadas durante o filme. Sua “culpa no cartório” só aumenta. Acontecimentos e encontros improváveis também fazem parte da cartilha do noir. Em De repente num domingo há várias cenas improváveis, como a que Barbara leva Vercel para um canto e o beija para despistar a polícia. “Por que você fez isso?” “Eu vi num filme” – ela diz. Aliás, essa cena em especial é muito cativa ao meu coração, sinto como se Truffaut estivesse fazendo piada e ao mesmo homenageando o cinema da era de ouro em que esse tipo de cena era bem comum.

Truffaut, de certa forma, subverteu o esperado de um filme noir no que diz respeito à figura feminina, Fanny Ardant. Em quase todos os filmes noir há a figura da femme fatale, a mulher que manipula e despedaça a vida do nosso heroi-perdedor. Ela é esperta e consegue prendê-lo em uma teia em que o personagem só pode sair morto dela. E a femme fatale é uma das protagonistas do filme, claro. Em Vivement, não temos isso; temos a presença de uma mulher forte, Barbara. A secretária é a musa do filme (e a musa do Truffaut naquela época também, como poderia ser diferente?), ela é diferente das personagens femininas típicas de filme noir. E isso talvez marque bastante o fato de que De repente num domingo é filme com bagagem noir, MAS filmado nos anos 80. Barbara não precisa impor respeito em um mundo essencialmente masculino com o corpo; ela o faz através de sua inteligência. Acho que aqui temos uma marca Truffaut, suas personagens femininas sempre estão além das expectativas, daquilo que é esperado pelo fato de serem mulheres. Mesmo amando filmes noir com todo meu coração, a marca machista está escrita e marcada, no momento em que a mulher sempre é a culpada pela tragédia do protagonista. Que as mulheres manipulam e que são o mal da humanidade, mais ou menos por aí.

 

De repente num domingo causou mais ou menos o mesmo impacto que O artista na época em que foi lançado. Como assim um filme PRETO E BRANCO? Existem filmes coloridos já, alô! Quando perguntado sobre a questão da cor, Truffaut respondeu que, para ele, a cor representava a vida cotidiana. As pessoas iam ao cinema para escapar do cotidiano, e para ele, o p&b era a exaltação máxima desse escapismo. Ele prefere deixar as cores aos telejornais. Seu filme anterior, O último metrô, já tinha sido colorido, então qual era o grande problema em voltar às origens p&b? Todo o clima noir, a trilha sonora dramática, os closes no rosto de Fanny Ardant fazem de De repente num domingo digno de ser visto e revisto. Uma grande despedida de um dos maiores cineastas franceses de todos os tempos.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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