As diabólicas (1954)

As diabólicas (1954)
 

Talvez você não os conheça de nome, mas certamente já tentou desvendar o mistério de alguma de suas histórias. Pierre Boileau e Thomas Narcejac foram talvez a fonte mais criativa de histórias para o cinema na década de 50 e 60. Esses dois caras, que escreviam juntos e utilizavam o nome artístico Boileau-Narcejac, foram os mestres do polar – o romance policial francês – nesse período. Um corpo que cai, de Hitchcock, é baseado em um de seus romances, Sueurs Froides. Além disso, outros filmes foram inspirados em suas histórias, como Maléfices dirigido por Henry Decoin. Boileau-Narcejac nem sempre são lembrados como os principais autores de romance policial francês; não em um mundo em que existe Arsène Lupin e Maigret. Apesar de ser uma pena, não enxergo isso como um problema, pois esses dois autores estão na cabeça de muitas pessoas que assistiram Um corpo que cai e As diabólicas, que acabaram se tornando dois chef-d’oeuvre da obra de Boileau-Narcejac. E, senhores, As diabólicas é talvez o melhor filme noir que você já viu na vida.

Boileau e Narcejac, os mestres do romance policial francês nos anos 50.

Tudo começou em 1952, quando Boileau-Narcejac escreveram Celle qui n’était plus um romance policial atípico, já que subvertia a trama esperada desse gênero de literatura. Pierre e Thomas já escreviam antes, mas Celle qui n’était plus foi o marco dessa parceria literária entre eles. Dois anos depois o diretor Henri-Georges Clouzot decidiu adaptar o romance para o cinema e assim nasceu As diabólicas. Quer dizer, não foi tão simples assim. Isso porque o mestre do suspense americano, Alfred Hitchcock, manifestou interesse em comprar os direitos do livro. Só que ele era conhecido por não pagar muito pelos direitos, o que motivou os autores a venderem para Clouzot. No fim das contas quem ganhou foi Hitch, pois Boileau-Narcejac escreveram o plot de Um corpo que cai especialmente para ele dois anos depois.

 
 

As diabólicas conta a história de três pessoas que possuem uma ligação entre si: Michel Delassale (Paul Meurisse), sua esposa Christina Delassale (Vera Clouzot) e Nicole Horner (Simone Signoret), amante de Michel. Logo no começo do filme, o caráter desse marido/amante é revelado a nós. Ele é machista, bate na esposa e na amante, trata seus funcionários mal e se acha o tal. O quadro da dor. Ao contrário do livro que já nos dá o crime logo no primeiro capítulo, o filme se concentra em traçar o perfil de Michel antes, talvez para que o crime seja justicável para os espectadores. Michel é o diretor do colégio interno Delassale, uma instituição só para garotos. Também é no começo do filme que percebemos que ele tem muito a lucrar com a morte da esposa, pois é o herdeiro da escola caso ela morra. Cansadas de serem tratadas como lixo, Christina e Nicole se unem para matar Michel. O plano é dar algo para que ele durma e depois afogá-lo na banheira. Assim como Pacto de Sangue de Billy Hilder, As diabólicas subverte a lógica do policial, nos presenteando com o culpado do crime logo de cara. E não é por acaso, isso está ligado ao fato de que esses filmes geralmente se concentram mais no psicológico dos personagens do que no crime de fato. Depois de matarem Michel, as duas mulheres jogam o corpo na piscina da escola. Elas só não contavam com um detalhe: o corpo some da piscina no dia seguinte. Quem pegou? Por quê? Será que Michel está realmente morto? O que aconteceu?

A partir dessa virada é que o filme irá se concentrar no psicológico dos personagens, já que nós sabemos quem são as assassinas. A personagem Christina é muito frágil, sofre de problemas do coração, o que é peça chave para o filme (segurando os spoilers!). Depois que o corpo de Michel desaparece, ela tem ataques de pânico cada vez mais frequentes. Toda essa descarga de tensão da personagem acaba nos influenciando, ficamos consequentemente ansiosos, com medo de que descubram o que aconteceu. É difícil não sentir empatia por Christina, sua fragilidade nos faz querer cuidar dela. Eu diria que ela funciona como o protagonista do livro, Fernand Ravinel. Ambos começam a ficar atormentados com a ideia de que o corpo sumiu, fazendo com que comecemos a duvidar do que é real ou não. O livro é narrado pelo próprio Ravinel, o que nos dá uma noção maior de seu sofrimento ao passo que o filme não é narrado por ninguém. Apesar disso, conseguimos sentir a tensão da personagem, sua atuação consegue nos transmitir todos os sentimentos que o livro. Já Nicole funciona como o oposto. É interessante a escolha de personagens tão distintos para serem os assassinos. Talvez uma complete a outra? O fato é que Nicole é a razão enquanto Christina é a emoção. Christina é moralista; Nicole não liga muito para a religião. É como se houvesse um conflito entre as protagonistas, que representam esferas completamente opostas. A inocência de Christina se traduz não só por suas atitudes, mas pelas roupas também, quase o tempo inteiro brancas, a cor da pureza. Nicole usa roupas mais escuras (difícil saber exatamente a cor com o p&b), é mais “grosseira” e sempre representa o lado racional da situação. Foi ela quem preparou todo o crime. No livro, a personagem se equivaleria a Lucienne, parceira de Ravinel no crime de matar sua esposa, Mireille, com o intuito de ficar com o dinheiro do seguro.

Christina Delassale (Vera Clouzot) e Nicole Horner (Simone Signoret).

Outro ponto interessante é a escolha de Clouzot em relação ao lugar onde a ação se passa. No livro, a ação ocorre entre Paris e Enghien, uma espécie de cidade situada a onze quilômetros dessa primeira. Já no filme, o lugar escolhido foi o colégio interno. E por quê? Minha tese é de que o colégio faz um contraponto com o assassinato. Ele representa a pureza, a inocência através das crianças que estudam lá. Acontece uma espécie de profanação no momento em que o corpo de Michel é levado para a escola, uma perturbação. A todo o momento existe o jogo entre dois opostos, seja com o lugar da ação seja com as protagonistas. Clouzot brinca de certo-errado conosco.

Clouzot, como Hitchcock, criou todo um suspense em torno do filme. Não seriam admitidas pessoas na sala de cinema depois que o filme começasse. Além disso, havia uma mensagem quando o filme terminava, pedindo para que as pessoas não fossem “diabólicas” e que não contassem o final do filme a outras. O diretor foi o precursor desse tipo de publicidade, utilizada por Hitchcock em Psicose alguns anos depois. Também não era permitida a entrada de ninguém desconhecido no set. Tudo isso para guardar o final surpreendente de As diabólicas, o que aliás é o que estou me esforçando para fazer aqui também. Enfim, se você gosta de um bom filme noir, esse daqui não decepciona. É uma pena que outros filmes policiais sejam pouco conhecidos, os franceses sabiam como elaborar um bom suspense. Além de ter inspirado Psicose, As diabólicas entrou para o rol de filmes franceses clássicos, ganhando até um remake em 1995. A atuação dos três protagonistas, o clima de mistério e a câmera reveladora de Clouzot valem as quase duas horas de duração do filme. Um clássico do noir. Imperdível.

 
“Não seja diabólico! Não destrua o interesse que seus amigos possam ter por este filme. Não os conte o que você viu. Eles agradecem”.
 

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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