A rosa púrpura do Cairo (1985)

A rosa púrpura do Cairo (1985)
I just met a wonderful new man. He’s fictional, but you can’t have everything.

A insatisfação com o real e com o presente é uma das questões que perpetua a obra de Woody Allen. Para o diretor, que tem em seus filmes uma visão pessimista da vida, o cinema sempre foi uma válvula de escape. Seu desejo sempre foi que fosse possível enfrentar a vida sem precisar escolher entre a fantasia e a realidade. Em nenhum outro filme isso ficou tão claro quanto em A rosa púrpura do Cairo, onde a personagem vivida por Mia Farrow, é a síntese de tudo aquilo que o cinema sempre representou para Allen, bem como uma bonita homenagem aos filmes da época da Depressão.

Uma curiosidade: tenho um caso sério de amor com esse filme. Há  uns três anos atrás um amigo muito querido e colega da faculdade me disse que havia assistido A rosa púrpura do Cairo, e que a protagonista lembrava muito o meu jeito. Curiosa, fui atrás do tal filme, e tive que concordar: eu era (e sou, até hoje) Cecilia. Na verdade, talvez você concorde comigo depois de assisti-lo: todos nós somos um pouco Cecilia.

É muito prazeroso escolher a fantasia, mas é aí que está a loucura, e você é obrigado a escolher, finalmente, a realidade. E a realidade sempre nos desaponta, sempre nos machuca. E isso foi o que me fez querer fazer o filme. (Woody Allen em 2012)

Em A rosa púrpura do Cairo, Mia Farrow é Cecilia, pobre e infeliz, vivendo na época da Depressão e levando uma vida horrível e sem sentido. Trabalhando como garçonete, ela sustenta o marido, um homem violento e que não quer arranjar emprego de jeito nenhum – já que Cecilia pode trabalhar para sustentar os seus vícios. Seu único prazer é ir ao cinema, já que não encontra sentido e felicidade em sua vida cotidiana. A fuga que os filmes proporcionam faz com que ela seja feliz, mesmo que temporariamente. Quer dizer, sua vida é miserável, mas pelo menos ela tem seus filmes para assistir. Eles lhe dão coragem e esperança para seguir em frente. Além disso, ela sonha em ter a mesma vida glamourosa e excitante que os personagens das suas matinês têm.

Doce e sensível, ela consegue suportar dia após dia sua vida, até que a situação se torna insustentável e chega ao auge quando ela descobre que seu marido a trai e ela é demitida, no mesmo dia. Abandonando a casa, sem ter para onde ir, ela vai para onde sabe que encontrará conforto: o cinema mais próximo. Nele está sendo exibido o filme “A rosa púrpura do Cairo”. Desiludida, Cecilia assiste-o repetidamente, sem deixar a sessão. Tudo corre normalmente, até que na quinta vez em que a película passa, o galã do filme, Tom Baxter (Jeff Daniels), nota a jovem na plateia e começa a conversar com ela, deixando todos que estão no cinema assombrados, sobretudo Cecilia, que simplesmente não consegue compreender o que acontece.

Tom encanta-se por Cecilia, e resolve sair da tela para encontrar com ela. Os dois se apaixonam quase que instantaneamente (sendo ela do jeito que é, não foi nada difícil), e saem do tumulto que a saída do protagonista causa. A escapada de tom gera uma crise tanto dentro quanto fora das telas. É engraçado ver como tudo se desenrola, sobretudo quando os produtores culpam os comunistas pela confusão criada. Mais hilário ainda é ver como os personagens que ficaram dentro da tela se comportam. Está armado o caos absoluto. Alheios  a isso tudo, Tom e Cecilia apaixonam-se e saem juntos, e é interessante observar como ele se sai no mundo real, acreditando que tudo é como nos filmes: automático e fácil.

A situação alcança seu ápice quando o ator que interpreta Tom, Gil Shepherd, vem para a cidade para conversar com seu personagem e convencê-lo a voltar para a tela, já que teme um escândalo em sua promissora carreira, já que foi acusado de dar veracidade em demasia para Tom. A viagem acaba proporcionando o encontro entre Cecilia e Gil. Ao conhecer Cecilia, assim como aconteceu com seu personagem, Gil se apaixona pela doce Cecilia; tudo nela o encanta, e ele acaba se esquecendo do objetivo de sua viagem.

Cecilia, que antes não tinha praticamente ninguém, agora se vê entre dois pretendentes dos sonhos: um que a convida para ir para o mundo idílico dos filmes (as cenas em que Cecilia se vê dentro de A rosa púrpura do Cairo são as mais adoráveis do filme), e outro que oferece para ela a realidade e o encantamento dos bastidores do cinema. Basicamente é o dilema que todos nós vivemos uma hora ou outra: escolher entre a fantasia e a realidade. Como Woody comentou no trecho que acrescentei ao início desse post, a realidade pode ser decepcionante, ela machuca. Cabe a Cecilia fazer a sua escolha.

O final é um dos mais tocantes para mim. Apesar de tudo, Cecilia sempre pode voltar para o cinema e encontrar a felicidade em Fred Astaire e Ginger Rogers. A realidade não é sempre fácil, mas sempre podemos esquecer todas as tristezas e mágoas e sorrir ao som de Cheek to cheek. Essa é a magia maior do cinema.


Nesses tempos de barracos a la Casos de família entre Woody e Mia, as pessoas acabam esquecendo dos ótimos trabalhos que os dois fizeram juntos antes de transformar a própria vida em um caso do programa do Ratinho. Woody, nessa época em que eles tinham um relacionamento, escrevia sempre pensando na personalidade de Mia, e Cecilia é um exemplo de como ele a enxergava no auge do tempo em que estiveram juntos.

Quando assisti Woody Allen – a documentary, prendi a respiração e esperei tortinha de climão na hora de falar da Mia, mas fiquei impressionada como Woody foi delicado e sensível ao falar dela.

 

Quando escrevi para Mia, ela nunca me desapontou e sempre fez um excelente trabalho para mim.

Vale a pena conferir aquele que, provavelmente, é o melhor filme do casal. Links abaixo devidamente testados para que você possa assistir essa preciosidade da filmografia de Woody Allen.

Curiosidade: o primeiro ator cotado para viver Tom/Gil foi Michael Keaton. Ele chegou a gravar diversas cenas, mas Woody logo percebeu que ele não convencia como um homem dos anos 30.

Farrow e Keaton, na primeira versão de The purple rose of Cairo.

Escrito por Camila

Formada em Letras e na Academia Douglas Sirk de sofrência e pregadora na Igreja Universal do Reino de Woody Allen. Uma professora de inglês apaixonada por musicais. Faz parte da Comissão de Avaliação, Seleção e Fiscalização, na área de Cinema e Vídeo, do Financiarte de Caxias do Sul.

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