O grande Gatsby (2013)

O grande Gatsby (2013)

Não é a toa que O grande Gatsby, sendo dirigido por Baz Luhrmann, esteja concorrendo ao Oscar de melhor figurino. Porém, creio que foi praticamente um pecado que o longa fosse ignorado por outras categorias, pois Gatsby é muito mais do que as luxuosas roupas dos americanos ricos da década de 1920. Com uma trilha sonora envolvente – embora às vezes viaje na maionese – o filme foi para mim uma das mais prazerosas idas ao cinema de 2013. O que faltou em brilho e em empolgação na adaptação que trazia Robert Redford e Mia Farrow nos papéis principais aparece aqui com todo o exagero desde o colorido e o espetacular 3D, até os já citados figurinos que renderam à indicação ao Oscar – afinal, estamos falando de Baz Luhrmann.

Adaptação fiel da obra de F. Scott Fitzgerald, O grande Gatsby traz a característica de focar mais nos personagens e suas personalidades, do que o tema que Fitzgerald traz em seu romance: o chamado “sonho americano”. A relação de Gatsby e Daisy no filme de Luhrmann é alçada ao patamar de tragédia. A história toda é uma série de equívocos e escolhas erradas que levaram a vida dos personagens principais ao estado em que estão: são vidas estagnadas, falsas, ou mesmo cercadas de mistério, no caso de Gatsby.

Eu tomei uma atitude acertada com relação ao filme, que pode ser considerada um pecado por muitas pessoas (chatas): eu escolhi não ler nada sobre o filme, não li nenhuma sinopse e não li o livro até assisti-lo no cinema, apesar da insistência da minha irmã, que tem na obra de Fitzgerald um de seus livros favoritos. E, digo, valeu muito a pena, porque consegui ser absolutamente surpreendida pela história e complexidade dos personagens. Logo após a ida ao cinema, corri para o livro em busca de algo a mais, e, juro, foi como ver o filme de novo, tamanha a fidelidade do Gatsby de Luhrmann.

Uma das coisas que mais gostei – e que vi por aí ser muito criticada no filme – é a narração, tal qual como acontece no livro, de Nick Carraway (Tobey Maguire, que, diga-se de passagem, deixou os tempos de Peter Parker para trás, e ficou perfeito no papel).  No início, sabemos através de Nick, que algo de ruim e trágico aconteceu. Ele está transtornado. Através de sua escrita – pois ele decide escrever o que se passou – somos transportados para o passado, não muito tempo atrás, quando o recém-saído da universidade Nick arranja um emprego, e muda-se para perto de sua prima Daisy (Carey Mulligan), que é casada com o arrogante e infiel Tom Buchanan (Joel Edgerton). Nick mora em frente a um grande lago, do outro lado vivem os Buchanan. Logo, Nick toma conhecimento das festas homéricas e frequentadas por toda sorte de pessoas, num clima total de “os loucos anos 20”, que acontecem todas as noites na casa de seu vizinho Gatsby (Leonardo DiCaprio).

“A little party never killed nobody…”

Curioso, logo Nick entra em uma dessas festas, e se surpreende ao perceber a aura de mistério que envolve a vida do enigmático anfitrião. Ninguém parece saber quem ele é de fato; praticamente nenhum dos que frequentam sua casa já o viram alguma vez. O mistério permanece por cerca de 40 minutos de filme; só aí que conhecemos, junto com Carraway, o tão falado Gatsby. Aos poucos, Nick e Jay Gatsby ficam próximos – no começo, Gatsby é movido pelo interesse, mas logo ele se afeiçoa verdadeiramente ao jovem rapaz. Nick descobre a cada dia uma nova faceta do amigo, e fica surpreso ao descobrir a verdadeira razão da riqueza e das festas dadas pelo magnata, que tira seu lucro por meios duvidosos.

Daisy Buchanan é a razão de tudo que Jay Gatsby faz, e em pouco tempo percebemos que ela não é indiferente a esse sentimento. No entanto, Daisy escolheu viver infeliz em um casamento baseado em aparências, em troca de uma falsa segurança e aceitação da sociedade. O triângulo amoroso entre Daisy, Tom e Gatsby caminha, no decorrer do filme, para uma inevitável tragédia, quando o antigo casal resolve reviver o amor que nunca deixou de existir. Assim, eles vão levando quem estiver pelo caminho junto, no turbilhão de acontecimentos que está por vir.

A narração em voice-over de Nick faz com que o espectador compreenda as emoções e dilemas vividos pelos personagens. Um exemplo de um desses bem-vindos momentos no filme, é o momento em que Gatsby leva Daisy, junto com Nick, para conhecer a sua mansão. Gatsby abre seu armário e joga suas camisas sobre Daisy, que as abraça e brinca com elas como se fosse uma criança, e acaba chorando. Pode parecer, como na versão de 1974, com Mia Farrow, que Daisy chora pela beleza das camisas, mas Nick nos dá suas impressões: Daisy chora pelos anos perdidos e pelo fato de que ela poderia estar ali com ele como sua esposa, não fosse sua desistência de Gatsby no passado.

Carey Mulligan dá muito mais sentimento e verdade à Daisy. Nós vemos o dilema que ela vive: trocar a estabilidade e continuar infeliz, ou fazer uma loucura e largar tudo por Gatsby? Através da encantadora perfomance de Carey, vemos Daisy menos irritante do que ela verdadeiramente é, pois existe ali uma fragilidade, que se traduz por meio da voz sussurrada e fraca, mas que ao mesmo tempo, exerce um tremendo poder sobre o personagem de Leonardo DiCaprio. Este último também contribui muito para a visão que temos sobre o complexo personagem; o Gatsby de DiCaprio demonstra muito mais humanidade e fraqueza, tanto que acaba por despertar simpatia e compreensão do espectador.

A trilha sonora também é um caso a parte. Há os que não gostaram de que na trilha fossem incluídas canções contemporâneas com um leve toque do jazz e do charleston da década de 20. No entanto, acredito que as músicas captaram muito da essência dos personagens, como é o caso de Young and beautiful, na voz de Lana Del Rey, que, se me permitem dizer, é Daisy do início ao fim. Assim como as músicas mais animadas remetem ao exagero todo das festas da casa de Jay Gatsby, como é o caso de A little party never killed nobody, na voz de Fergie. Por fim, entre os destaques, Love is blindness, interpretada por Jack White, nos dá toda a dimensão do trem descarrilhado que leva Gatsby e os demais rumo à tragédia. Nessa lista do Youtube, você pode conferir todas as músicas da trilha sonora de O grande Gatsby.

Por fim, o figurino merece sim o destaque comentado no início desse post. Também pudera: as peças para o filme foram criadas por ninguém menos do que a estilista italiana Miuccia Prada em parceria com a designer Catherine Martin. As duas, fascinadas pelo clássico, não encontram muitas dificuldades para criarem as mais de 40 peças do filme, que trazem todo o glamour dos anos 20.

A exuberância dos figurinos criados por Prada e Martin.

Distraídos por toda beleza da fotografia, do coloridos e dos cenários do filme, o espectador pode quase deixar passar despercebido a crítica social da obra original, que está exatamente em todo esse circo montado por Gatsby para ter Daisy, e fica muito claro que, apesar de ter a casa sempre cheia e a tal riqueza do sonho americano, Gatsby não é feliz. E quando ele precisa realmente, todos somem, e só o seu único amigo verdadeiro está ali para ele. Mas já é tarde demais.

O grande Gatsby deve ser apreciado muito além dos seus figurinos e do encantamento que as cores produzem. Por trás de tudo isso, existem os sonhos, e os amores impossíveis – um tema, aliás, que parece um favorito de Baz Luhrmann, visto que não é a primeira, nem a segunda vez que o diretor dá esse foco a um de seus filmes. O que fica é um retrato de uma juventude tão artificialmente alegre e ao mesmo tempo vazia. Vazia de sentimentos, de escrúpulos. E vivendo só de aparências. Basicamente, a essência do sonho americano.

Escrito por Camila

Formada em Letras e na Academia Douglas Sirk de sofrência e pregadora na Igreja Universal do Reino de Woody Allen. Uma professora de inglês apaixonada por musicais. Faz parte da Comissão de Avaliação, Seleção e Fiscalização, na área de Cinema e Vídeo, do Financiarte de Caxias do Sul.

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