La casa del pelicano (1976)

La casa del pelicano (1976)

Se existe uma mulher respeitada no México, o nome dela é Jacqueline Andere. Jacqueline, who? Jacky (apelido carinhoso) é uma das atrizes mais adoradas e respeitadas do México. Você, você que gosta de uma boa novela mexicana, talvez se lembre de seus papeis nas novelas exibidas pelo SBT: A outra e A madrasta. Sim, porque Jacky não é só dramalhão mexicano, o que por si só já bastaria para colocar Regina Duarte no chinelo. Ela pode provar sua versatilidade no cinema, e destaco dois filmes, La casa del pelicano é um deles; o outro é um clássico de Buñuel, O anjo exterminador. Ambos filmaços, mas hoje vou me ater ao primeiro.

La casa del pelicano, de Sergio Véjar, é um filme simples, baseado na peça de teatro Nilo mi hijo de Antonio González Caballero. Os cenários e os figurinos são mundanos, mas a trama e a atuação dos atores supre qualquer carência neste quesito. Ele conta a história da professora Margarita Ramírez (Jacqueline Andere), que se muda para uma cidade após um acontecimento trágico. No momento em que o filme começa, não sabemos que tragédia é essa. Aos poucos, através de flashbacks, vamos juntando os pedaços. A personagem tem momentos de delírio com um homem assustador. Quem é é ele? Lá pelas tantas, ela fica grávida. O que era para ser uma notícia alegre vira um tormento para a professora. Ela tem um sonho durante a noite e aí que ficamos sabendo da tragédia: ela foi estuprada. O que nos leva à conclusão de que o filho é do estuprador.

Jacqueline Andere.

Aliás a cena de estupro em La casa del pelicano merece um parágrafo só para si. Para os padrões de 1976, acredito que a cena seja chocante. Véjar trabalha no nível psicológico. O que isso quer dizer? Quer dizer que o diretor, aos poucos, vai aumentando a tensão da cena. Ele vai nos deixando angustiados, sendo que a moça ainda nem foi estuprada. A perseguição que acontece entre o homem e Andere nos deixa extremamente nervosos. Quando ele consegue apanhá-la, depois da perseguição, achamos que a tensão está transbordando. Mas não. Na verdade, a tensão transborda mesmo quando a câmera vai mostrando o rosto aterrorizado de Andere e toda sua degradação física. Sua roupa é rasgada, ela tenta acertar o homem com uma pedra e não consegue. A loucura daquele homem contrasta com o desespero da personagem. Por isso, essa gravidez significa lembrar para sempre dessa situação.

Contudo, Margarita resolve ter seu filho, mas com medo de que a “loucura” do pai seja hereditária. Com a ajuda de uma amiga da pensão onde morava, ela consegue viver em uma casa na praia, a tal casa del pelicano. O filme nos mostra praticamente todas as fases de crescimento de Nilo, o filho de Margarita, e assim que ele vai crescendo, mais o controle dessa mãe sobre esse filho vai aumentando. Na fase criança, há uma cena particularmente interessante entre os dois. Nilo termina os deveres de casa e vai dar um beijo em sua mãe. Só que existe algo muito sexual na forma como ele toma o rosto da mãe nas mãos e dá um beijo em seu rosto. Margarita percebe e diz: “Não gosto que me toques assim”. Essa cena nos deixa claro o fascínio que Nilo sente pela mãe, e La casa del pelicano pode ser considerado uma releitura moderna do mito de Édipo.

O fascínio sentido pela mãe é o fio condutor da trama. Nilo faz tudo para agradar a mãe, inclusive escolher ser médico, profissão da qual não gostava muito, para agradá-la. Todas suas atitudes são neste sentido, mostrando a relação simbiótica entre eles. Ela, a mãe, é o que importa. Seus amigos acham estranha essa atitude de veneração, mas ele não vê nada de mais. “Ela é uma mulher muito respeitável, pare com isso”. Nem sempre será assim. No momento em que Margarita começar a impor o jeito como o filho deve se comportar e com quem deve andar, meus amigos, as coisas tomarão rumos inesperados. Como uma boa tragédia grega.

La casa del pelicano é um thriller psicológico sensacional, ótimo para começar a se familiarizar com o cinema mexicano. Também é uma oportunidade de conhecer melhor o trabalho de Jacqueline Andere fora das novelas mexicanas, se você tem preconceito e acha que todas as atrizes que fazem esse tipo de trabalho não são boas. Com um roteiro e direção impecáveis, esse filme tem um dos finais mais chocantes que já vi.

Links importantes:
  1. Mais informações sobre Jacqueline Andere: http://laamoraa.wordpress.com/2012/10/20/um-pouco-de-jacqueline-andere-para-nos-brasileiros/
  2. La casa del pelicano está disponível on-line no Youtube em: http://www.youtube.com/watch?v=n8RuCLDczjE

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

Comentários

Comentários

1 Comentário
  • Hoje resolvi sentar e rever este filme e até então, não fazia ideia da existência deste texto. Acho que La Casa del Pelícano se tornou o meu filme favorito, mais até do que “O Anjo Exterminador” do Buñel… rs. ótimo, ótimo texto… descreve exatamente a sensação que senti ao vê-lo.

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