Clube de compras Dallas (2013)

Clube de compras Dallas (2013)

No sábado à noite, quando Jared Leto ganhou o prêmio SAG por sua atuação em Dallas Buyers Club, percebi que já passava da hora de escrever um post sobre esse filme para o blog. Isso porque a vitória do ator, que interpretou uma transexual, é digna de destaque. Michael Douglas também tem seus méritos, afinal em seu Behind the candelabra (outro filme digno de review!), ele também interpreta um personagem portador do vírus HIV, mas que descobre o vírus quase no final da vida. Existe uma diferença importante entre os dois filmes. Dallas buyers club é cru, sem rodeios e tem o propósito de retratar como a AIDS e seus efeitos nos anos 80; Behind the candelabra centra-se na figura do pianista Liberace e não tem tanto apelo social como o primeiro. O discurso de Leto no SAG deixa bem claro, para mim, a importância de um filme como Dallas buyers no cinema. Principalmente concorrendo à categoria tão desejada de “melhor filme” no Oscar.

Dallas buyers club (Clube de compras Dallas por aqui) já começa dando um tapa na nossa cara, ao mostrar um jornal noticiando que Rock Hudson estava com AIDS. A escolha por esse começo não é fruto do acaso, na verdade, ela é genial. O roteirista Craig Borten nos coloca diante de um fato real – o mundo chocado ao saber que uma grande estrela da era de ouro de Hollywood era portador do HIV – na tentativa de mostrar o quanto a AIDS chocou as pessoas nos anos 80. Elas pensavam: como esse cara, esse símbolo sexual pode ter AIDS? O pensamento era mais ou menos assim: se Rock tinha AIDS, meu Deus, ninguém está a salvo. Quando não dava mais para segurar a onda, Hudson autorizou sua assessora a contar para o mundo seu segredo. Ele teria dito algo sobre cavar o próprio túmulo, o que já indiciava o inevitável: a destruição de sua imagem garanhão. Existem imagens do anúncio inclusive, e elas são muito tristes. Os personagens de Dallas buyers discutem sobre a sexualidade do ator, não acreditando que “todas aquelas beldades desperdiçadas”. Aqui temos o estereótipo que predominou nos anos 80, de que a AIDS era a doença dos homossexuais, de quem era promíscuo e todo esse papo babaca. O personagem de Matthew McConaughey vai nos provar que não era bem assim.

O filme conta a história real (com alguns toques de ficção, já chegaremos lá) de Ron Woodroff, um eletricista que um dia sente-se mal, vai para o hospital e descobre ser portador do HIV. Para um cara homofóbico como ele é difícil aceitar a doença. Ron é do tipo que fazia piadinhas homofóbicas com seus amigos no bar, mas mais do que isso, o cara mora no Texas. Vocês imaginem o nível de macheza desse personagem, que monta em rodeios, pega um milhão de mulheres e cultua a imagem viril do homem texano. Ele discute com a médica Eve Saks (Jennifer Garner, ótima no papel), declarando que não poderia ser verdade, já que a AIDS era uma doença de veado, e como ele poderia ter uma doença de veado?? Os médicos lhe dão 30 dias de vida. Só que Ron viveu sete anos.

É aí que o Buyers Club entra na história. Ron tenta participar dos testes de AZT, uma nova droga que ajuda a enfrentar os efeitos da doença. Sem sucesso, ele acaba em um médico no México, onde é tratado a base de uma dieta de vitaminas e outros ingredientes. Esse médico mexicano lhe diz que era para ele parar de tomar AZT (a essa altura do filme ele já havia conseguido a droga ilegalmente), que fazia mal. Entre os efeitos adversos estava a baixa da imunidade. Coisa que os laboratórios não noticiavam, já que era lucrativo vender AZT. Ron decide fundar seu Buyers Club, inspirado nos já existentes na Flórida e em N.Y, com a ajuda do médico, que lhe forneceria as drogas. Por 400 dólares ao mês, o associado receberia todas as drogas que precisasse. Ele foi pensado como uma alternativa ao AZT e aos grandes laboratórios, além de atender pessoas que não tinham dinheiro para comprar AZT.

 

A personagem Rayon (Jared Leto) surge na história ainda quando Ron está hospitalizado, e ela divide o leito com ele. Ela o trata bem, mas Ron não consegue esboçar uma reação que não seja transfóbica. Antes de montar o Buyers Club, eles têm uma conversa e Rayon lhe pergunta quanto ele cobra para oferecer as drogas de controle ao HIV para ela e outras colegas. Ron esboça novamente sua reação transfóbica, fazendo com que Rayon saia do carro após dizer que jamais daria seu dinheiro a um homofóbico como ele. Depois eles acabam se “acertando” e ela se torna sócia no negócio. É interessante notar que o crescimento de Ron como pessoa acontece ao mesmo tempo em que ele vivencia a própria decadência física em decorrência da doença. De transfóbico/homofóbico, Ron aprende a conviver com a diferença, pois muitos dos clientes do Buyers Club eram homossexuais ou trans. Há uma cena particularmente muito bonita e ela acontece no supermercado, quando Ron encontra um de seus amigos homofóbicos/transfóbicos. O amigo em questão aponta para Rayon dizendo: olha lá aquele veado. Ron diz que na verdade ela é uma amiga dele e o traz para se apresentarem. Ela dá a mão ao amigo, que fica com nojo e acaba não a cumprimentando. Dê a mão para ela, dê a mão para ela – Ron fica repetindo ao passo que Rayon não sabe o que fazer. No auge de sua irritação por aquele comportamento transfóbico, Ron obriga o amigo a dar a mão para ela. Acho que esse foi o momento de virada do personagem. O roteirista de Dallas Buyers Club relatou que criou o personagem de Rayon justamente para mudar o caráter de Ron, uma vez que essa personagem não existe na vida real.

O filme levou 20 anos para ser feito, os roteiristas tinham material de sobra sobre Ron: entrevistas, vídeos caseiros, etc. A irmã e filha de Ron disse que evitam entrar na internet para ver Matthew caracterizado como Ron, uma vez que para elas é quase insuportável enxergar como o ator ficou parecido com ele. E claro que não poderíamos não falar da caracterização de Jared Leto e Matthew McConaughey. Matthew teve acompamento médico para emagrecer 18 kgs, o que não foi o caso de Jared. Como este último assinou o contrato em cima da hora, teve de recorrer a medidas drásticas, como só beber água por exemplo. Além do emagrecimento também raspou as sobrancelhas (só eu o achei mais bonito de Rayon do que de Jared Leto?) e depilou o corpo. Mas mais do que as transformações físicas, Jared diz que a maneira de representar o personagem é importante.

 
[O verdadeiro Ron Woodroff]

Sei que a disputa para melhor filme do Oscar este ano está acirrada, mas gostaria muito que Dallas Buyers vencesse. O tema da AIDS, do preconceito contra os homossexuais e transexuais é algo que esse filme retrata sem cair nos estereótipos e no caráter pejorativo. É uma temática muito importante, que deve ser discutida. Minha avó me contou semana passada ou retrasada que seu antigo patrão, toda vez que apertava a mão de um conhecimento portador do HIV, ia correndo ao banheiro lavar as mãos. Muitas pessoas ainda pensam que apertar a mão, beijar transmite o vírus. Elas propagam preconceitos sem ver. O que Dallas Buyers Club faz é dar voz a essas pessoas que só querem respeito. É só o que elas nos pedem. Não é muito, não acha?

Dedico esse post à Paola, que sempre me acrescenta muito com nossas discussões sobre gênero, transgênero, sociedade e Fleetwood Mac.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

Comentários

Comentários

2 Comentários
  • Paola disse:

    Obrigada pela dedicatória!!! Amei o post, fiquei com mais vontade de assistir ao filme 🙂
    :*

  • Anonymous disse:

    Adorei o post. Li várias críticas sobre o filme, porém nenhuma delas esclarecia o fato de que Rayon é na verdade um personagem fictício. Esse é um detalhe bem importante que não deve passar despercebido. Obrigada pelo esclarecimento! 😀

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