All Is Lost (2013)

All Is Lost (2013)

Confesso que tive dificuldades em escolher as tags para identificar o filme, All Is Lost é uma poderosa combinação de drama, suspense, natureza e terror. Tudo começou no Sundance Film Festival em 2011, na estréia de Margin Call – O Dia Depois do Fim, quando Robert Redford conheceu o diretor estreante J.C. Chandor. O novo filme quase não tem diálogos e traz como único personagem um ator veterano, que aos 77 anos de idade, tem boas chances de conquistar seu primeiro Oscar.


As filmagens ocorreram parcialmente no mar, próximo de Los Angeles e em três tanques gigantescos no México, contruídos por James Cameron em 1997 para filmar Titanic. Redford comenta alguns detalhes sobre a produção:

O plano original era usar um dublê, mas chegamos lá e meu ego falou mais alto! Comecei a dizer: ‘Acho que posso tentar. Deixa-me ver o que dá para fazer.’ E aí me toquei de que a execução daquelas tarefas era parte importante do personagem e que seria muito melhor para o filme se eu não tivesse tudo mastigado.

Chandor conta que a equipe ficou impressionada:

Olhavam para mim, tipo: ‘Sério mesmo que você vai usar essa mangueira em Robert Redford?

O filme começa com uma introdução do personagem:

Sinto muito… sei que isso significa pouco neste momento, mas eu sinto. Eu tentei. Acho que todos vocês concordam que eu tentei. Ser verdadeiro, ser gentil, amar, ser correto. Mas não fui. E sei que você sabia disso. Em cada uma de suas formas. E sinto muito. Tudo está perdido aqui, exceto pela alma e o corpo… ou seja, o que resta deles (…).

O personagem, que não tem um nome definido e é referido apenas como Nosso Homem, é um velejador que acorda e se depara com seu iate atingido por um contêiner no meio do Oceano Índico. Desde então, ele passa a improvisar, aliando-se a alguma experiência de navegação para lutar por sua sobrevivência.

 

Li algumas críticas devido a falta de diálogos e flashbacks que mostrassem o passado do personagem, um dos comentários mais nonsense: “Não sabemos quem aquele cara é, se tem filhos, se tem família, se é uma boa pessoa. Se merece sobreviver no final. Como o telespectador pode sentir alguma pena eou torcer pelo bem de uma pessoa que é apresentada daquela maneira?”, simplesmente não entendo essa necessidade de sempre haver uma explicação, o sujeito se tratar de um SER HUMANO não é motivo suficiente para estimar sua sobrevivência? O foco de Chandor no presente e na tensão estampada no rosto de Redford, seu isolamento naquele lugar alheio à tudo, vulnerável a qualquer manifestação da natureza me parece bem mais interessante do que a criação de alguns diálogos de efeito para causar empatia com o cara.

Preciso mencionar a sutileza da trilha-sonora instrumental, que dá o tom certo para algumas cenas e sem ofuscá-las. O paradoxo de um lugar paradisíaco aliado com o pavor e a tensão que sentimos quando de repente em meio ao dia ensolarado, o céu muda com a chegada de nuvens escuras anunciando uma tempestade. Acho que me senti realmente cúmplice de Nosso Homem, sua paixão pelo mar e impotência perante o caos. Infelizmente, acho que o filme não deve obter muitas indicações e nem levar muitas estatuetas na noite do Oscar. Mas torço pela indicação do Redford que transmitiu emoção calado, de maneira que só um ator com sua experiência conseguiria.

 

Robert Redford foi entrevistado no Owl Bar, perto de onde estava hospedado durante o Sundance Festival e contou sobre a primeira vez que assistiu ao novo filme ao lado do diretor J.C. Chandor em Cannes, onde foi exibido fora da competição. O ator, que nunca ganhou um Oscar, estava preparado para as vaias, quando foi surpreendido por aplausos que duraram cerca de nove minutos. Depois de décadas sendo o bonitão das telas, o ator conta que não se importou com as imagens feitas de seu rosto, tão de perto que parecesse ainda mais velho:

“Bom, deixa só eu esclarecer uma coisa: nunca me considerei bonito. Eu era um moleque sardento que todo mundo chamava de ‘cabeça de feno.'” mas apesar disso diz ter se divertido como o galã das matinês “Adorei trabalhar com a Jane, com a Natalie, com a Barbra. Adorava a linguagem corporal, o mistério, a química sexual”, afirma, referindo-se a Fonta, Wood e Streisand. Ele confessa ainda que passou a se sentir mais à vontade conforme foi envelhecendo e, sobre o fato, menciona uma linha de seu verso favorito de T.S. Eliot: “Podemos apenas tentar. O resto não depende de nós”.

Escrito por Guilherme

Still tryin' to find my place in the sun.

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