Recomeçar (2003)

Recomeçar (2003)

 Sempre digo que os filmes me escolhem; não eu a eles. No dia em que tomei conhecimento de Recomeçar, eu estava lendo um pouco mais sobre Anne Reid, a protagonista de Last tango in Halifax. Ela tinha feito esse filme em 2003 e tinha ganhado muitos prêmios com ele. Mas o curioso era que ninguém falava sobre os prêmios ou sobre sua atuação; apenas sobre as cenas “polêmicas” de sexo que havia entre ela e Daniel Craig no filme. Se há algo que eu deveria evitar nessa vida é ler comentários alheios. No entanto, nunca aprendo. De repente, estou embarcando em uma overdose de comentários preconceituosos, que me dão vontade de vomitar e fazem com que eu me pergunte se essas pessoas vivem no mesmo mundo que eu. Voilà, foi o que aconteceu com Recomeçar. Comecei a ler as opiniões sobre o filme e nunca me deparei com tanto preconceito na minha vida. Basicamente as pessoas criticavam o filme por ter mostrado cenas de sexo entre uma mulher mais velha e um homem mais novo tão explicitamente. Como se as pessoas sexagenárias que fazem sexo fossem sujas ou não dignas de respeito. Aquilo atiçou ainda mais minha curiosidade de ver o filme. Eu achava que tinha um dever moral de vê-lo e relatá-lo para as pessoas que me leem aqui.

Recomeçar (The Motherconta a história de May (Anne Reid) e de seu marido Toots (Peter Vaughan), um casal sexagenário que vai à Londres visitar os filhos, Paula (Cathryn Bradshall) e Bobby (Steve Mackintosh). Na primeira cena do filme, em que Toots está roncando e May não consegue dormir, você consegue perceber a tristeza pelos seus olhos enquanto ela olha para o nada. Parece que a rotina a sufoca. Temos certeza disso quando, na cena seguinte, ela está amarrando os sapatos do marido, mostrando que ela vive para ele e está obviamente cansada disso. Novamente nos deparamos com seu olhar para o nada. No entanto, ela parece aceitar essa condição. Quando chegam a Londres, são tratados com negligência pelos filhos. Bobby passa o tempo inteiro no telefone e Paula está muito ocupada tentando se tornar uma escritora de sucesso. Eles não têm tempo para os pais e, por vezes, acham-os um fardo. Londres, uma cidade grande, sufoca o casal que não sabe como se comportar ali. Além disso, há sempre um barulho interminável durante todas as cenas entre o casal e seus parentes, uma tentativa de fazer um contraponto com o silêncio do interior da Inglaterra, de onde May e Toots vieram. Gritos, crianças correndo, celular tocando… É tanto barulho que você consegue experimentar a agonia de May.

O ponto de virada do filme acontece no momento em que Toots acaba por falecer. A partir daí, experimentamos mais de perto a agonia de May. Ela acredita que sua vida terminou, mas não quer ser colocada em um asilo, como ela diz ao filho. Todos ficam surpresos com o falecimento de Toots, mas ninguém parece se incomodar com isso por mais de dois minutos. Só May sofre de verdade. Seu filho a leva de volta para o interior da Inglaterra. “Deite-se, mãe”. “Não quero, já fiquei muito tempo deitada”. May sofre de verdade porque sente o fim da vida próximo e, dessa forma, desamparada. Uma cena que poderia traduzir esse desamparo é quando ela chega em casa e vê os chinelos de Toots no hall. May quase tem um colapso, pois lembra que era ela quem costumava amarrar seus sapatos. A vida perdeu o sentido para ela. Além do mais, May percebe o quanto devotou sua vida a ele. No começo do filme, May estava cheia daquele homem, mas não estava pronta para seguir sem ele. Agora ela tem o destino em suas mãos e isso lhe causa uma sensação muito estranha.

Neste turbilhão de sensações – todas traduzidas pelos lindos olhos azuis de Anne Reid – May vai morar com a filha Paula. Ela começa a conhecer melhor o caseiro, Darren (Daniel Craig), a única pessoa que parece ter o mínimo de consideração por ela. May tenta sondá-lo sobre seu caso com sua filha, mas a cada minuto que se passa percebemos que ela não está interessada em ajudar a filha a fazer com que ele embarque num relacionamento sério com Paula. Darren, por trás dos músculos, se revela um homem sensível, levando-a para visitar cemitérios e falando sobre arte. A atenção vem de onde ela menos espera, alguém completamente desconhecido. Depois de tê-lo beijado sem querer no parque, May o convida para subir com ela para o quarto. Nesta parte do filme, você consegue perceber a sensibilidade do diretor Roger Mitchell (também dirigiu Um lugar chamado Nothing Hill) trata esse tema. Porque primeiro, May e Darren não chegam a transar de fato dessa vez. E isso, para mim, mostra essa veracidade que gosto tanto de encontrar em filmes. O caráter da personagem jamais permitiria que ela transasse com ele na primeira vez. Digo, May é insegura, tem vergonha de seu corpo ‘de velha’ e está ainda muito abalada pela morte de Toots. Seria completamente inverossímil se, de repente, May se libertasse tão rápido de suas correntes. Essa cena é filmada da perspectiva da porta do quarto, e vemos May de costas, de sutiã, envergonhada com aquela situação. Neste primeiro momento, Darren apenas a toca. “Eu nunca achei que alguém fosse me tocar novamente, só o agente funerário”. A cena seguinte é cheia de emoção também: May vai ao banheiro lavar o rosto. “Acho que estou queimando”- ela diz. Então ela abaixa a cabeça para lavar o rosto e temos a cãmera filmando a pia cheia d’água e seu rosto debaixo para cima, em câmera lenta. Para mim, essa água simboliza a personagem deixando todo tipo de opressão que sofreu na vida rolar feito água ralo abaixo. Alguns quadros depois, eles transam de fato. E se você não for babaca o suficiente, eu tenho certeza de que irá encontrar a beleza de que estou falando nessa cena.

 

 

O relacionamento com Darren liberta May de suas correntes. Contudo, ainda não está livre completamente, uma vez que parece se tornar dependente dele. Será Darren um novo Toots? De qualquer forma, há um diálogo belíssimo entre os dois, em que May disserta sobre “ter seguido o bonde”. Que ela é fruto de uma geração em que as mulheres seguiam as regras porque aquilo era o certo. “Parece que temos uma rebelde por aqui”- diz Darren, enquanto May acende um cigarro. Quando May traga, ela começa a tossir e ficar sem ar. “Não consigo respirar” “E o que você faria se conseguisse respirar?” Essa pergunta de duplo sentido é, para mim, a pergunta principal do filme. O que May irá fazer agora que consegue respirar? Será que é na velhice que finalmente conseguimos respirar? Nos livrarmos dessa corrente? Não sei.

 
 

A reação de sua filha ao descobrir o relacionamento da mãe com seu affair não poderia menos pior. Paula e May tem uma relação estranha, dificultada pelo fato da filha achar que tudo é culpa de sua mãe. A culpa de ela não ser uma escritora de sucesso é porque a mãe nunca disse que ela era talentosa. Paula fica basicamente o filme inteiro nesse mimimi sem fim, sem perceber que, na verdade, a egoísta é ela mesma. Ao descobrir o relacionamento entre sua mãe e Darren, ela reage de uma maneira peculiar. Por que peculiar? Bem, porque é a mesma forma com que as pessoas que fizeram comentários sobre esse filme reagiram. A mãe sexagenária não podia ter uma vida sexual sem ser qualificada de “suja”ou “vagabunda”. E como um homem mais novo poderia se interessar por ela, uma velha de 60 e tantos anos, não é mesmo? Paula, no ponto alto de  sua demência, chega a dar um SOCO em sua mãe. E o respeito, cadê? A personagem só prova que não consegue se comportar como uma adulta e conversar à respeito do assunto. Na verdade, ela fica o tempo inteiro tentando machucá-la, fazê-la se sentir ridícula sem ao menos contar que sabe o que aconteceu entre ela e Darren.

Anne Reid (May) declarou em uma entrevista estar cansada das pessoas acharem que pessoas mais velhas são de outro planeta. Eu também. Vocês que criticaram o filme por causa das cenas de sexo, pergunto: vocês acham que pessoas mais velhas não transam? Em que mundo vocês vivem? Pois bem, isso é old shaming (acabei de inventar um termo novo). Vocês ficaram chocados ao verem os seios da Anne Reid no filme porque não conseguem apreciar a beleza de algo que não esteja dentro do padrão. Para a informação de vocês, nem todas as mulheres de 60 anos para mais são como a Meryl Streep ou a Helen Mirren. Tenho certeza de que ninguém criticou a Helen quando ela apareceu completamente nua em Em Roma na primavera, filme da BBC assim como Recomeçar. E por quê? Bem, porque Helen está dentro do padrão, oras. Ela se “cuida”. E se ela se cuida, todas as mulheres da mesma idade poderiam fazer o mesmo. Estou CHEIA disso. Recomeçar é um ótimo filme para quem quiser pensar fora da caixa. Anne Reid é linda, minha gente, e isso não tem nada a ver com o corpo que ela tem. Porque a beleza está muito além do corpo. E há quem aprecie a beleza dela, como o personagem do Daniel Craig. Aliás, vocês também, hein. Queria ver se fosse um homem mais velho com uma mulher mais nova. Ninguém ia dizer nada. Quando é a mulher que é mais velha, não pode, não pode! Esses tempos, estava olhando fotos de uma cantora que gosto bastante, Christine McVie, e pensando comigo mesma sobre a beleza dela. Tenho certeza de que se eu mostrasse essa foto para alguém, a pessoa iria dizer que eu estava maluca. Christine está cheia de rugas, manchas nas mãos etc e tal. Como ela pode ser bonita? Consigo ver muito além da sua aparência física. Sua voz, sua obra, a estranha delicadeza que seus lindos olhos azuis ingleses me transmitem… é assim que eu a vejo. Mesma coisa com a Anne Reid em Recomeçar: você olha para aqueles olhos azuis e lá no fundo deles existe uma beleza.

Isso é recalque de vocês, já que uma mulher de 60 anos ‘deu uns pegas’no Daniel Craig e vocês não. Quero realmente acreditar nisso. É muito triste pensar que estamos condicionados a pensar dentro de uma caixinha. Não conseguimos respirar assim como May.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

Comentários

Comentários

1 Comentário
  • Laís disse:

    A gente começa a militar e aprende um monte de nomes novos: esse preconceito de que tu falou é conhecido como etarismo. E ainda é um daqueles preconceitos que não são vistos como tal, infelizmente.

    Tua resenha tocou em pontos interessantíssimos, gostei de ler! Eu até estaria tentada a assistir ao filme, mas, depois de Amour, estou evitando qqr filme de temática parecida – teria eu me tornado uma etarista?!

    Beijos, amada.

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