Os amores secretos de Eva (1955)

Os amores secretos de Eva (1955)

 

Dizem as más línguas que Joan Crawford interpretou a si mesma nesse filme. A egoísta, manipuladora, charmosa, inescrupulosa Eva Phillips seria uma extensão do caráter da atriz. Verdade ou não, Queen Bee (Os amores secretos de Eva no Brasil) é um filme muito interessante, merecedor de uma boa review neste blog principalmente pela pegada Tennessee Williams que apresenta.

Queen Bee é um tapa de luva naqueles que acreditavam que uma atriz chegando aos 40 não poderia interpretar o papel de uma maneater (Nelly Furtado feelings) no cinema. Hollywood dos anos 50, sabe como é, medo da televisão tomar conta,– o que realmente aconteceu mais tarde –  por isso quanto mais juventude na tela melhor. Mas se seu nome é Joan Crawford, não importa o quão as pessoas digam que você é veneno de bilheteria, elas continuam indo ao cinema ver seus filmes. Elas continuam achando que você é diva. Queen Bee é a prova maior de que Joan Crawford era uma diva sem idade.


O filme conta a história da família Phillips, a partir da chegada de Jennifer (Lucy Marlow), a prima de Eva (Joan Crawford). Durante os cinco primeiros minutos, o filme já nos oferece duas pistas importantes. A primeira está ligada ao clima de tragédia que permeia o filme, através da fala da filha de Eva: “Nós somos a família Phillips; não temos medo de nada”. Já a segunda está ligada à Eva, que não aparece mas de quem se fala muito. Assim como Jennifer, ficamos intrigados e confusos com tanta ironia e ódio que seu marido e cunhada destilam a ela. Afinal, o que ela fez? Por quê? Eva chega em casa, presenteia e abraça seus filhos e dirige-se para a sala onde estão Avery (Barry Sullivan), seu marido, Carol Lee (Betsy Palmer), sua cunhada, e duas visitas. Aqui é interessante prestar atenção que o filme já nos mostra a influência de Eva na vida de todos; quando ela chega, todos se calam. O clima torna-se, de repente, pesado. O problema nos é exposto: tem algo “errado” com essa família. No final dessa cena, ficamos sabendo que Avery abandonou Sue McKinnon (Fay Wray) no altar para ficar com Eva. No entanto, a ingênua Jennifer defende a prima, dizendo que esta deveria sentir-se muito mal com isso. Ao fundo, ouvimos a porta fechando enquanto Eva e Avery discutem seus problemas.

A estadia de Jennifer na casa dos Phillips está às mil maravilhas. Eva é atenciosa, arranjando até mesmo para ela um pretendente. Apesar das bebedeiras de Belo (apelido de Avery por causa de uma cicatriz no rosto), da cortina de ódio que toma conta da casa, Jennifer acredita que Eva é alguém admirável por estar sempre feliz em um lugar onde todos parecem odiá-la sem motivo. Ela não consegue nem enxergar a inveja da prima em frases banais como “Não fique aí me olhando com essa cara ridiculamente jovem”. A entrada de Jud Prentiss (John Ireland) na história vai mudar este quadro. O rapaz, que ajuda Avery a cuidar dos negócios e está noivo secretamente de Carol Lee, é o gatilho para que Jennifer comece a questionar o caráter de Eva. Em uma noite, Jud vai visitar os Phillips. É a mesma noite em que Jennifer irá sair com o pretendente que sua prima lhe arranjou. Eva o vê e experimenta uma euforia quase juvenil, o que é muito estranho para duas pessoas que são apenas amigas. O fato é que ela quase passa dos limites com ele, se não fosse a presença de Jennifer na sala. “Oh, você está aí. É tão silenciosa, temos que pôr um sino em você”. Assim que Jen sai para o encontro, a máscara de Eva cai. Ao saber que Jud irá passar a noite nos Phillips, ela liga e desmarca um compromisso com uma amiga. Uma das coisas que mais me fascinam no cinema é essa capacidade de dar uma ideia sem que se diga nada, apenas com a imagem. Quando Eva liga para desmarcar o compromisso, ela começa a enrolar o fio do telefone no pescoço de Jud, até apertar com bastante força. Ele não passa de uma propriedade para ela. É quase como se ele fosse um substituto do cachorro Tilly, morto por Avery minutos atrás.

 

A cena em que os dois estão sozinhos é muito sutil, não deixando de ser sensual também. Eva pede que ele apague as luzes. “Você sabe que eu gosto da luz apagada”. Posso ver a própria Crawford dizendo isso, uma vez que ela estava em um período complicado de sua vida, fazendo de tudo para não demonstrar que a idade estava chegando. Voltando à Eva, ela quer a luz apagada logicamente para que ninguém os visse, mas também por causa de sua juventude. Jud e Eva tiveram um caso há dez anos (se vocês vissem a cara do John Ireland diriam que não faz sentido algum), na verdade, foi ele quem a apresentou a Avery. Jud resiste às investidas de Eva, pois irá se casar com Carol Lee. Contudo, não é  o que Jennifer ouve ao pé da escada. Na verdade, ela só enxerga uma Eva investindo fortemente em Jud, fazendo com que a ingênua personagem fique apavorada. Temos a virada do filme, Jennifer finalmente consegue entender o que todos lhe diziam sobre o caráter de Eva.

Não contarei o resto do filme (na esperança de que vocês o assistam!), mas algumas coisas valem a pena ser comentadas. O título do filme é uma delas. A metáfora da abelha rainha é muito bem trabalhada no filme. Há uma cena muito interessante em que Carol Lee e Jennifer estão conversando sobre um livro que há na biblioteca sobre a vida das abelhas. Carol a aconselha a lê-lo, argumentando o quão ele é interessante. Na realidade, a personagem quer alertar Jennifer que a casa dos Phillips é como uma colmeia. Eva é a abelha rainha, ferroando todos tão inocentemente que você só percebe quando cai morto. Nesse caso, poderíamos extender o título para o set de filmagens, uma vez que a única atriz conhecida no filme é Joan. Um filme de Joan Crawford sem um tapa histórico não é um filme digno de Joan Crawford. Em Queen Bee, temos um dos melhores tapas da história do cinema, perdendo apenas para as bofetadas em Um rosto de mulher. Jennifer encontra Eva ao pé da escada e lhe conta que Carol Lee e Jud irão se casar no domingo seguinte. A frase “I’m so happy that…” é interrompida pelo tapa de Eva, tão forte que chega a fazer barulho. O clima do filme é quase claustrofóbico, já que 99% das cenas são rodadas dentro da casa dos Phillips. Aliás, sobre isso, uma informação intrigante: a escada que leva aos quartos em Queen Bee é quase idêntica (para não dizer igual) a que foi utilizada em Mamãezinha Querida.

 
A escada de Queen Bee X A escada de Mamãezinha Querida
 

E como não poderia faltar, o momento Hedda Hopper deste post. Reza a lenda que Crawford se envolvia com quase todos seus pares românticos. Clark Gable e Spencer Tracer são os confirmados dessa lista que nunca parece terminar; só aumentar. Em Queen Bee, Joan teria se envolvido com John Ireland. Os dois sempre chegavam atrasados no set, com as roupas amassadas. Segundo Ireland, “Nunca parecia repetitivo. Sempre parecia que era a primeira vez. Ela era exótica, muito além do significado dessa palavra”. No entanto, Joan estava pra lá de infeliz na época, o contrato com a Warner havia batido asas e a perspectiva de outro Oscar parecia muito, muito distante. Talvez seus affairs tenham sido uma forma de lidar com a solidão. Aliás, Ireland e Crawford voltariam a trabalhar juntos no filme B I saw what you did (and I know who are, não resisti) no começo dos anos 60.

Queen Bee pode não ser o melhor filme de Crawford, mas merece ser visto. Afinal nem todos os filmes precisam ser um Mildred Pierce da vida. Este aqui nos apresenta Joan sendo ainda melhor quando é malvada. Quer dizer, você vai se pegar adorando o personagem, como eu, mesmo sabendo que ele não vale nada. Talvez esse seja o grande trunfo de Joan: nós a amamos com seus papeis de mocinha; mas ainda mais nos seus papeis de vilã.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

Comentários

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2 Comentários
  • Marcus André disse:

    Eu gostei muito desse filme, comprei inclusive o DVD. Joan não está bonita como nos anos 20 e 30, quando ela era definivamente uma das mais belas de Hollywood, mas sua melhora no quesito atuação é notável. Se não me falha a memória, a filha de Joan, Christina Crawford disse no livro dela (Mamãezinha Querida), que como pessoa, a Joan era tão ruim quanto a personagem do filme!! kkkkkkk

    • Oi, Marcus! Obrigada, primeiramente, por comentar por aqui <3 Também acho que a atuação de Joan melhorou com o tempo, se bem que ela está destruidora em "Rain", um filme mais para o começo de sua carreira. É incrível como ela tinha facilidade para interpretar vilãs, quando ela faz papel de mocinha não chega a fazer cosquinhas, quero dizer, a gente não consegue se apegar tanto. Preciso reler "Mamãezinha Querida", um amigo tomou o livro emprestado e nunca mais me devolveu!

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