O galante Mr. Deeds (1936)

O galante Mr. Deeds (1936)
Frank Capra foi, definitivamente um dos melhores diretores que o cinema já teve. Pena que não tem hoje o devido reconhecimento como tantos outros da mesma época. Em grande parte dos seus filmes, Capra expôs a sua visão do americano idealizado de bom coração, antimaterialista e a ideia de que quem tem amigos na vida, tem tudo. Em O galante Mr. Deeds, que deu à Capra seu segundo Oscar, ele apresentou a história de um de seus personagens idealizados (e um dos mais queridos também), que conquistam de imediato o espectador. Mostrando ainda o contraste entre a cidade pequena, com seus valores tradicionais e relações próximas, contra a frieza, o egoísmo e a falsa sofisticação da cidade grande, com suas luzes enganadoras, Mr. Deeds é um filme doce, capaz de arrancar suspiros saudosistas de quem o assiste e mesmo trazer à tona aquele eterno questionamento de quem assiste filmes antigos demais: por que não se fazem mais filmes assim? 
 
É o efeito Frank Capra.

É o poder que esse tipo de filme tem, é inexplicável. Sobretudo na filmografia de Capra, que soube como poucos ligar o enredo certo ao elenco adequado. Isso fica muito claro em O galante Mr. Deeds. Gary Cooper, um dos maiores galãs que Hollywood já teve, era tudo, menos um santo. E isso contrasta brilhantemente com a personalidade bondosa e ingênua do adorável Longfellow Deeds. Como resultado, não existe nada mais sexy dos que os olhares cabisbaixos que Deeds/Cooper lança nesse filme.

(arrrrgh!)

Toda aquela história de que o dinheiro não traz a felicidade plena, tão presente nas produções de Capra, aparecem aqui por meio das críticas de Longfellow Deeds, um legítimo caipirão – do ponto de vista do pessoal da cidade – que herda uma fortuna de um parente desconhecido de sua mãe. A personalidade bondosa e desinteressada de Deeds fica visível quando o advogado da cidade o visita em sua casa e lhe dá a notícia: ele fica perplexo, e até mesmo um pouco triste, sem dar maior importância ao fato de que agora é um milionário. Tudo o que ele quer é ficar na cidadezinha de Mandrake Falls, fazendo poesia e tocando sua velha tuba.

Mas, envolvido por um bando de advogados trambiqueiros responsáveis pelo gerenciamento da fortuna do falecido parente, Deeds acaba sendo obrigando a se mudar para Nova York. Para mostrar o quanto ele é querido na cidadezinha, todos os moradores vão até a estação para se despedir e lhe dar conselhos sobre como agir na cidade grande – esse comportamento contrastará mais tarde de maneira gritante com o comportamento das pessoas que Deeds encontra em Manhattan.

Ao chegar na cidade, ele logo se comporta como um novo rico, sendo obrigado a comprar roupas novas e conviver com pessoas cínicas, que não exitam em fazer piada do rapaz, que não possui malícia alguma. É quase como se fosse uma grande criança crescida, descendo as escadas montado no corrimão, ou mesmo tentando brincar com os criados na enorme mansão em que vive. Essa inocência acaba se voltando contra ele: sem perceber, Deeds acaba se tornando alvo fácil para a mais variada gama de trapaceiros, e um deles é a jornalista Babe (a adorável Jean Arthur, queridinha de Frank Capra). Apaixonado pela moça, ele começa a se tornar protagonista de matérias cruéis em um dos jornais de Nova York, que o ridicularizam como o “Homem Cinderela”, sem saber que Babe é a autora desses textos. Com o passar do tempo o feitiço vira contra a feiticeira, e Babe, aos poucos, se deixa encantar pela personalidade de Deeds. Ao mesmo tempo, os advogados de seu tio tentam a todo custo fazer com que Deeds assine papéis para desistir da fortuna e passar tudo para o poder deles; ele é ingênuo, mas não estúpido.

Desiludido com toda a falsidade e egoísmo da cidade grande e convencido que o dinheiro só traz problemas, Deeds resolve ir embora; mas antes resolve doar todo o dinheiro para uma comunidade rural que está com problemas financeiros. A ironia maior vem quando seus advogados usam isso contra Deeds, levando-o aos tribunais como louco. Babe, a essa altura completamente apaixonada pelo rapaz, se sente responsável por tudo o que aconteceu, e torna-se, com seu depoimento, a peça fundamental no julgamento de Longfellow Deeds – já que ele, apático e infeliz, não tinha intenção de se defender. Apesar disso, o final feliz é certo, e vem no melhor estilo Frank Capra.

Tocante e repleto de gags hilárias e brilhantes, O galante Mr. Deeds é uma obra-prima do cinema e um dos momentos mais marcantes da filmografia de Gary Cooper – ele trabalharia mais uma vez com Capra estrelando Adorável vagabundo ao lado de Barbara Stanwyck em 1941. Além disso, o filme abriria portas para uma série de sucessos de Frank Capra, dentre eles dois que hoje são clássicos absolutos: A mulher faz o homem (1939) – que inicialmente seria uma continuação de Mr. Deeds, mas Gary Cooper não estava disponível –  e A felicidade não se compra (1946). O primeiro teve Jean Arthur novamente no papel de co-protagonista, e ambos foram estrelados por James Stewart, na segunda fase de sua carreira, já no pós-guerra.

Uma ode ao antimaterialismo, Mr. Deeds merece estar na lista de qualquer cinéfilo que se preze, e é um daqueles filmes que tem o poder de deixar o espectador de coração leve e esperançoso após assisti-lo.

Ah, se a vida fosse como nos filmes de Frank Capra…

Escrito por Camila

Formada em Letras e na Academia Douglas Sirk de sofrência e pregadora na Igreja Universal do Reino de Woody Allen. Uma professora de inglês apaixonada por musicais. Faz parte da Comissão de Avaliação, Seleção e Fiscalização, na área de Cinema e Vídeo, do Financiarte de Caxias do Sul.

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