Kate & Spence: “um sentimento ímpar”

Kate & Spence: “um sentimento ímpar”
Amor não tem nada a ver com o que você espera obter, mas apenas com aquilo que você espera dar, o que vem a ser tudo. (…) Eu amei Spencer Tracy. Ele, os interesses dele e as exigências dele estavam em primeiro lugar. Isso não foi fácil, porque definitivamente eu era do tipo ‘eu-eu-eu’. Foi um sentimento ímpar o que tive por S. T.
Esse ano tive, finalmente, a oportunidade de ler a autobiografia de uma das minhas atrizes favoritas de todos os tempos, Katharine Hepburn. Sempre a admirei por sua atuação e tinha uma vaga noção de sua personalidade de leituras que fiz aqui, ali e em todo lugar. No entanto, “Eu: histórias de minha vida” me surpreendeu por não ser uma biografia convencional. Bom, não deveria ser surpresa: a autora da biografia não poderia ser menos convencional. Kate traz histórias maravilhosas de uma vida brilhante, com seus altos e baixos, mas o que mais me marcou ao final da leitura foi, sem dúvidas, o amor desmedido que ela sentia por Spencer Tracy, e que rendeu uma das histórias mais marcantes de Hollywood. Amor desinteressado, amor incondicional; eis a lição que Hepburn me ensinou.

Existe uma diferença imensa entre amar e gostar. Normalmente usamos a palavra ‘amor’ quando estamos querendo dizer na verdade ‘gostar’. Acho que pouca gente quer, de fato, dizer ‘amor’. Acho que gostar é muito mais fácil. Baseia-se nos sentidos. Amar é obliterar.

Katharine Hepburn foi, como podemos notar, incondicionalmente apaixonada – será que ela gostaria que eu usasse essa palavra? – por Spencer Tracy. Mas será que a recíproca foi verdadeira? 

Antes de entrar nos méritos desse relacionamento, precisamos voltar no tempo para entender como essas duas almas, ao mesmo tempo tão iguais e tão diferentes, acabaram se encontrando no pega-e-desapega da Old Hollywood.

1942. George Stevens estava prestes a dirigir mais um filme, com a ideia criada e esboçada por Garson Kanin. Os dois, conversando sobre a produção do futuro A mulher do dia (Woman of the year) já tinham decidido quem protagonizaria a história, uma verdadeira guerra dos sexos: Katharine Hepburn e Spencer Tracy. Na opinião de Garson e George, Kate e Spence formavam o par perfeito para o filme: o papel da mulher de personalidade forte e opinião própria, que luta ao lado da causa feminista caía como uma luva para ela, enquanto que o machão, que quer a mulher ao seu lado a todo custo, assentava bem com a personalidade de Tracy. Apesar disso, a primeira reação dos dois não foi tão animadora:

Kate: “Ah, não sei. Será que vai dar certo nós dois juntos? Somos tão diferentes!”
Spence: “Como é que posso fazer um filme como uma mulher de unhas sujas, de sexualidade ambígua e que só usa calça comprida?”

Apesar das reações diversas, eles acabaram aceitando, e o resultado foi uma química inegável nas telas, um filme divertido… e um romance de 27 anos! Spencer era casado – jamais se divorciou de sua esposa – e, mesmo assim, era um notório sedutor. Sabia-se em Hollywood que ele tinha casos e casos, e saía com todas as mulheres atraentes com quem contracenava. As irmãzinhas Joan Fontaine e Olivia De Havilland que o digam! Assim como as rivais Joan Crawford e Bette Davis. Todas conheceram ~~a magia~~ de Spencer Tracy.

No entanto, com Kate foi diferente. Há uma cena em que o personagem de Spence, Sam, entra em uma sala, e lá está ela: a câmera sobe pelas belas pernas de Tess (Kate), e chega ao rosto e… aconteceu! Considero esse como um momento histórico do cinema, já que podemos presenciar tudo: nascia ali a história de amor de Kate e Spence. Como muitos dos filmes que os dois farão juntos mais adiante, temos aqui cenas que transcendem as telas; é como se aquele olhar fosse muito mais de Spencer-Katharine do que Sam-Tess. Claro que tudo pode ser viagem da minha cabeça (ME DEIXA VIVEER!). A verdade é que, durante as gravações os dois acabaram se apaixonando e, mais do que isso, virando grandes amigos e companheiros. O próprio George Stevens foi testemunha:

Eu vi o amor de Spence e Kate se desenvolver bem em frente aos meus olhos. Eles eram pessoas tão incomuns! Acabei me tornando muito próximo deles.

Desde então, eles não se desgrudaram mais, e Spence chegou a se mudar para a casa de Kate. Mas, apesar da seriedade do relacionamento, ele não queria se divorciar da esposa, pois se sentia culpado – nossa, Spence, fez todo o sentido!!!!! ~~SÓ QUE NÃO~~. Tendo dois filhos, Tracy dizia não querer o divórcio para manter a família e por ser católico. Kate, resignada, acabou aceitando, e jamais disse uma palavra sobre o assunto: ela simplesmente aceitou o status do seu relacionamento.

Uma das raras fotos caseiras de Kate e Spence.

A partir desse momento, os dois causaram certo furor e foram perseguidos por um curto espaço de tempo pela imprensa. Mas, talvez por serem pessoas agradáveis, eles logo conquistaram a simpatia dos jornalistas, que passaram a respeitá-los e ao relacionamento que tinham. Fotos dos dois juntos em situações sociais praticamente não existem – eles cuidavam muito com isso, para não magoar a família de Spence com uma exposição pública – e com o apoio da imprensa, foi tudo muito mais fácil.

É claro que, com o sucesso de A mulher do dia, não faltaram convites para que eles protagonizassem mais filmes juntos. Foram nove no total:

  • A mulher do dia
  • Fogo sagrado
  • Sem amor
  • Mar verde
  • Sua esposa e o mundo
  • A costela de Adão
  • A mulher absoluta
  • Amor eletrônico
  • Adivinhe quem vem para jantar

Eles viveram e trabalharam juntos até a morte de Spence, em 1967. Adivinhe quem vem para jantar foi  o trabalho derradeiro da dupla. Com Spence já doente, Kate dedicou-lhe todo seu tempo, afeto e cuidados; para se ter uma noção da dedicação e do amor dela, Kate, para não atrapalhar o já agitado sono de Spence – que tossia muito e se mexia a noite toda – dormia no chão, ao lado dele e acordando o tempo todo para checar se ele estava bem. E quando ele faleceu, estava sozinho em casa com ela. A forma como Kate descreve tudo em seu livro a respeito desse acontecimento é tocante; quando se refere à Spence, ela quase sempre se dirige diretamente a ele. Kate chamou a sua família, e saiu discretamente de cena, deixando para a família as aparições públicas no funeral. Ao fim de tudo, acabou se tornando grande amigo de Suzie, a filha de Spencer.

Spencer foi o amor da vida de Katharine, e vice-e-versa. Até o fim de sua vida, ela se referiu a ele sempre com muito amor, e sem nenhuma mágoa. No livro, Katharine conta que, até vender a casa em que os dois viviam, manteve tudo da maneira exata que Tracy deixou:

Não consegui deixar a casa depois que você morreu. Mantive tudo – até os livros sobre a mesa de carvalho. Agora sento na sua cadeira. Os livros ficaram onde estavam. Bobagem, suponho. Eu tentava manter você ali.

Apesar de toda a história, apesar de todos os 27 anos, Spencer jamais disse “eu te amo” para Katharine. Ele nunca quis deixar a esposa, nunca assumiu o relacionamento. E mesmo assim, ela nunca lhe cobrou nada. Só doou a si mesma e deu todo o amor que podia. E, apesar de tudo, tentava compreender a eterna culpa que ele sentia – e que acabou o levando ao alcoolismo e, por fim, à morte. Kate afirma em seu livro:

Não faço ideia do que Spence sentia a meu respeito. Só posso dizer que acho que se ele não gostasse de mim, não teria ficado tanto tempo. Muito simples. Ele não falava sobre isso, nem eu. Apenas passamos 27 anos bem-aventurados. Isso se chama amor.

Prova disso foi que Kate o amou até a sua morte, em 2003. Na época do lançamento de sua biografia, gravou também um documentário, onde, em um trecho, lê a carta que escreveu para Spence, e que encerra o seu livro. Esse vídeo emocionante está disponível no Youtube, e resume a história de amor e doação de Katharine Hepburn com Spencer Tracy.

Em minha opinião, como Kate afirmou, Spencer com certeza a amou. Talvez não na mesma medida, pois aprender a amar da maneira que ela soube amar não é nada fácil: doar muito e não esperar nada em troca. Ela cuidava dele e lhe deu confiança; mudou em si tudo o que ele não gostava – logo Kate, a mulher que só usava calças, que não tinha papas na língua, e não levava desaforo para casa, logo ela!

Para encerrar esse longo post – afinal, esse casal não merecia nada menos do que isso! – trago uma das citações do livro de Katharine, que explicam esse amor incondicional, que tornou possível um dos casais mais marcantes da história do cinema:

As pessoas já me perguntaram o que havia em Spence que me fez ficar com ele quase 30 anos. E isso é quase impossível de responder. Honestamente não sei. Só sei dizer que eu jamais poderia deixá-lo. Ele estava ali – e eu era dele.

Escrito por Camila

Formada em Letras e na Academia Douglas Sirk de sofrência e pregadora na Igreja Universal do Reino de Woody Allen. Uma professora de inglês apaixonada por musicais. Faz parte da Comissão de Avaliação, Seleção e Fiscalização, na área de Cinema e Vídeo, do Financiarte de Caxias do Sul.

Comentários

Comentários

1 Comentário
  • Anonymous disse:

    Lindo texto, adoro estes dois atores, e essa historia é linda, obrigada por me proporcionar esta leitura e poder conhecer um pouco da historia de amor deles!!

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