Every frenchman has one ou “as aventuras de Olivia de Havilland em Paris”

Every frenchman has one ou “as aventuras de Olivia de Havilland em Paris”

Como assim Olivia de Havilland escreveu um livro? Essa foi minha reação ao tomar conhecimento de Every Frenchman has one. É tão difícil achar livros escritos por nossos ídolos da Old Hollywood que a descoberta dessa pérola fez com que eu sentisse borboletas no estômago.

A proposta do livro é contar sobre o período francês da vida de De Havilland, um pouco desconhecido por nós. Parece-me que o título é uma referência a si mesma, já que ela chama seu marido, Pierre Galante, de frenchman, em um tom altamente irônico. Mas se você está perdido, pensando o que ligaria França e Olivia de Havilland, eis um pequeno momento Hedda Hopper. Ao divorciar-se de seu primeiro marido, Olivinha (desculpem, fãs, mas eu me considero íntima dessa moça) tinha acabado de estrelar My cousin Rachel ao lado de Richard Burton. Hedda Hopper, Louella Parsons e seu estúdio staff estavam insatisfeitos com a situação, uma vez que o único homem em sua vida era seu filho, Benjamin. Basicamente: procura-se desesperadamente um homem para Olivia de Havilland. Sem sucesso, só restou o descontentamento dessas pessoas. Até um dia em que um convite para o Festival de Cannes de 1952 mudaria o curso dos acontecimentos.

 
 
 Hihihi, escrevi um livro, por essa vocês não esperavam.
 

Olivia recebeu um convite para ir ao festival, que aceitou de bom grado. Quer dizer, ela aceitou e pediu gentilmente que lhe mandassem duas passagens de avião ao invés de uma. O suficiente para fechar o tempo na Sécretaire Générale do festival. Isso porque os franceses achavam que Olivia estava querendo levar seu mais recente boy magia para o festival. Só que o boy magia em questão era seu filho de três anos e meio, Benjamin. Como ninguém sabia quem era a pessoa, o secretário da revista francesa Paris Match, Pierre Galante, foi chamado para opinar sobre o assunto, afinal ele conhecia algumas estrelas de Hollywood. A resposta foi não. Não, ela não poderia levar a segunda pessoa. No fim das contas, Olivia conseguiu levar seu filho para a França. Ela achava que o típico francês; alegre, galante, de bigodinho, iria recebê-la no aeroporto. Aqui já podemos ver o tom quase ingênuo que permeia toda a narrativa do livro. Isso porque Olivinha é a típica americana que tem uma visão bem específica da França. Voltando ao momento Hedda, Olivia chegou em Paris e não teve beijinho na mão, galanterias e nada do que esperava. Na verdade, aquele frenchman que a esperava tinha um olhar desanimado e, ao que parecia, não falava uma palavra de inglês. Ela não falava francês. Que delícia de salada. Eles voltariam a se reencontrar à caminho do festival. Olivia começou a reparar que Pierre aparecia sentado perto dela magicamente em praticamente todos os eventos sociais. No táxi para a casa, Galante já segurava sua mão e falava inglês. Dali para o casamento demorou um ano. Porque a França a vigiava. Sim, você não leu errado, a França vigiou Olivia de Havilland durante um ano. Por ser uma divorciada recente, ela teve de esperar um ano para poder casar. Ah, as leis francesas.

O affair da lei francesa não é o primeiro indício do choque cultural sofrido por Olivinha na França. A imagem de seu futuro marido contrasta drasticamente com aquilo que ela esperava de um francês. Tudo que ela pensa sobre a França vai caindo por terra aos poucos. Todas suas peripécias são narradas de uma maneira bastante engraçada, como se Olivia nos convidasse a rir de sua própria ingenuidade. É interessante notar como ela representa um papel bem específico nesse livro: o de cidadã americana orgulhosa de sua origem e que aponta para a cultura do outro com certo olhar de surpresa, o típico olhar do colonizador eu diria. Apesar de ter ido morar na França, ela deixa bem claro durante o livro que ama suas origens e que lutava constantemente para que seu filho, que falava inglês macarrônico igual ao ator Charles Boyer, desenvolvesse esse orgulho, ainda que ele não estivesse sendo criado em solo americano. Deve ser por isso que De Havilland não foi expatriada de Hollywood, pois gostava constantemente de lembrar que era uma “cidadã americana em solo francês”. Os americanos são lendários pela falta de cultura, e confesso que algumas vezes notei esse vazio cultural em Olivinha. Vocês podem me responder na caixa de comentários se exagero, mas ela não sabia o que foi a época da Restauração. Além disso, desconhecia completamente que existia uma fórmula que convertia graus celsius para fahrenheit, chegando até a ser xingada em pleno jornal por ter se “vangloriado” em criar uma fórmula que já existia. Mas quer saber? Não importa se ela não sabe o que foi a Restauração, é impossível não se encantar com sua narrativa leve e irônica. É como se estivéssemos conversando com ela, em um momento do livro, ela para de contar a história – isso aconteceu quando os pintores pintaram sua casa de amarelo limão e ela quase teve um filho ao ver o estrago feito por eles– para pegar uma aspirina. Outra prova de que Olivia nada tem a ver com Melanie, a personagem de E o vento levou pela qual ficou conhecida, é o momento em que resolve se vingar dos franceses, que toda vez em que ela ia a uma loja e pedia algo diziam ça n’existe pas en France (isso não existe na França). Um dia fazendo compras, Olivia decidiu parar para descansar. Sentou-se em um colchão para dar uma olhada na lista de compras. Uma francesa se aproximou e lhe perguntou sobre um artigo da loja. Com toda sua finesse, Olivia olhou para ela e soltou: ça n’existe pas en France!

 
O índice. Sintam a ironia dos títulos desses capítulos!

Every frenchman has one é uma aula sobre cultura francesa. Ao longo dos 20 capítulos, De Havilland discute a diferença entre o tratamento dado para os seios pela França e Estados Unidos, as francesas que nunca pedem para ir ao banheiro, a medicina milagrosa francesa entre outros. As gafes cometidas por ela são lendárias, tornando o livro ainda mais divertido de ler. O número de vezes que Pierre Galante deve ter apertado a mão da esposa para salientar que ela estava cometendo uma gafe deve ser incontável. Esse sim não deveria ter um momento de tédio com uma esposa como De Havilland. O mais interessante desse livro é que tudo que ela conta faz parte da vida cotidiana francesa. Nada desse mememe para turista, Olivia fala é do dia-a-dia mesmo. Se você vai viajar a França, nunca ande sozinha no Bois de Boulogne à noite. Porque lá é a Farrapos/Rua Augusta francesa e Tia Olivinha descobriu isso da pior forma possível.

 
Ficou com gostinho de quero mais? Então te cadastra na Open Library e boa leitura! 

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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