Como não perder essa mulher (2013)

Como não perder essa mulher (2013)

Vivemos hoje na era do supérfluo, das coisas artificiais, objetivas e cada vez mais dinâmicas, e isso, obviamente, não poderia deixar de se refletir na forma como lidamos com os relacionamentos amorosos. O caso dos aplicativos que permitem ao usuário avaliar o desempenho e a aparência dos seus parceiros e que gerou polêmica recentemente, está aí para provar isso. Nesse contexto, Don Jon, a estreia de Joseph Gordon-Levitt na direção, mostra como essa artificialidade aliada às expectativas criadas (muitas vezes sob a influência da mídia) acaba prejudicando a visão que se tem do parceiro ideal e dos relacionamentos em geral.

Atualmente em cartaz nos cinemas do país, o filme tem sido vendido como a história de um viciado em pornografia e com o título enganoso Como não perder essa mulher que, acho, deve ter causado muitos constrangimentos para quem acreditava se tratar de mais uma comédia romântica convencional. Mas o filme vai muito além disso.

Primeiramente, não é uma comédia romântica. Não é sobre um casal, mas sim sobre Jon, um rapaz que é, de fato, viciado em pornografia de tal maneira que prefere os vídeos ao sexo real. Não que isso interfira em sua caça diária por diversão, saindo com os amigos e avaliando com eles as mulheres que cruzam seu caminho. Mesmo levando para casa todas as beldades possíveis, ele não consegue dar uma escapada para assistir a sua dose diária de pornô. E, talvez, esse tenha sido o problema de muitas pessoas que disseram detestar o filme: de maneira frenética as imagens dos filmes pornográficos aparecem na tela, como a representação do que acontece na mente de Jon; é quase como um ritual sagrado para ele, a escolha certa do vídeo, a hora certa. E essas cenas aparecem na tela explicitamente e repetidamente, assim como ele vai até a igreja toda semana e se confessa para o padre, ou como ir jantar com sua família, ou mesmo sair com seus amigos para procurar a parceira da noite.

There’s only a few things I really care about in life. My body. My pad. My ride. My family. My church. My boys. My girls. My porn. 

E assim somos apresentados ao personagem machista, que vive essa rotina – que é repetida à exaustão na tela – que inclui xingar tudo e todos enquanto dirige. Durante a rotina notuna, em meio a bebidas e festas, Jon conhece Barbara (Scarlett Johansson). No entanto, ele não consegue levá-la para casa. Imaginando que era disso que precisava para mudar, ele decide que chegou a hora de assumir um compromisso sério, e, sendo Barbara uma moça ~~séria~~ e, além de tudo, uma loira magnífica (segundo Jon, nota 10 em sua primeira avaliação visual), vai atrás dela. Os dois iniciam um relacionamento, e a primeira atitude de Barbara é tentar mudar o namorado. Primeiro: só fará sexo, se ele se matricular no curso noturno. Depois, tenta o obrigar a todo o tipo de coisas, sempre fazendo prevalecer as suas vontades, seja na hora das compras, seja na hora de assistir filmes melosos e previsíveis. Apesar de satisfeito sexualmente, Jon não abandona a pornografia, e logo é descoberto pela namorada, que termina o namoro com ele na segunda vez que o flagra. Seu vício não passa despercebido para a sua estranha colega de curso, Esther (Julianne Moore), que tenta a todo custo iniciar um diálogo com o rapaz, mas é sempre evitada. Julianne, aliás, é uma das melhores coisas que Don Jon traz.

 

Arrasado com o término do relacionamento, Jon aprende da forma mais inesperada que as altas expectativas criadas podem cegar uma pessoa a tal ponto, que ela prefere o irreal ao real: seja com os filmes pornôs, seja como Barbara e seu príncipe perfeito dos filmes românticos. Ou seja, é normal que se criem esses modelos, mas é necessário separar o sonho da realidade. E, acima de tudo, aprender a aproveitar o momento de verdade. Jon jamais tinha se entregado de maneira verdadeira; seus relacionamentos eram todos unilaterais. Tratando as mulheres como objetos, não se satisfazia com elas. A partir do momento que consegue mudar seu ponto de vista em relação as mulheres, ele também muda sua condição amorosa e, consequentemente, torna-se uma pessoa melhor. E é esse crescimento do personagem que acompanhamos durante o filme. E não de forma piegas e batida; muito pelo contrário. O filme consegue surpreender e o desenrolar da trama é inesperado.

Don Jon foi uma grata experiência, apesar do título horrendo em português e das críticas dúbias, que desanimam qualquer um. Com boa dose do humor, em um gênero que vive uma fase mais do mesmo, o filme traz um ótimo elenco (a clássica família ítalo-americana de Jon é um dos pontos altos. A irmã mais nova representa muito o modelo dos adolescentes dos dias atuais, e os pais são um caso à parte). A trilha sonora e a boa edição completam o quadro. Don Jon é quase uma fábula moderna sobre aprendizado, crescimento e, sobretudo, amadurecimento na forma de lidar com os relacionamentos. E o que ele aprende também pode ser útil para quem assiste. Sonhar é ótimo, é essencial, mas projetar todas as suas expectativas em uma pessoa claramente não dá certo, como Jon e Barbara nos mostram com suas exigências e planos irreais, inalcançáveis.

Deixar a busca pela perfeição de lado e aceitar o que a vida oferece, aproveitar todos os momentos, se entregar de corpo e alma, eis a mensagem de Don JonDefinitivamente, Joseph Gordon-Levitt, o eterno rejeitado de 500 dias com ela, estreou com o pé direito na carreira do diretor. Ele certamente conseguiu uma espectadora ansiosa por seus próximos projetos.

Escrito por Camila

Formada em Letras e na Academia Douglas Sirk de sofrência e pregadora na Igreja Universal do Reino de Woody Allen. Uma professora de inglês apaixonada por musicais. Faz parte da Comissão de Avaliação, Seleção e Fiscalização, na área de Cinema e Vídeo, do Financiarte de Caxias do Sul.

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