Blue Jasmine (2013)

Blue Jasmine (2013)

Depois de uma fase europeia – com filmes rodados em Londres, Barcelona, Paris e Roma – Woody Allen está de volta às origens. Filmado em San Francisco, Blue Jasmine é, com toda certeza, um dos melhores filmes dos últimos tempos, e, mais ainda, um dos melhores de Woody. Uma das marcas do diretor são, sem dúvida, personagens femininas marcantes, e Jasmine é uma delas – os homens dos filmes de Allen são geralmente uma variação da personalidade do próprio diretor.

Woody jamais escondeu sua paixão por alguns personagens do cinema – Rick Blaine, de Casablanca é um deles, sendo mostrado sempre como um ídolo e um modelo em seus filmes. Outra que vi várias vezes ser mencionada não só nos filmes de Allen, como também em seus contos, foi a icônica Blanche DuBois, vivida por Vivien Leigh em Uma rua chamada pecado (1951). A personagem, conhecida pelo desejo de escapar da realidade através da farsa apareceu, por exemplo, sendo imitada por Woody em O dorminhoco (1973). Mas, em Blue Jasmine temos uma livre e moderna adaptação da peça de Tennessee Williams. E se Vivien Leigh ganhou merecidamente o Oscar por viver Blanche, o mesmo podemos esperar de Cate Blanchett com Jasmine. Então, amigos, puxem suas cadeiras e esperem, pois acho que temos a vencedora do ano que vem.

Jasmine, uma socialite consideravelmente fútil, absurdamente rica e no topo do mundo, vê tudo ao seu redor desmoronar quando seu marido bilionário e mau-caráter Hal (Alec Baldwin, na minha opinião meio que interpretando a si mesmo) é pego pelo FBI por uma série de golpes financeiros. Falida, tudo o que resta para ela é sua irmã, Ginger (Sally Hawkins), com quem não se dá exatamente bem, e que, na verdade, não é sua irmã – as duas foram adotadas pelo mesmo casal, e cresceram juntas com certa hostilidade (“Ela tinha os bons genes“, diz Ginger, claramente ressentida). Assim como Blanche, Jasmine chega à San Francisco frágil, mas não deixa de exibir certo desprezo pela casa da irmã e suas maneiras. Apesar disso, ela tenta de todas as formas seguir em frente – mas sem descer do salto, é claro.

Uma das coisas mais interessantes de Blue Jasmine, é a forma que Allen encontrou para contar a história. Estamos com Jasmine no presente e, do nada, alguém fala algo que relembra Jasmine de outro tempo, e – tchanãã! – a narrativa volta pro passado, e, não raramente, ao final de suas reminiscências, ela acaba falando em voz alta e sozinha, muito provavelmente no meio da rua.

Ginger é completamente o oposto da irmã. Trabalhando como caixa de um supermercado, ela tem um relacionamento com um casca-grossa asqueiroso e irritante (Bobby Cannavale), uma variação piorada do Stanley Kowalski de Marlon Brando. Jasmine, obviamente, o odeia. O atual parceiro não é muito diferente do ex-marido de Ginger e também do cara com que ela acaba se envolvendo mais tarde. Isso irrita Jasmine, que chama a atenção da irmã para o fato de que ela está sempre escolhendo caras desse tipo para se envolver por não ter confiança em si mesma.

You choose losers because that’s what you think you deserve and that’s why you’ll never have a better life.

Nesse meio tempo, Jasmine se vê obrigada a arrumar um emprego, e como não concluiu a faculdade, as opções não são muitas. Ela acaba tendo que trabalhar como secretária de um dentista. Mas é óbvio que o mundo real não foi feito para ela – nem ela para ele. Aos poucos, Jasmine vai se fechando cada vez mais dentro de si mesma, ao mesmo tempo em que os flashbacks nos revelam mais e mais de sua complexa personalidade. Por fim, parece que a saída ideal aparece num passe de mágica. Mas será o suficiente para ela?

Jasmine não é um daqueles personagens de Woody Allen que nos despertam pronta simpatia – como o Guy de Meia-noite em Paris (2011), por exemplo. Na verdade, durante o filme ela produz as mais diversas reações no espectador: raiva, pena, amor, e mesmo vontade de ajudá-la. E quando o filme faz rir dela, é quase como se você se sentisse culpado por isso, pois é trágico. Jasmine vive envolta nessa aura de drama e cujo passado continua a consumir o presente e a impede de prosseguir corajosamente. O mundo é cruel demais para as pessoas como Jasmine.

Por fim, vale destacar que o filme traz uma das melhores – senão a melhor – atuações de Cate. A escolha dela para o papel da frágil Jasmine foi perfeita, pois é impossível não ver Blanche em Jasmine durante o filme. Não que seja uma caricatura, longe disso. Cate conseguiu passar muito bem essa sensação de perda, vazio e inconformidade da personagem de aceitar a vida como ela é, nua e crua. Como resultado, um aroma de Oscar paira no ar: ela merece, e muito!

Woody Allen é um dos meus diretores favoritos – mais do que isso até, ele é quase como que um amigo meu. Já é uma tradição anual ser uma das primeiras da fila do cinema para ver seus filmes. Acho que porque, lá do jeito dele, Woody sempre consegue falar ao meu coração. Eu me encontro nos seus diálogos e nos seus personagens; eles são como lar para mim. Com Blue Jasmine  não poderia ter sido diferente, e quando sai do cinema, tive vontade de voltar correndo e ver tudo de novo, e por fim dizer para a Jasmine que aparece na última cena: eu te entendo tanto!

Escrito por Camila

Formada em Letras e na Academia Douglas Sirk de sofrência e pregadora na Igreja Universal do Reino de Woody Allen. Uma professora de inglês apaixonada por musicais. Faz parte da Comissão de Avaliação, Seleção e Fiscalização, na área de Cinema e Vídeo, do Financiarte de Caxias do Sul.

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