A felicidade não se compra (1946)

A felicidade não se compra (1946)

Strange, isn’t it? Each man’s life touches so many other lives. When he isn’t around he leaves an awful hole, doesn’t he?

A Segunda Guerra Mundial rendeu muitos lucros para Hollywood, como não poderia deixar de ser, já que o cinema serviu na época como propaganda de guerra, e os filmes eram exportados para os países aliados, pois, devido ao esforço de guerra, os orçamentos de filmagens nesses lugares eram limitados. Além disso, muitos artistas viram sua vida mudar com a guerra, como o caso de Clark Gable, que perdeu a esposa durante o conflito, a atriz Carole Lombard, que estava em um avião abatido por engano pelos alemães. Abalado, ele se juntou aos soldados e combateu durante um longo período. Vários outros artistas estiveram envolvidos de uma forma ou de outra, e um deles foi James Stewart, que se alistou logo no início da guerra. A violência do conflito deixou sua marca no ator, que, após o término da guerra, voltou para os Estados Unidos desiludido e decidido a abandonar o cinema de vez.

No entanto o seu amigo, o diretor Frank Capra, estava planejando aquele que seria seu último filme na RKO, e só conseguia ver Jimmy no papel do protagonista. Em consideração ao amigo, ele acabou aceitando, e assim nasceria um dos maiores clássicos natalinos de todos os tempos: A felicidade não sem compra (It’s a wonderful life). Um verdadeiro conto de Natal, repleto de cenas memoráveis e que se tornaria referência, o filme mostra como uma pessoa pode fazer a diferença na vida de outras e na importância de se ter amigos verdadeiros.

O cinema do pós-guerra foi, obviamente, influenciado pelos efeitos do conflito, em uma época em que as pessoas ainda se recuperavam de tudo o que havia acontecido. O sentimento de melancolia e desilusão permeava boa parte dos filmes da época, e com A felicidade não se compra não foi diferente. A começar pelo tom sombrio da interpretação de James Stewart. A guerra deixara muitas cicatrizes na alma do bom moço de Hollywood, e isso se reflete na atuação dele como o bondoso George Bailey.

No filme, Bailey é o alvo de um atrapalhado anjo de nome Clarence, que precisa realizar uma última tarefa a fim de conseguir suas asas. É noite de Natal, e na cidade de Bedford Falls muitas orações são feitas e todas elas mencionam George Bailey, que, aparentemente, está com sérios problemas. No entanto, antes que o problema seja esclarecido, somos convidados a mergulhar na história do rapaz e nos momentos que provam toda a bondade e altruísmo, que são duas das marcas mais fortes de sua personalidade. Já na infância, ficamos sabendo de um acidente que o deixou surdo de um dos ouvidos, ao salvar o irmão mais novo, Harry. Além disso, conhecemos Mary, que desde criança é apaixonada pelo sonhador Bailey.

 

Anos mais tarde, já adulto, George sonha em explorar o mundo e prepara-se para viajar. Ele tem quase 30 anos, e ainda não conseguiu deixar a cidade, pois precisa ajudar seu pai no banco. Todos seus amigos já estão formados e voltando para cidade, mas ele ficou para trás, sempre levando em conta os que estão em volta e nunca seus próprios sonhos. Por fim, por mais uma injustiça da vida, ele precisa desistir, definitivamente, de sua viagem e de todos os seus planos.

É possível perceber o quanto George é querido por todos na cidade. Bem, quase todos, pois o milionário/vilão, Mr. Potter (Lionel Barrymore), é egoísta, solitário e mau, e faz de tudo para tirar o pouco que os outros moradores de Bedford Falls tem. É por causa dele que, após o casamento com Mary, George é impedido mais uma vez de viajar e precisa assumir o banco de vez, depois de mais um golpe de Potter. É interessante observar como Capra associa a riqueza à maldade e a pobreza à bondade; acaba sendo uma de suas marcas registradas. Potter é o rico avarento e ruim; Bailey, sua antítese, um homem, que apesar de pobre, ajuda todos na cidade a terem casa própria, fazendo empréstimos em seu banco sem garantias ou cobranças.

Já anos mais tarde, vivendo em uma casa caindo aos pedaços com Mary e seus quatro filhos, George acaba sendo vítima de um roubo de Potter (sem saber), que o deixa arruinado. Ele se vê desesperado: é dia de Natal, e ele sabe que irá para a cadeia e deixará todos na ruína. Por fim, não há outra saída, e Bailey decide se suicidar, pois assim, pelo menos, Mary receberia o dinheiro do seguro, podendo salvar a todos. O desespero de George, aliás, não passa desapercebido para ela, que, apesar de tudo, sempre admirou e apoiou o marido. Então, entra em cena Clarence, que tenta a todo custo convencer George sobre o erro que irá cometer se suicidar. No entanto, ele não acredita em uma só palavra do que o anjo diz, e não desiste de seu plano. Para provar a Bailey o seu ponto, Clarence realiza o seu desejo: uma nova Bedford Falls surge e nela George jamais nasceu. É claro que ele acha que tudo é loucura, mas ao voltar para a cidade, aos poucos ele percebe que tudo mudou e ninguém mais o reconhece.  Bedford Falls é agora uma versão feia de si mesma, chamada Pottersville. O desespero de George cresce, e ele começa a se dar conta da besteira que fez. A situação atinge o seu auge quando ele encontra Mary, que nessa versão, sem George, é uma bibliotecária triste e solteirona. Além disso, como ele nunca existiu, não estava lá para salvar seu irmão Harry, que morreu ainda criança, e, como resultado muitas outras pessoas morreram – já que Harry Bailey não estava lá para salvá-los na guerra.

George logo percebe que qualquer problema que tenha não é pior do que não poder estar junto de sua família, de seus amigos e de sua adorada Bedford Falls. Ele foge da multidão enraivecida que o persegue, e volta para a ponte onde tudo começou. Lá ele reza e implora para que Clarence o deixe voltar para a sua vida, não interessando o que acontecesse. Quando percebe que está de volta, George fica radiante, e sai gritando como um louco, rendendo uma das cenas mais emocionantes da história do cinema. Provavelmente, nesse ponto você começará a chorar; é impossível não se emocionar e se deixar contagiar pela felicidade genuína de Bailey, desejando feliz natal aos moradores da cidadezinha.

George vai correndo para casa procurar seus filhos e Mary. Chegando lá, a polícia o espera para prendê-lo, devido a falta de dinheiro (roubado por Potter) no banco, considerada fraude. No entanto, Bailey está eufórico e abraça as crianças. Mary não está, mas, minutos depois ela aparece, e com ela toda a população de Bedford Falls que, avisados por Mary e comovidos com a situação da família, decidem ajudar: cada um traz um pouco do seu dinheiro. É o agradecimento de todos ao imenso bom coração de George Bailey. Os policiais e os fiscais do banco se comovem e o perdoam: o oficial de justiça até rasga o mandato de prisão. Até mesmo Harry Bailey, que estava em outra cidade volta e presenteia o irmão com o reconhecimento de uma vida toda, e é em nome de toda cidade que ele brinda:

Todos se unem ao coro de Auld lang syne e George recebe um presente especial: o livro As aventuras de Tom Sawyer. Ao abrir uma surpresa: Clarence ganhou suas asas.

“Querido George! Lembre-se: nenhum homem é um fracasso se tem amigos. Obrigado pelas asas! Amor, Clarence.

Não há dúvidas: é um dos finais mais célebres e felizes da história do cinema. No entanto, a alegria contagiante deixa no ar um conflito não resolvido: Potter ainda é mau, ficou com o dinheiro roubado e não é descoberto. Acredito que isso foi feito por Capra intencionalmente para mostrar a diferença crucial entre Bailey e Potter: este último pode ser absurdamente rico, mas ainda é um homem solitário na mesma medida de sua riqueza; já Geoge tem sua família e seus amigos para lhe ajudar, seja qual for o problema.

O filme é hoje constantemente reprisado no período natalino e é um clássico absoluto de qualquer época. Apesar disso, na época o filme foi um fracasso nas bilheterias, talvez por causa do sentimento das pessoas após a guerra não condizer com o que é mostrado na tela. Como consequência, Capra foi despedido da RKO. Mas o filme serviu como o marco do início da segunda fase da carreira de James Stewart, de interpretação mais forte e contrastante com o bom moço dos filmes de antes da guerra. Quem exploraria essa mudança do ator, seria Alfred Hitchcock, que teve em Jimmy um dos seus melhores protagonistas.

A felicidade não se compra serve  para nos lembrar de todos aqueles sentimentos que o feriado de Natal retoma, mas as pessoas parecem esquecer no resto ano, e, além disso, Capra enaltece a bondade do homem comum e o valor de sonhar, mesmo que nem tudo vire realidade.

All you can take with you is that which you’ve given away.

Escrito por Camila

Formada em Letras e na Academia Douglas Sirk de sofrência e pregadora na Igreja Universal do Reino de Woody Allen. Uma professora de inglês apaixonada por musicais. Faz parte da Comissão de Avaliação, Seleção e Fiscalização, na área de Cinema e Vídeo, do Financiarte de Caxias do Sul.

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