A Estranha Passageira (1942)

A Estranha Passageira (1942)

Quando Bette Davis ainda era a “galinha dos ovos de ouro” da Warner e havia arrecadado milhões para o estúdio, começou a luta pela escolha dos projetos e papéis que seriam interessantes para ela. Na época já tinha feito uma sucessão de vilãs e manchetes como Ninguém é tão boa quanto Bette Davis quando ela é má começavam a pipocar. Então, quando a Warner comprou os direitos de “Now, Voyager” em 1942, Bette foi ao escritório e disse “Eu escutei que vocês compraram Now Voyager para Irene Dunne, de jeito nenhum, eu preciso de um personagem simpático!”. Após “Nascida Para o Mal” e “Pérfida”, Bette se tornou a heroína do filme de Irving Rapper.

Charlotte Vale (Bette Davis) é digamos, a ovelha negra da família Vale. Nasceu depois de três garotos, fruto de uma gravidez indesejada. Bastante introvertida e considerada a solteirona da família, está a beira de um ataque de nervos. É aí que Lisa, uma tia preocupada tenta ajudar e convida o Dr. Jaquith (Claude Rains), um renomado psiquiatra para uma visita.


Charlotte foi reprimida desde a juventude pela mãe, de valores tão tradicionais como sua forma de coordenar a casa. Dr. Jaquith percebeu isso, e chegou a mencionar
“Não há nada como estas casas de Boston em lugar nenhum. Se erguem como bastiões, firmes, orgulhosas, resistindo ao novo. As casas voltam-se para si mesmas, abraçando seu orgulho”, certamente a colocação também serve para seus habitantes.

“Nenhum membro da família Vale jamais teve um colapso nervoso”, se defende a Sra. Henry Vale, como estava evidente que Charlotte teria um, é enviada para passar algumas semanas em Cascade, clínica psiquiátrica comandada pelo Dr. Jaquith.

O nome do filme é inspirado numa citação de Walt Whitman: “Imenso vazio nunca preenchido pela vida e pela terra. Agora, viajante, veleje adiante, para procurar e encontrar.”

Após permanecer 6 meses em Cascade, Charlotte é influenciada a se interessar por tudo, pessoas e lugares novos. Em um cruzeiro, ela precisa dividir o veículo em terra com Jerry Durrance e acabam se conhecendo melhor. Ele é casado desde muito jovem e tem três filhos com Isobel, uma esposa indulgente. Um momento cômico, quase inusitado é quando o cruzeiro chega ao Brasil, onde permanece por alguns dias. É possível ver algumas imagens do Pão de Açúcar e do Cristo Redentor, os tripulantes ainda se metem numa confusão com um atrapalhado taxista que não fala inglês, impagável!

Conforme Charlotte e Jerry se conhecem, ele descobre que no passado Charlotte era a “tia solteirona”, pouco atraente e a piada da família Vale. Nesse momento, ele conta sobre Tina, sua filha caçula, que também tem dificuldades de adaptação. Essa cumplicidade só os aproximou e fez com que se apaixonassem. Mas se trata de um romance impossível, já que ele não pode abandonar as responsabilidades com a família e Charlotte precisa colocar em prática as técnicas que adquiriu em Cascade, voltar para casa e enfrentar a mãe controladora.

O choque de amigos e familiares, graças não só a mudança física mas quanto a postura de Charlotte perante a vida surpreende a todos, inclusive sua mãe, que esperava ter a acompanhante introvertida de volta, mas encontra uma “pessoa” diferente. Surgem novos eventos e possibilidades, mas tudo ao redor de Charlotte parece trazê-la de volta à Jerry.

“Now, Voyager” tornou-se um romance inesquecível, retrata a psicanálise de maneira eficaz e foi um filme necessário, principalmente naquele período. A solidão de Charlotte, sua auto-estima inexistente e a necessidade de ser amada, está tudo ali. Fãs da Bette Davis podem se sentir orgulhosos, por que ela escolhia a dedo seus projetos e esse foi um grande filme para ela, um dos maiores. Não quero entrar na discussão sobre tabaco, mas a cena em que Jerry acende dois cigarros e entrega um à Charlotte, no contexto, era extremamente glamouroso! Diálogos e cenas icônicas que serão lembradas e reproduzidas incansavelmente.Curiosidades:

– A escolha do diretor principiante em Now, Voyager foi sugerida pela própria Bette Davis, que na época já tinha autonomia para opinar sobre seus próximos projetos. Ela reparou em um jovem assistente de direção chamado Irving Rapper e achou que seria a hora dele ter sua grande chance e dirigir o filme. Certamente, só o fez por que sabia que poderia manipulá-lo. Dizem as más línguas que ela submeteu o pobre coitado ao inferno, durante as filmagens. No fim das contas, A Estranha Passageira foi um sucesso de bilheteria e acabou sendo tão positivo para ele, quanto para a atriz.

– Em 1971, Bette Davis foi homenageada em um episódio do This Is Your Life e reencontrou diversas estrelas, diretores e antigos assistentes. Paul Henreid estava presente e contou sobre o nascimento da famosa cena, onde Jerry acendia dois cigarros e entregava um à Charlotte “O script dizia que eu deveria oferecer um cigarro a Bette Davis, eu pegaria outro para mim, então acenderia o cigarro dela, depois o meu. Então, sugeri para ela sobre simplificarmos o gesto, acendendo os dois cigarros ao mesmo tempo. Bette adorou, mas o diretor não pareceu muito contente.” e Bette respondeu “Ele costumava não gostar de nada, não é mesmo?”.

– A amizade (e possivelmente algo mais?) entre Bette Davis e Paul Henreid rendeu algumas boas parcerias. Ele voltou a contracenar com ela em Deception (1946) e alguns anos depois viria a dirigí-la em um episódio da série Alfred Hitchcock Presents chamado “Out There Darkness” de 1959. Mais tarde, Paul dirigiu Alguém Morreu em Meu Lugar (1964), filme em que Bette interpreta as irmãs gêmeas Margaret e Edith.

– Depois de um teste considerável, Hal Wallis decidiu contratar Janis Wilson, de apenas 12 anos de idade para o personagem de Tina em “A Estranha Passageira”. Era seu primeiro papel no cinema. Durante uma filmagem em Lake Arrowhead, na Califórnia, Bette e Janis saíram para um passeio de canoa. Após se distanciarem uns 35 metros da costa, o barco virou e Janis, que mal sabia nadar foi socorrida por Bette. De volta à praia, Bette ganhou um beijo de gratidão da mãe da garotinha. Bette Davis escolheu Janis Wilson para interpretar sua filha, em seu próximo filme Horas de Tormenta.

Now, Voyager foi lançado durante a Segunda Guerra e foi assistido prioritariamente pelo público feminino. O estúdio sabia disso e acertou quando decidiu retratar a psicanálise, chamando Claude Rains, um dos co-star favoritos de Bette para interpretar o Dr. Jaquith.
– Gladys Cooper recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor atriz coadjuvante, pela interpretação da mãe intolerante e controladora. Cooper foi uma das pioneiras nessa categoria (de velhas tiranas), que viriam ainda a ser muito exploradas, inclusive por Bette Davis.

Bastidores:

Acima, uma íncrível foto dos bastidores onde Paul Henreid e Bette Davis
se preparam para uma cena do cruzeiro, ao lado do diretor Irving Rapper.
Na primeira foto Bette e Paul parecem estudar o roteiro no intervalo das gravações, na esquerda Paul Henreid se preparando para entrar em cena. Embaixo, na esquerda, Bette saindo do camarim no set de Now, Voyager. E por último, um teste de penteado descartado (felizmente).


Imagens promocionais:

As fotos promocionais utilizadas para divulgação na época, exibiam o penteado moderno usado por Charlotte em “Now, Voyager” e estão entre as mais marcantes de Davis. Quem não lembra da comunidade “Bette Davis te despreza” no extinto orkut?

Escrito por Guilherme

Still tryin' to find my place in the sun.

Comentários

Comentários

2 Comentários
  • Cine Espresso disse:

    Gui, depois de finalmente assistir “Now, voyager”, tive que voltar e reler o post – coisa que sempre faço com os filmes que os dois indicam – e, nossa! Amei tudo, tudo! A cena onde Jerry acende os dois cigarros é muito… sexy! hahaha. Aliás, Paul Henreid antes era meio whatever pra mim, mas depois desse filme, estou encantada por ele. Acho que a indiferença de antes era por causa do personagem dele em Casablanca, e em Now, voyager ele é maravilhoso. Acho que a química com a Bette ajudou muito.

    Parabéns de novo pelo post! 🙂

    (Camila)

    • Guilherme Toffoli disse:

      Camis, só vi esse comentário hoje, em maio HAHA feliz que tu curtiu tanto o post e voltou pra dar uma olhada! Realmente, só notei o Paul Henreid de verdade em “Now, Voyager”, a cena do cigarro e os diálogos no cruzeiro <3333

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