Que papai não saiba (1938)

Que papai não saiba (1938)

O período clássico do cinema hollywoodiano guarda muitas pérolas hoje pouco conhecidas, sobretudo no gênero comédia romântica. Em conversas e vasculhando o Filmow muitas vezes descubro essas preciosidades, e invariavelmente escapa a seguinte exclamação: “NÃO ACREDITO QUE ESSES DOIS FIZERAM UM FILME JUNTOS!!!”. Esse foi o caso de Vivacious lady (Que papai não saiba), que traz dois dos mais amados ídolos da época juntos: Ginger Rogers – muito mais do que só a parceira de Fred Astaire, como é lembrada hoje – e James Stewart – o eterno cara legal, com seus olhos de cachorrinho que caiu da mudança. Lançado na época em que o Código Hays proibia praticamente de tudo nas telas do cinema, esse filme traz como um de seus temas o ardor de um jovem casal que não consegue consumar o casamento. Dirigido por George Stevens, Vivacious lady conseguiu dar um baile na censura dizendo com olhares e gestos o que não poderia ser colocado em palavras.

Tudo começa da maneira mais inconvencional possível: o certinho professor e filhinho da mamãe, Peter Morgan (James Stewart) vai até uma boate para buscar o seu primo festeiro Keith (vivido por James Ellison). Esse não quer ir embora de jeito nenhum, pois quer esperar a cantora do estabelecimento, Francey (Ginger Rogers), por quem nutre uma paixão platônica. Assim, Keith inventa uma mentira qualquer para fazer com que seu primo o deixe em paz, o que só provoca o efeito inverso: Peter fica para ouvir Francey, e acaba encantado pela cantora. Ao final da apresentação, ele a convida para jantar.

Nada impulsivos, eles passam a noite vagando pelas ruas da cidade, conversando, e, pela manhã, se casam. O dilema de Peter agora é como apresentar à noiva para seu temido pai, já que o mesmo é um respeitado e conservador reitor da universidade local da cidadezinha de interior. Há uma certa tensão sexual entre os dois desde o início, e talvez isso explique o casamento apressado, já que Peter Morgan não faz o tipo andar fora da linha. Após o casamento, os dois pegam o trem com destino à cidade natal de Peter. O problema é que, durante a viagem, o casal não consegue um momento adequado para começar a lua de mel, já que houve um engano, e a cabine reservada está com um casal rabugento. Sem saída, são obrigados a deixar a cabine e ocupar um lugar qualquer no trem. Qualquer tentativa de intimidade do jovem casal é prontamente reprimida durante a viagem; eles acabam chegando ao destino sem ter consumado o casamento.

Chegando à Old Sharon, o pai  e a noiva de Morgan o esperam, o que deixa Francey indignada. Não querendo fazer uma cena na estação, Peter decide não contar sobre o casamento ali. O casal resolve fingir que Francey é a esposa do primo. Sem querer, a loira acaba cometendo uma gafe atrás da outra, o que só faz com que o pai de Peter tenha uma péssima impressão dela e comente com o filho: “Ainda bem que ela não é sua esposa. Sei que você é sensato o suficiente para isso!”. Claro que isso só adia o momento de contar a verdade, e ele parece nunca chegar. E esse é o plot de Vivacious lady: será que o tal momento de dizer ao pai que se casou com uma cantora de boate chegará algum dia? No ápice do desespero para ficarem juntos, Francey se matricula nas aulas de Peter, e o mais engraçado disso tudo são as tentativas do casal de esconder o desejo que sentem do restante da turma.

Enquanto ele não chega, somos presenteados com uma série de gags e cenas memoráveis: Francey em uma hilária cena de luta com a noiva, depois de ser devidamente provocada; Peter dando aula incrivelmente bêbado, enquanto seu pai passa de sala em sala na universidade acompanhado por fiscais, e depois de ter passado o tempo todo elogiando o filho para os homens; Francey, a mãe e o primo de Peter dançando juntos; Peter escalando a janela do hotel onde Francey está hospedada; e, o melhor de tudo, o que mostra o qual brilhante é a metalinguagem desse filme: enquanto estão discutindo no quarto, Francey e Peter são interrompidos pela cama embutida na parede, que cai quando uma porta bate ou qualquer outro movimento brusco ocorre. Lá pelas tantas, a cama para de cair, e os dois começam a bater portas de propósito enquanto conversam, na tentativa de fazer com que a cama desabe de vez. Quando ela ameaça cair definitivamente, os dois trocam olhares significativos, ela decide não deixar a cidade, a porta bate, a cama cai da parede, eles se abraçam… e são interrompidos novamente pelo gerente do hotel.

Vivacious lady foi uma das melhores descobertas cinematográficas que fiz esse ano. Uma comédia despretensiosa e deliciosa de se assistir, com ótima direção e elenco, e, sobretudo, muita química do casal de protagonistas. (Atenção para o momento Louella Parsons desse post!). Química essa que se explica talvez pelo fato de que Ginger e Jimmy tinham um caso na época, caso esse que durou muito tempo – mesmo quando os dois saíam com outras pessoas. Stewart só foi sossegar o facho com o casamento dez anos mais tarde, com Gloria Stewart, com quem ficaria casado até a morte dessa nos anos 90. Sobre Ginger, a fofoca que corre e que foi reafirmada em uma biografia de Jimmy, é que ela foi a primeira garota dele, de fato. Estou aqui usando a linguagem permitida pelo Código Hays pra contar que foi com a eterna parceira de Fred Astaire que James Stewart perdeu sua virgindade. O caso durou até pouco depois do término das filmagens. O destino faria que, um ano depois, eles se reencontrassem na noite de premiações da Academia, em 1940, ano em que o dois ganharam os prêmios de melhor atriz e ator – ela por Kitty Foyle, ele por The Philadelphia Story. Dizem que ele sofreu com o término do affair – mas logo, logo Jimmy encontraria consolo nos braços de Olivia De Havilland. Mas aí já é outra história que merece um post próprio. Fofocas à parte, Ginger e Jimmy funcionam maravilhosamente como casal nas telas, e seguram Vivacious lady do início ao fim. Ele se afirmando em Hollywood como um dos melhores atores de todos os tempos, e ela adorável, provando ser muito mais do que a parceira de Cheek to cheek de Fred Astaire. Um filme memorável, incrivelmente engraçado e que merece ser colocado em sua lista, o mais rápido possível.

Escrito por Camila

Formada em Letras e na Academia Douglas Sirk de sofrência e pregadora na Igreja Universal do Reino de Woody Allen. Uma professora de inglês apaixonada por musicais. Faz parte da Comissão de Avaliação, Seleção e Fiscalização, na área de Cinema e Vídeo, do Financiarte de Caxias do Sul.

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