Quanto mais quente melhor (1959)

Quanto mais quente melhor (1959)

Esse sexo é completamente diferente!

– Vamos, ninguém está querendo que você tenha um bebê.
 

Ninguém é perfeito, é claro, mas na mais famosa comédia de Billy Wilder, todos os envolvidos estiveram bem perto de ser.

Elaborar uma lista de melhores filmes é tarefa das mais ingratas. Sempre que você começa a planejar, há a possibilidade de esquecer algum e se odiar por isso mais tarde. Além disso, as listas foram criadas para serem discutidas. E, é claro, existem pouquíssimas unanimidades nesse sentido no que se refere ao cinema. Uma dessas exceções é Quanto mais quente melhor. Eu me atreveria até dizer que nove de dez pessoas que amam o cinema incluiriam-no em suas listas de melhores de todos os tempos. E, sim, essa maravilha realmente merece isso. Explicarei o porquê disso.

Frequentemente considerada a melhor comédia já feita, Quanto mais quente melhor deve o seu mérito ao  mentor/guru/diretor/roteirista, Billy Wilder, logo ele, que transitou por quase todos os gêneros, e que amava isso, afirmando que, assim como não fazia as refeições todas no mesmo restaurante, não fazia filmes de um só tipo. E assim como Howard Hawks, Wilder se deu muito bem dessa maneira. Com esse filme do final da década de 1950 não foi diferente.

A premissa de Quanto mais quente melhor é hoje até bem simples:  Joe (Tony Curtis) e Jerry (Jack Lemmon) são dois músicos falidos que trabalham em um bar que tem como fachada uma funerária (a senha para entrar é “vim para o funeral da vovó!“) na Chicago de 1929 (pleno período de Lei Seca). Após ter escapado das mãos da polícia na batida da polícia ao cabaré, a dupla testemunha sem querer o Massacre do St. Valentine’s Day e é perseguida pelos assassinos. Para escapar sem deixar rastros, os dois resolvem se disfarçar de mulher para unir-se à uma banda feminina de jazz, a Sweet Sue.

Joe e Jerry: maré de azar.

Logo Joe e Jerry tornam-se, respectivamente, Josephine e Daphne. Até poderia dar certo, se a líder da banda não fosse a vaporosa Sugar Kane, interpretada por Marilyn Monroe, em um de seus melhores papéis. O grupo vai à Flórida, e Josephine e Daphne fazem amizade rapidamente com as garotas da banda, sobretudo com Sugar, que é uma garota problemática, que bebe além da conta (“eu posso parar se quiser, mas não quero!”) e está em busca de um marido rico.

A caracterização dos dois homens é um caso à parte. Jerry/Daphne entra rapidamente no personagem, falando e agindo como um legítimo exemplar do sexo feminino.

A comédia de erros e coincidências, no melhor estilo Marx Brothers, tem seu ponto de partida quando Daphne desperta a paixão do milionário galanteador Osgood Fielding III (“I’m Cinderella the second.“), interpretado com maestria por Joe E. Brown, ao mesmo tempo que Joe se apaixona irremediavelmente por Sugar, ao ponto de ter que criar um segundo personagem para conquistá-la: o herdeiro da Shell, Junior (uma deliciosa paródia de Cary Grant). A situação chega ao ápice quando os mafiosos que querem a pele dos dois amigos, chega ao hotel onde eles estão para a Reunião dos amigos da ópera italiana (outra fachada, é claro, para acobertar mais um crime da quadrilha).

Daphne/Jerry começa a considerar seriamente a proposta de casamento de Osgood (“quando terei novamente a oportunidade de casar com um milionário?”), enquanto que Joe, na pele de Junior, finge ser um homem sofrido e impotente, tudo para atrair a loura para si, resultando em uma das cenas mais sensuais do cinema.

Aliás, Quanto mais quente melhor, por trás de toda a questão da máfia e da violência, esconde o seu real tema de todas as formas possíveis: o sexo. Seja nos diálogos afiados (“Não são exatamente as costas que me preocupam”), seja na interpretação de Marilyn para I wanna be loved by you, que é, segundo Roger Ebert, “um striptease no qual a nudez é completamente dispensável”, ou no simbolismo sexual oculto em algumas cenas, como quando Sugar esta no suposto iate de Junior, ela deitada por cima dele, “tentando curá-lo de sua frigidez”, o pé de Curtis sobe em uma clara alusão aos sentidos de Joe, ao mesmo tempo em que ele diz “Estou sentindo uma coisa estranha nos meus dedos dos pés, como se alguém tivesse botando fogo neles”, ao que ela responde: “então vamos colocar um pouco mais de lenha na fogueira”. Isso mostra a habilidade e a maestria de Billy Wilder na direção de seus filmes.

Wilder demonstrando para Marilyn como Curtis deveria ser beijado.

É claro que, com MM envolvida os bastidores não foram tranquilos. Todos acreditavam que um filme com travestis não teria público, que Marilyn estava gorda (deselegante, pois ela estava grávida na época – dizem, as más línguas de Hollywood, de Tony Curtis. Oficialmente era de Arthur Miller). Atrasos, faltas, Marilyn esquecendo suas falas (reza a lenda que ela levou mais de 60 takes para conseguir dizer “It’s me, Sugar!”). Tudo isso deixou um clima tenso nas filmagens, com Tony Curtis inclusive afirmando que beijar MM era como beijar Hitler. Apesar de todas as adversidades, Wilder conseguiu tirar o melhor de Marilyn. Além disso, Daphne/Jerry inicialmente seria interpretado por Frank Sinatra, mas – obrigado, Frank! – ele recusou. Ninguém poderia ter feito Daphne a não ser Jack Lemmon, que, em minha humilde opinião, tem as melhores partes do filme. Por fim, o filme teve de ser rodado em preto e branco para dar mais credibilidade à maquiagem de Daphne e Josephine.

O final do filme, claro, é tão importante que faz parte da aura de lenda que o envolve e é um dos mais famosos da história do cinema. Daphne bem que tentou, mas o amor de Osgood não exige a perfeição da mulher amada.

Marilyn e Jack, apesar de tudo, tiveram um bom relacionamento nas filmagens.
Ele era tolerante com seus erros, assim como Billy Wilder.

 

 

Recheados de gags e diálogos fantásticos, Quanto mais quente melhor merece ser visto e revisto muitas vezes, merece o título de melhor comédia de todos os tempos e tem Marilyn no melhor de sua carreira, além de muita química entre os atores, apesar de todos os problemas. Afinal, ninguém é perfeito. Mas Billy Wilder é uma exceção.

Escrito por Camila

Formada em Letras e na Academia Douglas Sirk de sofrência e pregadora na Igreja Universal do Reino de Woody Allen. Uma professora de inglês apaixonada por musicais. Faz parte da Comissão de Avaliação, Seleção e Fiscalização, na área de Cinema e Vídeo, do Financiarte de Caxias do Sul.

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