Crepúsculo dos deuses (1951)

Crepúsculo dos deuses (1951)
Eu sou grande, os filmes é que ficaram pequenos.

Começo esse post de maneira pouco convencional, falando sobre alguém que não tem nada a ver com Crepúsculo dos deuses: Joan Crawford. Quer dizer, ela não tem nada a ver diretamente. Indiretamente Joan tem, sim, muito a ver com esse filme, pois ele representa um momento que ela e outras atrizes estavam vivendo, ou seja, o ostracismo. Ontem estava revendo uma de suas entrevistas para a BBC, em 1965 se não me falha a memória. Em certo momento, ela começa a falar que sente falta de sua época inocente, os doces anos 30. Que tudo estava escancarado naqueles “dias de hoje” (imagina agora então) e que os artistas de sua época tinham um mistério, que ninguém sabia nada sobre a vida pessoal deles e que esse mistério era a graça de tudo. Crawford odiaria Twitter, Instagram e Facebook, mas isso não vem ao caso. O fato é que Crepúsculo dos deuses contém essa amargura, essa nostalgia desse tempo que está suavizado na fala de Crawford. É a visão realista que por vezes nos choca e entristece neste clássico do diretor Billy Wilder.

Para que o cinema falado aparecesse, foi preciso que o cinema mudo morresse. Quer dizer, “cinema mudo” não é exatamente um bom termo, pois os filmes tinham som, a trilha sonora. Só não tinham diálogos. A partir do momento em que os atores começaram a falar, decretou-se a morte de um tipo de atuação exagerada, com maquiagens chamativas e expressões idem para suprir a falta de diálogo. Alguns artistas conseguiram fazer essa transição cinema mudo à cinema falado bem, como Greta Garbo e Joan Crawford. No entanto, para outros aquilo foi o fim de uma carreira, pois não conseguiram adaptar-se a essa nova maneira de fazer cinema. Crepúsculo dos deuses é uma ode a esse tempo dos filmes mudos, que parecia tão distante das pessoas em 1951, imagine em 2013.

A história da atriz decadente de cinema mudo, Norma Desmond (Gloria Swanson), e de sua reclusão em sua casa na Sunset Boulevard poderia ser a história de qualquer atriz daquela época. A começar pela própria Gloria, que tinha uma história muito parecida com a de sua personagem. Norma, assim como Gloria, não conseguira adaptar-se ao cinema falado, teve uma carreira de sucesso nos filmes mudos e andava esquecida. A personagem vive com seu mórdomo, Max (Erich Von Stroheim), que envia cartas a sua patroa como se fossem de fãs. A vida de Norma reside na ilusão, nas saudades dos tempos em que era uma grande estrela. O mundo havia mudado, mas para ela, ele nunca deixaria de ser aquilo que viveu nos anos 20. Sua história se cruza com a de Joe Gilles (William Holden), um roteirista pobre e falido, que vai parar acidentalmente na casa da atriz. Eles se conhecem, e ele acaba aceitando reescrever um roteiro criado por Norma sobre Salomé, descrito por ele como “um amontoado de tramas melodramáticas”. Os anos 20 se foram, contudo, Norma nunca os deixou. As tramas melodramáticas criadas por Norma em seu roteiro são um dos elementos que nos mostram como essa atriz não conseguiu seguir em frente, visto que os filmes mudos eram caracterização pelo excesso do melodrama. Logo que começa a remendar o roteiro da atriz, Joe percebe que está preso numa armadilha. E não sairá vivo dela.
 

O início desse filme é muito parecido com o de Pacto de sangue, outro filme de Billy, em que o diretor já nos dá de antemão o arco do filme, neste caso, a morte de Joe. Alguns podem pensar que toda graça se perdeu, mas acho que não, pois nós temos o fato [a morte] e não sabemos como aconteceu. Você quer saber como aconteceu? Pois assista ao filme! Além disso, outro ponto em comum com Pacto é a narração feita pelo protagonista. Gilles narra sua história com toda a ironia possível, às vezes acho que o personagem se mistura com Billy tamanha amargura de suas críticas dirigidas à Hollywood. Falarei disso a seguir. A primeira cena do filme, em que vemos a polícia chegando a Sunset e o problema que nos é colocado na tela, tornou-se clássica. Isso porque quando a polícia chega, vemos um corpo flutuando dentro de uma piscina. Era Gilles, morto com um tiro. Billy filmou a cena dos policiais olhando o corpo como se a câmera estivesse debaixo d’água, captando o rosto de Gilles morto. Na verdade, essa cena foi filmada com um jogo de espelhos, pois debaixo d’água era impossível executá-la. Ela foi repetida na última versão de O grande Gatbsy, com Leonardo di Caprio, uma ótima homenagem, aliás. Wilder queria começar com Joe nos narrando a história no necrotério, a câmera mostraria o corpo tapado e a etiqueta no pé identificando o morto. Mas a Dona Hollywood jamais permitiria algo tão explícito em relação à morte (lembremos-nos da velha e boa censura), logo a estratégia foi abortada.

Crepúsculo dos deuses está sempre jogando com duas visões distintas de cinema e de época: Norma e Max simbolizando o cinema mudo; Gilles a nova Hollywood. O famoso diálogo, em que a frase que começa esse post é dita, é um claro exemplo desse embate. “Não bastavam os olhos, eles queriam as orelhas. Então eles começaram a falar, falar!”. É muito difícil falar sobre esse diálogo, pois todas as frases são significativas e tocam em feridas de Hollywood. “Destruíram os ídolos, os Fairbanks, os Valentinos!”. Contudo, esse não é o único exemplo desse realismo hollywoodiano de Billy. Na cena em que o protagonista vai a uma festa de ano novo, organizada por seu amigo Artie Green, os convidados estão ao piano cantando a seguinte música:

Hollywood não foi muito boa conosco
Não nos deu piscinas, dinheiro, fama

O ponto alto da amargura hollywoodiana acontece quando Norma vai ao seu antigo estúdio, a Paramount Pictures, entregar seu roteiro de Salomé pessoalmente a Cecil B. DeMille. Aqui novamente vemos a realidade se confundindo com a ficção, pois Cecil era diretor na vida real e até mesmo trabalhou com Gloria Swanson. Ela acredita que o diretor está interessado em seu roteiro, pois o estúdio já ligou mais de dez vezes para sua casa. A ironia é que as ligações foram feitas por causa do interesse da Paramount em usar o velho carro de Norma em um filme de Crosby. A atriz chega ao estúdio, mas o porteiro não quer deixá-la entrar. Um guarda dos tempos de Norma a reconhece e abre o portão. “Ensine boas maneiras a seu colega, Josey. Se não fosse por mim, ele não teria seu emprego”. Aqui começamos a ver o toque de desprezo com que a época de Norma e ela mesma são tratadas pelos outros. O funcionário nem sequer imagina uma vida em que os filmes não são falados, muito menos uma tal de Norma Desmond. Ao entrar no set em que DeMille está rodando um filme, Desmond revive seus momentos de glória. As pessoas se aproximam, perguntam sobre ela. Finalmente, após 30 anos, ela se sente em casa. Enquanto todos a paparicam, o secretário DeMille avisa sobre o incidente com o carro. Em sua fala, podemos ver o desprezo pela era muda. DeMille o repreende dizendo: “Já não basta 20 milhões de fãs terem dispensado-a?”. Norma sai da Paramount crente de que irá conseguir voltar às telas. Mais uma de suas ilusões.

(Gloria Swanson e Cecil B. DeMille)
 

De volta a Sunset, Norma se submete a todo tipo de tratamento estético para ficar pronta para rodar seu filme. Aqui também podemos ver uma crítica à severidade com que Hollywood tratava suas musas, uma vez que elas sempre precisam estar lindas e impecáveis. Só que Norma não era mais uma garota, tinha 40 anos, por isso o negócio seria muito mais difícil para ela. Hollywood, como vocês sabem, descartava suas estrelas quando estas já entravam na casa dos 30, imagina 40! A obstinação com que ela se joga nos tratamentos estéticos revela essa proibição da velhice em Hollywood. É proibido ser velha. Queremos ver rostos jovens, cada vez mais jovens. Assim, Norma poderia muito bem simbolizar Joan Crawford, Bette Davis Barbara Stanwyck e outras estrelas que sofriam por só poder interpretar papeis de “mães” na tela.

As pessoas piraram com Crepúsculo dos deuses. Ninguém gostou. Era como se um balde d’água fria fosse jogado no cinema americano, revelando o pior que havia naquele meio que parecia tão inocente. Talvez  a vinda de Billy ter da Europa e a dificuldade para fazer carreira em Hollywood, tenha contribuído para essa visão  desiludida de Hollywood. Ela não passava de um grande negócio. Os filmes eram negócios, ou rendiam milhões ou eram fracassos. Suas estrelas representavam uma franquia e, no momento em que não representavam mais eram descartadas como lixo.

O tempo tornou Crepúsculo dos deuses um clássico. Billy Wilder merece toda admiração do mundo pela coragem de sambar na cara de Hollywood. Depois, a televisão iria chegar e ocupar o lugar do cinema, era só uma questão de tempo. Ninguém podia ser hipócrita a ponto de negar que uma coisa sucedia a outra. 

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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