Além da imaginação (1959-1964)

Além da imaginação (1959-1964)

 

Quando o canal Universal ainda se chamava USA, os sábados à noite eram dias sagrados para mim. Eu era criança, talvez tivesse uns seis ou sete anos, mas a imagem de uma garotinha loira e sua madrinha deitadas no sofá cor de vinho de um antigo apartamento assistindo Além da imaginação permanece como uma das melhores lembranças da minha infância. Consigo lembrar o medo que sentia quando a famosa música de abertura começava e aquelas sequências de imagens, quase inspiradas no sonho de James Stuart em Um corpo que cai, invadiam a tela. Os anos se passaram, mas Além da imaginação permanece cultuado por fãs de todas as idades e é considerado um dos precursores dos programas/seriados do gênero ficção científica, suspense e terror.

 

Além da imaginação (The Twilight zone) começou como um programa de rádio, escrito pelo dramaturgo Norman Corwin. No entanto, ele se consolidaria de fato como programa de televisão, exibido pelo canal CBS de 1959 a 1964. Mas muita água rolou no moinho até que Além da imaginação surgisse no formato que conhecemos. Em 1958, a CBS comprou um roteiro chamado The time element, pensado inicialmente para ser dirigido por Alfred Hitchcock. Ele contava a história de um sujeito que tinha um sonho recorrente de acordar em Honolulu, pouco antes do ataque japonês a Pearl Harbor. Seu médico não acredita no personagem, que diz poder viajar no tempo. No final do episódio, descobrimos que tudo não passou da fantasia do médico, pois seu paciente havia morrido em Pearl Harbor, sendo impossível que ele pudesse estar consultando. Assim terminava o episódio que definiu o contorno de Além da imaginação, e ele teria ficado engavetado durante anos se não fosse a persistência de Bert Granet, que descobriu o roteiro perdido e resolveu filmá-lo na Desilu, a produtora de Desi Arnaz e Lucille Ball. Quando The time element estreou, começaram a chover cartas para a CBS. Vendo que o tema fazia sucesso entre os espectadores, a CBS começou a conversar novamente com o roteirista Rod Serling para negociar a filmagem de Além da imaginação.

 

A série deu aos americanos tudo que eles mais gostavam: uma dose de paranoia somada à menção a temas atuais. Como assim? Além da imaginação estreou em pleno auge da Guerra Fria, em um momento em que as pessoas viviam a paranoia comunista e a corrida espacial. Se as pessoas já estavam preocupadas com o fato de que uma bomba jogada pelos russos varresse a humanidade, imagine assistir sua imaginação tornar-se “realidade” na série. Além da imaginação sabia que por mais que os americanos tivessem medo de serem exterminados, temas como a morte, viagens no tempo, as dimensões além das que conhecemos fascinavam os espectadores. Eles não podiam evitar, e a CBS sabia que tinha criado uma franquia milionária explorando os medos e paranoias de seus espectadores.

 


Outro trunfo da série é sua produção cuidadosa. No episódio em que Burgess Meredith sobrevive à bomba atômica, a cidade em ruínas reproduzida é impressionante. Em outros episódios, a produção é simplória, o que não o torna pior do que os bem produzidos, pois o que sustenta Além da imaginação são suas histórias surpreendentes, cheias de reviravoltas. A série nunca teve a proposta de ser assustadora, quer dizer, sangue, esse tipo de coisa. Na verdade, o “medo” é provocado por uma espécie de terror psicológico. E se eu acordasse um dia e não houvesse mais ninguém na Terra? E se as penintenciárias ficassem no espaço e eu ficasse sozinho por lá? Como disse no parágrafo anterior, a série explora nossos medos existenciais, medos primários, como a morte, por exemplo.

Além da versão dos anos 60, outras duas foram feitas: uma nos anos 80 e a outra em 2002. Assisti apenas alguns episódios, mas é interessante perceber como a abordagem do terror mudou em tão pouco tempo. Em um episódio da versão de 2002, temos bonecas assassinas que atormentam uma criança durante a história. As cenas de violência e assassinato são mais explícitas, o que não tinha nos anos 60, já que a violência explícita/sangue era algo que não era aconselhável na televisão e no cinema. Talvez a magia de Além da imaginação versão anos 60 resida naquilo que não é mostrado, nas lacunas que a cena te deixa para preencher.

Esse é o Cine Espresso no além da imaginação.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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