A vida de Brian (1979)

A vida de Brian (1979)
Michael Palin, Eric Idle, Terry Jones, Graham Chapman, Terry Gilliam and John Cleese. Seis nomes não muito conhecidos por aqui. Mas se eu utilizar o nome Monty Python, faz sentido pra você?

O Python, um grupo de humoristas britânicos, ficou conhecido pelo seu humor escrachado e, muitas vezes, ofensivo (mas isso só depende de como você interpreta as piadas deles, acredito). Em 1979, eles já haviam atingindo quase todos os limites da genialidade. Monty Python’s Flying Circus, o programa de TV escrito e estrelado por eles, no formato de esquetes, havia sido um sucesso no Reino Unido, pela BBC 4. O primeiro filme deles, Em busca do cálice sagrado (1975), foi sucesso absoluto em praticamente todo o mundo, parodiando a fábula dos Cavaleiros da Távola Redonda.

No lançamento de Cálice Sagrado, os jornalistas queriam saber: sobre o quê seria o próximo filme dos Python. Eric Idle não exitou e respondeu: “Sobre Jesus Cristo!”. Todos riram, pensando que fosse mais uma piada do grupo.

O que eles não sabiam é que, o que era inicialmente uma piada mesmo, acabou virando realidade, e o Monty Python resolveu fazer um filme baseado em histórias bíblicas e, principalmente, na história de Jesus Cristo, naquele que acabou por ser o melhor filme do grupo, e despertou a raiva de muitos britânicos na virada da década.

O que fazem aqui a uma hora dessas da madrugada?
Somos três reis magos, viemos prestar homenagem ao seu filho.
Homenagem? Vocês estão é bêbados. Fora daqui!

Em A vida de Brian, o prólogo mostra o personagem título nascendo no mesmo dia/hora/local que Jesus Cristo, tanto que, no meio de seu caminho, os reis magos param antes na tenda de Brian, onde sua mãe Mandy (Terry Jones, na interpretação mais insana de sua carreira) cuida, de má vontade, diga-se de passagem, do menino. Pronto, o destino de Brian foi definido: ele passará sua vida sendo confundido com o messias. A abertura, após o prólogo, é maravilhosa, com as animações de Terry Gilliam, e a música (outro ponto onde os Python se destacavam.

 O filme começa com a famosa cena de Jesus no sermão da montanha. Mas, apesar de ser conhecido como uma paródia da vida de Cristo, o filme o trata com o máximo respeito – a crítica é direcionada à grande parte dos fiéis, muitos deles hipócritas, como é possível observar durante todo o tempo. Jesus fala, e câmera vai se afastando cada vez mais, quando de repente, uma voz (Mandy, a mãe de Brian!) grita: “Fala mais alto!”. E é isso, está dado o tom de comédia do filme.
 Durante a fala de Jesus, alguns espectadores do sermão começam a brigar, por interpretarem as palavras de forma errada. A cena rende muitas e muitas (e muitas e muitas) risadas:
Spectator: I think it was “Blessed are the cheesemakers”.
Mrs. Gregory: Aha, what’s so special about the cheesemakers?
Gregory: Well, obviously it’s not meant to be taken literally; it refers to any manufacturers of dairy products.

Em seguida, Brian e sua mãe saem dali, com ela irritada com toda a confusão. Ela quer ir ao apedrejamento, onde mulheres não entram, e um ambulante fica na entrada, vendendo pedras de todos os tamanhos, e barbas falsas para que as mulheres que quiserem se disfarçar de homens para assistir. Passagens como essa mostram o grande conhecimento bíblico dos Python, além do humor verbal, típico do grupo.

DETALHE: Praticamente todos os personagens são vividos pelos seis integrantes do grupo. Através desses personagens o filme faz uma crítica massiva ao fanatismo religioso, principalmente por meio dos seguidores cegos de Brian (que não quer ser um messias). Li numa entrevista, há algum tempo atrás, John Cleese afirmando que, para eles, “o problema não era Jesus, mas sim seus seguidores”. Com essa frase já podemos concluir que o filme causou pouquíssima polêmica  (é claro). Mas voltarei nisso logo mais.

“How shall we fuck off, O’Lord?”

 

Não citarei aqui todas as gags do filme (porque senão estaria destruindo a experiência toda de assisti-lo), mas alguns personagens são dignos de nota. Pilatos, interpretado por Michael Palin, troca os erres pelos eles; ninguém o leva a sério (imagina só quando ele se junta com seu fliend, Biggus Dickus. Claro que o povo deita e rola em cima dos dois). Também tem um cara boa vida, vivido por Eric Idle, que tem como passatempo entrar na fila da crucificação só para ser salvo de última hora por seu irmão.

 
 Além deles, o leproso curado por Jesus (Palin novamente) que se ressente por ter recebido a cura, já que agora não tem como pedir esmolas.

Jesus did, sir. I was hopping along, minding my own business, all of a sudden, up he comes, cures me! One minute I’m a leper with a trade, next minute my livelihood’s gone. Not so much as a by-your-leave! “You’re cured, mate.” Bloody do-gooder. (Ex-leproso, para Brian).

O final também, vale dizer, é uma paródia dos musicais americanos: a crucificação acaba em música, e não qualquer música! Always look on the bright side of life tornou-se um sucesso e um clássico na Inglaterra. Composta pelo gênio musical do grupo, Eric Idle, a canção virou hit e até hoje é cantada em jogos de futebol da Europa (como provocação para a torcida perdedora, hehe).

É  claro que na quase nada conservadora Inglaterra, o filme fez um grande estrago. Houve até na televisão um debate, onde John Cleese e Michael Palin (perdendo a paciência, logo ele que é considerado the nicest man in the world!) enfrentaram um bispo britânico e que, cruzando todas as fronteiras da hipocrisia, tinha amantes em todos os cantos do Reino Unido (um fato praticamente público). Vale a pena assistir o debate após o filme, que está no extras da “Versão Imaculada” em DVD, e também no Youtube. Nos extras também ficamos sabendo que quem ajudou o filme a sair do papel foi George Harrison, amigo próximo de Eric Idle, que disse que queria muito ver o filme, e por isso financiou a produção, adquirindo, nas palavras de Idle, “o ingresso mais caro da história do cinema”.

 O filme foi banido de muitos países e os Python receberam ameaças de morte (fanatismo? imagiiiina!) de pessoas que, possivelmente, não assistiram o filme e saíram criticando aos quatro ventos. O bispo hipócrita chegou a dizer que Life of Brian “profanava a figura de Jesus”, coisa que não acontece em momento algum do filme.

Por fim, vale dizer mais uma vez: o filme é uma das melhores comédias já feitas. Para os pseudo-ateuzinhos/nervosinhos de plantão (não me refiro a todos os ateus, só aos mais chatos), é um prato cheio. Para um fanático-religioso-obsessivo-compulsivo: passe longe. Para alguém cuca-fresca e desencanado: altamente recomendável. E para todo mundo: always look on the bright side of life e aproveite as boas risadas que A vida de Brian, com certeza, vai te proporcionar.

Escrito por Camila

Formada em Letras e na Academia Douglas Sirk de sofrência e pregadora na Igreja Universal do Reino de Woody Allen. Uma professora de inglês apaixonada por musicais. Faz parte da Comissão de Avaliação, Seleção e Fiscalização, na área de Cinema e Vídeo, do Financiarte de Caxias do Sul.

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