Um rosto de mulher (1941)

Um rosto de mulher (1941)

Um rosto de mulher, filme de George Cukor, fechou com chave de ouro a era Joan Crawford na Metro Goldyn Mayer (MGM), estúdio que a acolheu desde os anos 20. Dizem que seu Oscar, em 1945, por Almas em suplício foi uma compensação por não ter ganho como a amarga Anna Holm em 1941. Parece que todos os fracassos de Crawford no estúdio (e tinham sido vários, o que lhe rendeu o título carinhoso de ‘veneno de bilheteria’) são esquecidos quando assistimos a esse filme. O papel de Anna Holm é o auge de sua maturidade como atriz.

O filme conta a história de Anna Holm (Crawford), uma mulher amarga com uma queimadura enorme no lado direito do rosto. No começo do filme, ela está em um tribunal, mas não sabemos do que ela é acusada. Aliás, esse é um dos truques mais sensacionais utilizados por George Cukor, o diretor do filme, para criar ansiedade. A história da personagem é contada a partir dos depoimentos das testemunhas no tribunal. Os flashbacks começam e, pouco a pouco, conhecemos melhor Anna. Ela é dona de um chalé-restaurante onde Torsten Barring (Conrad Veidt) e seus amigos estão passando uma agradável noite. Barring, em certo momento, vai pedir fiado ao funcionário do chalé, que nega. Eis a primeira aparição de Crawford. A primeira vista, ficamos chocados. Por que ela está na sombra? Por que está tão maltrapilha assim? Por que ela usa esse chapéu enfiado no rosto? Barring e Anna trocam algumas palavras e o homem resolve aproximar-se mais. Com a desculpa de tirar um cisco de seu olho, Torsten examina o rosto de Anna. Nesse momento, o espectador descobre o porque do chapéu enfiado no rosto: ela tem uma cicatriz enorme no lado direito do rosto. Não bastava a surpresa de ver Crawford “enfeiada” no filme (lembremos que ela exigia o set frio para a maquiagem durar mais no rosto, então daí já podemos ter uma ideia da vaidade da moça), nos surpreendemos ao constatar que Barring não está nem aí para a cicatriz. Ele até flerta com ela! Talvez pela “presteza” do homem, ele consegue o fiado que tanto queria. Barring e seus amigos vão embora, mas algumas cartas de um convidado da soirée ficam no chalé. Não é por acaso: foi obra de Barring, que trocou o seu casaco com o do convidado. Já podemos ter uma ideia do caráter do personagem aí.

Toda a trama gira em torno da beleza. Anna não se acha bonita, é desprezada por todos por causa de sua cicatriz. Assim que descobre que a dona das tais cartas é Vera Segert (Osa Massen), uma linda mulher, ela decide pedir mais dinheiro. A cena em que ela enxerga Vera através da janelinha acima da porta é decisiva para o filme e caráter de Anna, pois é nesse momento que ela enxerga – e nós também– o quanto é “feia”. Nesse momento, podemos perceber o quão miserável a personagem é e porque precisa chantagear e arruinar a vida alheia: é a forma que encontrou para lutar contra um mundo que não tolera pessoas feias. Quando Vera concorda com a chantagem, é Anna quem vai apanhar o dinheiro em sua casa. Aí, meus amigos, se desenrolam umas cenas que comprovam a aptidão natural de Joan Crawford para interpretar vilãs: a cena dos tabefes. Em determinado momento, Anna questiona Vera sobre suas cartas, que comprovam o adultério: “Você chama isso de cartas de amor? Tanta baixeza escrita em uma letra infantil…” Holm faz um discurso inflamado sobre o amor, aquela coisa bem melodramática dos anos 40, quando Vera percebe a cicatriz e acende a luz do abajur. É isso que você chama de cartas de amor, então? E começa a rir. Anna é tomada pela fúria e começa a esbofetear Vera. Acho que foi aí que os estúdios começaram a perceber o poder dos tabefes de Crawford e resolveram adicioná-los em quase todos seus filmes posteriores. Deixa eu contar só mais uma coisinha? Tudo bem. Depois dos tabefes, Anna manda Vera buscar o dinheiro e as joias. Mas como a vida é uma caixinha de surpresas para Joseph Climber, o marido de Vera, o Dr.Segert (Melvyn Douglas), chega. Pronto. Ferrou. Babou. Mas não. Dr. Segert é um médico, que acaba operando o rosto de Anna. E aí, meus amigos, o filme vai começar de verdade. Mas pretendo deixá-los com bastante curiosidade e não contar mais nada.

 

É interessante perceber como a metáfora, que chamo de dualidade, está presente nesse filme. Todos têm dois lados: um bom e o outro ruim. A cicatriz de Anna simboliza nosso lado sombrio, aquele que ninguém conhece. No entanto, no caso da personagem, a lógica é invertida: conhecemos apenas seu lado ruim. O lado bom existe, mas está guardado, lá no fundo, como que esquecido. Quando Anna é operada e a operação é um sucesso, o médico lhe diz: “Criei um Frankenstein. Uma mulher com um rosto lindo e sem coração”. Anna replica dizendo que todas as mulheres não têm coração. O filme nos leva a questão: será que Anna era má por causa da cicatriz? Ou ser má fazia parte de sua personalidade? Não sabemos se ela continuará má. E isso é um dos pontos altos do filme para mim.  Outro ponto alto é a tensão sexual latente entre Barring e Anna. O mais legal é o fato de que as cenas entre eles deixam tudo explicitamente implícito. Há um diálogo em que Anna, convidada para ir à casa de Torsten, diz: “Vim aqui com uma única intenção”. Podemos interpretar a frase de duas formas bem diferentes. A tensão sexual entre os personagens é muito forte, tanto que Anna apaixona-se perdidamente por Barring. É como um ímã ao contrário: os mesmos pólos se atraem. Acredito que um dos motivos para essa paixão desesperadora é o fato de que Barring gostou de Holm do jeito que ela é. Com a cicatriz. Má. Essa paixão irá levá-la ao extremo inclusive.

A cirurgia bem sucedida de Anna faz com que as pessoas passem a respeitá-la, já que agora ela é bonita. Nada mais irônico, afinal, Hollywood também só sabia respeitar a beleza. Os feios não eram tolerados. Velhos também não. Mais irônico que isso é a protagonista estar às portas da idade da loba e ser considerada ‘velha’ para o cinema. Mas isso era Hollywood e Um rosto de mulher é um pedacinho desse mundo cruel.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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