Que bom te ver viva (1989)

Que bom te ver viva (1989)

Como é difícil falar sobre ditadura.

É de se esperar que um assunto desses seja evitado, afinal a primeira palavra que associamos à ditadura é “tortura”. Por mais que seja doído relembrar é necessário falar sobre isso. Talvez meu fascínio pela época da ditadura venha disso: ninguém nunca falou sobre isso comigo. Nas aulas de história, a única coisa que tínhamos que saber era a ordem dos presidentes militares e que eles acreditavam piamente no golpe comunista que o João Goulart ia dar. Mas a ditadura não se resume a isso. A ditadura brasileira foi mais que isso.

Mas deixa eu contar um pouco sobre o meu fascínio pela ditadura brasileira. Ele começou em 2008, quando o AI-5 fez aniversário de 40 anos. Na época, eu fazia cursinho para o vestibular e meu colega fazia caricaturas do Napoleão Bonaparte no meu caderno. Em suma: não estava nem aí para nada. Só que um dia apareceu pela cidade inteira cartazes que continham fotos de desconhecidos. Abaixo da foto dizia: “torturado”. Todos os dias eu passava pela avenida João Pessoa e ficava olhando aqueles cartazes. Depois apareceram outros bem mais fortes, com fotos dos militares torturadores. Manchados com tinta vermelha, simbolizando o sangue derramado. Pesquisei os nomes daqueles militares no Google, mas não achei nada de interessante. Um tempo depois, descobri a trilogia do Elio Gaspari sobre a ditadura militar brasileira. Jurei para mim mesma que leria os livros. Um juramento que está quase cumprido, pois já dois dos três livros do Gaspari.

Quando você começa a ler sobre ditadura, duas coisas podem acontecer: 1) você ficar obcecado com o tema; 2) nunca mais querer ler nada sobre o assunto. Ambas alternativas têm algo em comum: você lê sobre ditadura e não é mais a mesma pessoa. Não tem como ser. Comigo aconteceu a primeira opção: fiquei obcecada. De uma maneira muito engraçada. Quanto mais lia o do Gaspari, mais meu nojo aumentava e, ao mesmo tempo, queria ler mais sobre o assunto. Assim li os dois primeiros livros da trilogia nas férias, em questão de dias. Fiquei triste. Com raiva. Minhas mãos tremiam ao virar as páginas em certos trechos. Talvez nunca tenha sentido tanto uma leitura como essa.

Algumas pessoas reclamam que o cinema brasileiro só sabe falar sobre favela e ditadura. Se o cinema não falar sobre isso, quem vai? O cinema não serve só para divertir. Ele deve colocar o dedo na ferida. E o cinema brasileiro o fez muito bem, diga-se de passagem. Um desses “dedos na ferida” chama-se Que bom te ver viva.

No meio de toda essa obsessão pela ditadura, decidi que precisava ver mais filmes sobre o tema. Só tinha assistido Batismo de sangue, o que na época foi mais sofrido que ler o livro do Gaspari, pois a imagem da pessoa sendo torturada te tortura muito mais do que ler sobre. De todos os filmes sobre o tema, Que bom te ver viva me chamou a atenção por se tratar do relato de mulheres vítimas da tortura. Sabia que seria sofrido assistir, por isso adiei até não dar mais.

 Não adiantou nada.

Doeu do mesmo jeito.

Que bom te ver viva mistura documentário com os monólogos de Irene Ravache, que interpreta uma mulher que foi torturada e tenta se reintegrar à sociedade. Um professor disse uma vez que o cinema nos fascina tanto pelo fato de que ele mexe com todos os nossos sentidos. E é verdade. Foi muito mais doloroso ouvir e ver os depoimentos dessas mulheres torturadas do que ler. É difícil não se sentir ofendida, como mulher, quando muitas dessas mulheres contam que sofreram violência sexual ou/e psicológica durante o tempo que passaram presas. No entanto é revigorante ver como elas se reintegraram à sociedade e hoje são mulheres casadas, com filhos. Claro que o fantasma da tortura estará para sempre rondando, mas elas tentam encarar isso da melhor forma possível.

Do ponto de vista técnico, Que bom te ver viva não tem nada de mais. O cenário onde Irene Ravache atua é sempre o mesmo: sua casa. Não importa. O conteúdo do filme ultrapassa qualquer falha na ambientação. Aliás, Irene está nada mais nada menos do que MARAVILHOSA. Ela consegue convencer no papel de uma mulher devastada pelos seus próprios fantasmas sem cair na caricatura. Há um monólogo em que Irene questiona o fato de que as pessoas que sofreram tortura são pessoas como quaisquer outras. Que sentem desejos, vontades como qualquer outra. Fiquei pensando nisso. Pareceu-me óbvio que ás vezes tratamos/vemos essas pessoas à margem. Não acho que seja preconceito. É medo. Um medo de tocar no assunto, de ofendê-las, de fazer com que relembrem desses tempos. Não sabemos lidar com isso. Não sabemos lidar porque não discutimos isso na escola, na vida, onde preferirem. Eu mesma não sei lidar. A dor que sinto por toda essa época, por essas pessoas é mais forte que tudo. Talvez muitas pessoas também se sintam assim, daí o medo de tocar no assunto. E aí que entra o filme de Lúcia Murat: para que possamos discutir sobre ditadura. Para que esse post seja escrito. Nessas horas o cinema me parece a arte mais perfeita do mundo por colocar o mundo em discussão.

Que bom te ver viva é um filme indispensável. É uma pena que a diretora, Lúcia Murat, seja pouco conhecida. Ela está com um filme novo nos cinemas, A memória que me contam, com a Irene Ravache e Simone Spoladore. Sobre ditadura também. Também vocês pensem: mas que saco, só sabe fazer filme sobre ditadura essa aí! Os chatos que me desculpem, mas é preciso que alguém continue fazendo esses filmes. Se a Lúcia não fizer, quem fará? Quem irá criar outros obcecados por esse período negro, que desejam que as pessoas conheçam melhor o que foi a ditadura e suas consequências?

Lúcia pode ficar tranquila quanto ao fato de emocionar: a autora desse post está ainda hoje profundamente mexida com o filme. E ela escreve com a intenção de que outras pessoas também se emocionem, se revoltem, mas principalmente que discutam sobre isso. É cruel? É. É triste? É. Mas aconteceu. Nossos pais e avós viveram esse período. A memória que eles nos contam é diferente daquilo que realmente aconteceu dentro dos porões, quarteis e da cúpula presidencial. O cinema está aí para abrir essa porta para nós.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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