O lado de Joan Crawford que poucos conhecem

O lado de Joan Crawford que poucos conhecem
 
Quando Mamãezinha Querida foi lançado na década de 80, Christina Crawford sabia do alcance que o livro teria. Ela sabia que seria um sucesso, pois quem não queria saber o que acontecia atrás dos muros da famosa casa da família em Brentwood? O que Tina [apelido carinhoso pelo qual Christina era chamada por Joan] não sabia era que aquele livro mudaria para sempre a visão das pessoas em relação a sua mãe.

Joan Crawford morrera em 1977. O livro fora lançado no começo da década de 80. O corpo nem tinha esfriado no caixão quando o mundo ficou chocado ao descobrir que uma das mais famosas atrizes de Hollywood era uma mulher problemática, alcoólatra, maníaca por limpeza e que tinha sérios problemas de relacionamento com os filhos adotivos. Mas não parou por aí. Não. Não bastasse o lançamento do livro, um filme inspirado nele foi feito pouco tempo depois. Faye Dunaway, sobre quem Joan teria dito “ela tem classe, tem tudo para ser uma grande estrela”, agora interpretava o mito do cinema. O que vimos na tela foi uma versão unilateral da história. Vimos Dunaway interpretar uma Crawford problemática demais, bêbada demais, dramática demais. O filme entrou para a história do cinema como um fracasso. Fracasso esse que se tornou um clássico do cinema trash. Parecia que uma profecia estava se cumprindo: ninguém nunca mais viu Joan Crawford da mesma forma. Ela seria para sempre vista como a mamãezinha querida, que gritava com os executivos da Pepsi Cola e batia com cabides de arame na própria filha. Ninguém se lembrou de Mildred Pierce. Nem de seus olhos enormes que invadiam a tela. Muito menos a facilidade com que ela podia chorar em uma cena. Não, o que ficou foi a mamãezinha querida. Esse talvez seja o monstro invisível com o qual os fãs de carteirinha de Joan lutam até hoje.

A vida de Joan já tinha sido polêmica o suficiente para que mais lenha tivesse sido posta na fogueira. A rixa com Bette Davis já alimentava boatos demais para a tão diplomática Crawford que falava tão bem de sua “rival” nas entrevistas. Também existe a história dos abortos sofridos pela estrela antes de decidir adotar seus quatro filhos. Depois de Mamãezinha querida, ela era motivo de chacota dos fãs radicalistas de Bette, que adoram relembrar o maldito filme e livro. Só esquecem de que a filha de Bette, B.D, também publicou um livro difamando a mãe. Voltando à Crawford, sua carreira talvez não tenha merecido o devido crédito por causa do fantasma de mamãezinha querida.

 
 

O que está em jogo não é o fato de ser ou não verdade aquilo que Tina escreveu sobre a mãe; e sim como todo esse sensacionalismo barato que acabou com a imagem de Crawford. Se fosse verdade, para que jogar tudo no ventilador? Parece birra de uma garota que não aceitou estar no testamento da mãe por “razões que eles [Tina e seu irmão, Christopher] conhecem bem”. Se fosse verdade que a menina apanhava com cabides, por que contar? No começo do livro, Christina narra o dia que ficou sabendo que Crawford morreu. Ela fala sobre ela e Joan terem se perdoado. De como o relacionamento, outrora turbulento, tinha melhorado. Não faz sentido o resto do livro perto desse prefácio. Além disso, ela como filha, deveria preservar o legado da mãe. Não jogar a merda no ventilador, especialmente quando a pessoa envolvida não podia se defender. Uma das filhas de Crawford desmentiu o livro de Tina. Mas já não adiantava, pois o “no wire hangers ever” tinha sido mais forte do que qualquer outra coisa.

Em 2006, o neto de Joan, Casey, encontrou nas coisas de sua mãe um vídeo caseiro de mais de quatro horas. Ali, para mim, repousa toda a contrariedade daquilo que Christina escreveu. É difícil descrever o que senti assistindo a um pedacinho dele, pois o resto do vídeo é propriedade de Casey e só foi exibido uma ou duas vezes na UCLA. Até eu, uma Crawford fan assumida e traidora do movimento [já que fiz parte dos fãs radicalistas de Bette Davis], estava conhecendo um lado nunca visto. Para os que nunca viram Crawford em cores é o paraíso. Ela consegue ser ainda mais bonita em cores do que no p&b. Foi realmente emocionante. Senti um aperto no coração. Vídeos caseiros dos artistas da época de ouro de Hollywood sempre tem um quê de nostalgia, mas esse era um quê de tristeza mesmo. Só enxerguei tristeza, ainda que o sorriso e os cabelos ruivos de Joan invadissem a tela. Tristeza porque o mundo só tem uma única imagem de Crawford e é a da louca dos cabides. Ninguém estava vendo aquela mulher, super feliz com a maternidade, que teve coragem de ser mãe solteira quando isso ainda era um tabu. Aliás, Crawford só foi mãe solteira por ser atriz mesmo. Se fosse uma mulher mundana, jamais conseguiria adotar uma criança. Enfim, acho que nesse vídeo Joan só quer Lucille [seu nome de batismo]. Ser uma mãe para sua (quase) recém chegada Tina. Como alguém que se comporta dessa forma pode bater com um cabide em uma criança? Como? Não sei. Isso é algo que sempre me intrigou.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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