Crescei-vos e multiplicai-vos (1964)

Crescei-vos e multiplicai-vos (1964)
 

Nenhuma atriz representa melhor a mulher dos anos 60 para mim do que Anne Bancroft. Talvez a Sra.Robinson, personagem de A primeira noite de um homem, contribua para esse pensamento, afinal é difícil não se lembrar desse filme quando falamos dessa época. Apaixonada pela atuação dessa linda, fui procurar outros filmes dela para assistir. Foi assim que conheci The pumpkin eater (rebatizado por aqui de Crescei-vos e multiplicai-vos), um filme dois anos após seu Oscar pela arrebatadora atuação em O milagre de Anne Sullivan. Inclusive um Oscar roubado devidamente de Bette Davis, veja bem.


The pumpkin eater é desses filmes que te enganam monstruosamente pelo trailer. Quando assisti, pensei: ok, é a história de uma mulher que larga o marido para ficar com outro. Ponto final. Mas uma das melhores coisas em relação à filmes é o fato de que eles podem te enganar tanto para o bem quanto para o mal. O filme é de fato uma história em que uma mulher (Anne) abandona o marido por outro homem, contudo, outras discussões mais importantes que “afinal, com quem ela ficará?” surgem na trama.

Talvez a personagem de Anne, Jo, seja a primeira mulher a sofrer claramente de depressão e isso ser tratado abertamente em um filme. Quando ele começa, vemos Jo dirigindo-se ao jardim para despedir de seu marido, que diz: “Anime-se. Esse seu estado não é nada agradável”. Ao voltar para casa, entramos na cabeça da personagem e, através de suas lembranças, somos levados a conhecer as razões de seu estado depressivo. Ela é uma mulher muito feliz em seu segundo casamento e tem cinco filhos. Quando o amigo de seu marido, Jake (Peter Finch), vai visitá-los em sua casa, é amor à primeira vista. Jo divorcia-se do marido e se casa pela terceira vez com o escritor Jake. Eles vão morar em uma casa enorme junto com as crianças.

Eis que surge Philpot, interpretada por uma Maggie Smith bem novinha, uma personagem que começa a criar os primeiros problemas entre o casal. Ela só sabe falar bem de Jake, Jake isso, Jake é um ótimo escritor, Jake aquilo. Jo acha cada vez mais estranha a maneira com que Philpot fala sobre seu marido, o que a encoraja a perguntar se ele a traiu com ela. Jake nega, jurando que nada havia acontecido entre eles. No entanto, o relacionamento entre os dois já começa a apresentar falhas. Ele está aborrecido de certa forma com aquelas crianças que não o deixam sozinho com a esposa. Ela só sabe viver para as crianças. Apesar de gostar muito delas e tratá-las como filhos biológicos, Jake começa a se irritar cada vez mais com a falta de privacidade. Jo manda os dois filhos mais velhos para uma boarding school, mas isso não ajuda muito; as crianças continuam aprontando todas.

No momento em que Jo fica grávida, me parece que chegamos ao cume do filme. Ela está muito feliz, apesar de seu pai ter falecido, e conta para o marido. Mas Jake, que já não aguentava mais a falta de privacidade criada pelas crianças nem o instinto mais que maternal da esposa, só consegue dizer: Eu não quero que você tenha esse filho. Aí se desenrola uma conversa onde a palavra “aborto” é pronunciada várias vezes e em alto bom som. Jake cria mil e um argumentos para a esposa se convencer a abortar: ela está depressiva, tratando-se com o psiquiatra, ter um filho é perigoso. A criança pode ter danos. No fim das contas, ele acaba convencendo Jo a não ter a criança. E a moça vai abortar toda feliz. Engraçado é pensar que essas coisas ainda acontecem nos dias de hoje, digo, a mulher não tem direito sobre seu corpo; o homem que manda nele. É assim que Jake se torna, além de marido, o senhor do corpo de Jo. Creio que esse foi um dos motivos que agravam o estado depressivo da personagem, embora, depois do aborto, ela desfrute de uma fase boa com o marido. O que não a impede de vagar sem rumo pelas ruas ou ter ataques de choro no meio de estabelecimentos comerciais. Contudo, sou adepta ao seguinte lema: “pior do que tá, fica”. Não bastasse o aborto, a morte de seu pai, Jo se confronta com a traição do marido. Sim, ele a traiu com Philpot. Depois traiu-a com a esposa de um amigo. Ela fica sabendo através do marido desta (James Mason), um homem nojento que tenta aproveitar-se dela. Como se dissesse “tudo bem trair, ele fez isso com você, pode se vingar”. Aliás, a cena em que ele conta para Jo a traição é agoniante. Eles estão no parque e, de repente, quando toda a verdade vem a tona, a câmera dá um close na boca de James Mason falando. O close parece servir para que sintamos de alguma forma a agonia da personagem ao saber de toda a verdade. Além disso, a boca de Mason não é exatamente uma obra prima, o que nos faz ter mais nojo ainda. Nojo de sua boca e das palavras que saem dela. Depois de saber da traição, Jo vai para casa e briga com o marido. O programa do Ratinho deveria aprender muito com essa cena inclusive. A câmera avança em Jake para dar a impressão de que Jo está socando seu rosto. Se pensarmos naqueles tapinhas de mentirinha dos filmes dos anos 40, a briga em The pumpkin é chocante. Porque além da câmera avançando-se em Jake, há Anne Bancroft e toda sua violência e frustração. No entanto, não há limites para a desgraça de Jo. Além de o marido ter traído, a amante está grávida dele. Aí, sim, amigos. Aí, sim, a raiva da personagem explode na tela. Como assim? Ela abortou para satisfazê-lo, ele a trai e a amante ainda está grávida? Odioso. Odioso apenas. O final do filme me frustou um pouco, mas deixo vocês decidirem se tenho razão ou não.

Foi difícil entender o sofrimento de Jo, confesso. Tive de me teletransportar para os anos 60. Hoje seria mais fácil se o dilema da personagem fosse não ter filhos, afinal, muitas mulheres são mal vistas por “negarem” a maternidade. O sofrimento de Jo, para nós hoje, é algo ao contrário: ela sofre por ter muitos filhos. Por querer mais. Jo é mal vista pelo marido por seguir a lógica do casamento naquela época, que era “ter filhos”. O sexo para a procriação. Jake não quer saber disso, ele quer a mulher na cama, quer transar com ela pelo prazer disso. Ela não se dedica a ele. Não o idolatra. Não pergunta sobre seu trabalho. Jo abraça seu dever como mulher e fica dividida entre ele e suas próprias necessidades. Ela não consegue enxergar-se independente dos filhos. Talvez essa fosse o dilema de muitas mulheres nessa época.

Já dá para erguer o monumento para Anne Bancroft pelos papeis sensacionais que ela aceitou interpretar?

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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